A autoridade de Aristóteles desmoronou e ninguém avisou o Papa

No Portugal Contemporâneo procura-se afincadamente a Verdade (reparar no “v” maiúsculo, por favor, que isto é coisa séria). Contudo, no meio das especulações intelectuais inerentes a essa procura surge o ocasional erro. Algo natural no meio do processo de tentativa e erro. Um dos mais recentes é do Joaquim Couto, quando este tenta invalidar os axiomas de base do Objectivismo de Rand. Um axioma, como sabemos, é algo cuja negação implica assumir a sua validade no processo, acabando inevitavelmente em contradição. Mas o Joaquim tentou. Entrou, como diria o Barney Stinson, no sítio onde o possível e o impossível se encontram. No possímpivel.

Escreveu então:

«Quando Rand afirma, por exemplo, que o existente existe, tal facto dificilmente pode ser negado, até porque “existir” faz parte da própria definição do que é “existente”. Mas Rand afirma também que a “existência do existente” não pode ser reduzida a outros factos ou subdividida em partes e aqui é que começa o problema.
De onde vem “tudo o que existe”? A nossa inteligência rejeita que o existente tenha surgido ex nihilo e, portanto, temos de aceitar um Princípio que anteceda e origine tudo o que existe. O existente torna-se assim uma parte de um Todo, desmoronando o primeiro axioma de Rand.»

O primeiro erro nesta passagem é que “não ser reduzido ou subdividido” é um atributo dos axiomas. Isto significa que o afirmado pelo axioma não pode ser simplificado em partes mais básicas para análise. Se pudesse, não era um axioma, era uma proposição. Um axioma não tem de ser aceite. Refutá-lo não significa provar a sua invalidade, algo impossível, significa apenas não aceitá-lo. Desejo boa sorte a quem quiser provar que a existência não existe.

O segundo erro é o de perguntar a origem do que existe. Não é esse o ponto. Isso já é causalidade. Não é necessário saber a causa de algo para saber que esse algo existe, muito menos para saber que a existência, em geral, existe. E não é por fazer a pergunta que o axioma “desmorona”.

Mas o mais interessante nesta questão nem é sequer a tentativa de refutar explicitamente Rand. Interessante é o facto de que a lógica de Rand vem na sequência directa de Aritóteles e São Tomás de Aquino, pelo que abordar as leis da identidade e da não-contradição desta forma é na essência tentar refutar parte importante do pensamento aristotélico e tomista. Extremamente irónico, tendo em conta que o aparente objectivo da refutação é estabelecer uma “Verdade” holística. O próprio São Tomás de Aquino, ao estabelecer o seu princípio da Causa Primeira como uma das vias de prova da existência de Deus, tem a mesma atitude que Rand na aplicação lógica: A questão de qual a causa de Deus não é relevante. Ora, assim sendo, porque haveria a existência de ser diferente?

12 pensamentos sobre “A autoridade de Aristóteles desmoronou e ninguém avisou o Papa

  1. Comunista

    O existente, enquanto simplesmente dado, emerge pela rasura retroactiva da questão da sua origem – esta rasura não é propriamente uma manipulação mas uma inscrição na própria noção de existente. Um existente que questione a origem da sua existência, ao contrário do que se pensa, por exemplo com Descartes, não prova nesse questionar que existe simplesmente, porque se existe aí alguma coisa, é a questão por mor da qual a existência simples do que questiona é suspensa pela dúvida. Até porque se a existência se funda no pensamento, no penso, logo existo, então o problema do ser que existe porque pensa passa para a questão do pensamento enquanto tal – ou seja, embrulha-se na questão das origens.

    A existência, portanto, é um conceito com algumas fragilidades uma vez que a rasura retroactiva da questão das origens e do fundamento, por outro lado, demanda o ser da origem e do fundamento – ou seja, a existência não se livra da negatividade, da alteridade, uma vez que ela mesma a presspõe na forma da sua rasura.

  2. Bst

    Creio que o Santo Padre necessitará pouco de ser informado das autoridades que se demoronam ou ressurgem. Nestas matérias, a corrente costuma vir da Alemanha (às vezes em 2ªas e 3ªas edições, antes de serem lidas e publicadas em Portugal).

  3. Duvmet

    Interessante. Muito parecido com o candente problema do umbigo de Adão e da problematica da roda nas civilizações précolombianas…
    Vou ali coçar uns insectos microscópicos habitualmente residentes em determinadas zonas púbicas e volto já com a dúvida cartesiana sobre a sua existência.

  4. Duvmet

    E a questão da rasura, upa upa. Faz-me lembrar que o conceito do todo na metafísica do dado, raramente coincide com o símbolo, o lugar do ser, na construção da alteridade programática do instante. E porque assim é, assim existe na sua inexistência cristalinamente críptica.
    E sai um copo de 3 tinto, de estalo.

  5. tric

    mas o existente não existe…basta vêr a história de Portugal…existiu um genocídio cristão em Portugal, mas o branqueamento é de tal forma, que tal existência não existe…e isto seguindo a lógica ideológica comunista, socialista, liberal…cujas ideologias tem como função a transformação do existente cristão em não existente…mas o não existe, também é existente…basta ter como facto que nunca existiu nenhum genocídio em Portugal dos Judeus, mas as ideologias judaicas transformaram essa não existência em existência…os manuais escolares falam dos acontecimentos dos judeus ocorridos em terras longincuas como se tivessem ocorrido em Portugal…ou seja, o não existente é existente…outra do existente não existir…é papel dos judeus no Comunismo…há muitas, então com os judeus e em ambos os sentidos…

  6. Duvmet

    Ah, o horror!
    Mas não, camarada. O meu objectivo, ao citá-lo, é uma tentativa metodológica de prolongar a desconstrução derrideana, aplicando-a numa hermenêutica totalizante.
    Na minha opinião, o movimento dialógico em direcção à redefinição dos sistemas, à visão do mundo não apenas como uma totalidade, mas também como uma série de sistemas em competição, um mundo unido pelas tensões entre os diversos interesses naturais do ser, oferece um relance sobre a contaminação liberal que condiciona o social, profundamente marcada ainda pela sua origem na crise das relações de produção do capitalismo tardio.
    Na verdade o real não é assombrado pela sua própria unidade, mas pelo plano de referência constituído por todos os limites ou fronteiras através das quais confronta o caos e inexiste.
    Mas enfim, isto é apenas uma ideia minha, exploratória, e não me atrevo ainda sustentá-la em termos de (in)existência, para lá dos círculos virtuais da ideia.
    O camarada discorda?

  7. Comunista

    Eu se fosse a você permaneceria nas formulações que lhe são afins.

    “o existente existe”; “o batente bate”; “o pintor pinta”; “o cantor canta”; “estar vivo é o contrário de estar morto”, etc

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