A Espiral Descendente continua

Se alguns ficam hipnotizados pela visão impressionante do descarrilamento de um comboio, a constatação de que quando a 3ª República bate no fundo, a classe política começa diligentemente a cavar, exerce um fascínio semelhante. A aprovação do orçamento do estado para 2013 hoje é simbólica pelo gritante desrespeito pelos compromissos eleitorais assumidos pelos partidos no governo, em particular pelo CDS/PP. E esse desrespeito mina irreversivelmente o regime, pois impossibilita uma relação de confiança entre eleitores e eleitos.

Após cada encenação socrática que terminou em aumentos de impostos, desde a “comissão Constâncio” às várias mudanças do mundo que foram tornando imperativos PEC atrás de PEC, sempre apontei o dedo ao incumprimento dos compromissos eleitorais e à falta de vergonha por trás do processo (promessa irrealista -> incumprimento -> nova promessa irrealiasta -> novo incumprimento). Não posso, em consciência, ter um grau de exigência diferente com o CDS/PP só porque votei nele. Há anos que o estado das finanças públicas é conhecido. Há anos que se sabe que a despesa é inflexível e reduzi-la implica mudanças profundas na concepção e papel do estado. Não há portanto qualquer justificação para dizer que se vai cortar despesa, durante a campanha eleitoral, e depois dizer que não dá para cortar mais e é preciso subir impostos, durante o exercício do poder. To add insult to injury, ainda temos de aturar as encenações de “desconforto”, e tal, que são um atentado à inteligência.

Leitura complementar: A Espiral Descendente; Revisitando a Espiral Descendente; A Espiral Descendente aproxima-se do fundo.

12 pensamentos sobre “A Espiral Descendente continua

  1. “Não posso, em consciência, ter um grau de exigência diferente com o CDS/PP só porque votei nele.”

    Exactamente. Tendo votado da mesma forma, diria que, se diferente, o grau de exigência só poderá ser mais elevado para com o CDS/PP.

  2. Tiro ao Alvo

    Penso que também devemos ser realistas. Sei que é necessário cortar nas despesas, a começar nos salários dos funcionários públicos e a acabar nas prestações sociais, passando pela saúde e pelas outras áreas, mas, temos que o reconhecer, este governo já fez diminuir a despesa pública, e não pouco, e algumas das medidas tomadas só produzirão efeitos com o decorrer do tempo. Por exemplo, congelados como estão, os salários da função pública, e, por arrastamento, todo o sector privado, basta a inflação para, em três ou quatro anos, perdermos, os que trabalham por conta de outrem e os reformados, cerca de 10%. Ora, se a isso somarmos os aumentos dos transportes públicos e outros serviços, fácil é de adivinhar que muita gente vai viver grandes aflições.
    Com tudo isto quero dizer que tenho dúvidas sobre o ritmo dos cortes. Falar é fácil, concretizar é difícil.
    Além disso, onde está a alternativa?
    O buraco era muito grande: a esmagadora maioria do povo não tem consciência da sua dimensão. Nem o povo, nem os governantes anteriores tinham essa consciência. Para mim, o Sócrates e muitos dos seus ministros, não faziam ideia que um mil milhões de euros corresponde a mil vezes um milhão (de euros). A maior parte deles tinha, seguramente, a calculadora avariada…

  3. anti-praticos

    Tiro ao Alvo, e acha que é com uma rajada de tiros fiscal que o défice será eliminado? Então , a direita criticou o anterior governo pelos aumentos de impostos, e agora faz o mesmo? Mas acha que essa direita depois disso ainda merece credibilidade e confiança?

  4. Tiro ao Alvo

    “anti-praticos”, só há duas maneiras de reduzir o défice: aumentar as receitas ou reduzir as despesas. Como sabe (não para reduzir o défice a zero), o governo reduziu despesas e aumentou impostos, sendo que o aumento nos impostos superou a redução nas despesas, diferente daquilo que os partidos, que estão no poder, prometeram em campanha eleitoral. Tudo isto é certo, mas, o que eu digo, é que não vejo alternativa e que, se é certo que o ritmo da redução do défice poderia ser maior, não tenho a certeza de que isso seria possível, o mesmo é dizer que temos que dar tempo ao tempo. Acho eu.

  5. anti-praticos

    Tiro ao Alvo, e o que é que entende por não haver alternativa? Ora caro tiro, isso é completamente mentira, e ao colocar-se nessa poisção, o tiro ao alvo está a dizer que não há alternativa ao mesmo socialismo fiscal dos ultimos 38 anos, colocando-se assim ao lado da continuidade ruinosa em vez de uma politica economica nova e diferente.Pelo que acha mal

  6. Teresa Botelho Moniz

    Caro Tiro ao Alvo, estou perfeitamente convencida que aquela “mentira” de Passos Coelho, e a encenação que se seguiu, de que não conhecia o PEC IV que Sócrates fora mostrar à Merkel, em segredo, antes de o fazer aqui e que escondeu até ao PR, quando afinal se soube mais tarde, que estivera reunido com Sócrates, fora de horas, em São Bento na véspera da partida de Sócrates da sua reunião com a Chanceler, Sócrates, o trafulha, calou-se e porquê? Deixou Passos fazer os teatrinhos e permaneceu calado. Porquê? Porque era essa a combinação que existia entre ambos. Sócrates já estava perdido, o “buraco” era mesmo colossal, e o PSD sabia da verdadeira dimensão do buraco. Assim, o arrivista Passos, que apenas poderia chegar ao “pote”, num momento negro da política e economia, negociou com Sócrates, nessa noite, o cenário que se iria seguir. Sócrates demissionário,eleições à vista, um “jogo” entre eles, que até gostaram de jogar. Qual foi a contrapartida de Passos face a Sócrates? “Aconteça o que acontecer, podes ainda ganhar, ou ganho eu,se perderes, dou-te imunidade, impunidade, jamais revelarei o que vier a ser encontrado, e partes com os teus milhões de comissões que já estás bem. Agora, deixa-me ir ao “pote”, eu , e a minha gente”. E foi assim. Ao contrário do que o povo pediu, com insistência, os dados que foram encontrados, jamais foram revelados e Sócrates vive em Paris, à grande e à francesa. Ainda tem o ónus de tudo lhe ser atribuído, mas sem ser revelado. E mais, acusam-no, mas nunca o foram buscar para responder perante o povo. Porque o PSD, este, actual, é feito da mesma massa, e faz troca. E o povo que se lixe e que pague a ganância destes boys que nos levarão à ruína total, se não lhe limparmos o sebo. Um, por um.

  7. Lucas Galuxo

    ” E mais, acusam-no, mas nunca o foram buscar para responder perante o povo”

    Socrates não fugiu. Respondeu perante o povo em eleições. E saiu dignamente, o seu discurso na noite eleitoral é um dos últimos momentos de nobreza e seriedade política a que assistimos. Passos não tem muitas alternativas. Todos sabiamos que não tinha muitas alternativas, só ele prometia o contrário. Chumbou o PEC IV dizendo que o anterior governo não tinha credibilidade suficiente para dar a volta à situação. Já provou que tem muito menos.

  8. oscar maximo

    Irra, quem fala no PEC IV nunca explica o que é que os 6 milhões em causa têm a haver com um empréstimo de 78 milhões.

  9. Lucas Galuxo

    “Irra, quem fala no PEC IV nunca explica o que é que os 6 milhões em causa têm a haver com um empréstimo de 78 milhões.”

    Tem a ver que está por demonstrar que, se os partidos da oposição têm tido uma postura mais responsável, o estado não poderia continuar a financiar-se no mercado a taxas mais baixas do que aquelas que a Troika pratica. Estão aí Espanha e Itália com uma contribuição para essa reflexão.

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