Alternativas à troika

Um estudo da Nomura estima que a saída do euro e a introdução de um “novo dracma” implique uma desvalorização da taxa real efectiva na ordem dos 55%. E claro, ainda teríamos os efeitos da previsível inflação pós-saída do euro. E claro que isto não eliminaria a necessidade de assistência do FMI dado que, ainda mais do que agora, poucos estariam dispostos a emprestar-lhes dinheiro.

Os que rejeitam a chamada “desvalorização interna” devem pensar no efeito que a desvalorização externa terá nos poder de compra interno.

17 pensamentos sobre “Alternativas à troika

  1. PPorto

    Penso que está a somar implicações que tendencialmente não ocorrerão em simultâneo.

    Se a Grécia sair do euro, é certo que o dracma desvaloriza, mas é muito pouco provável (e menos desejável ainda) que o FMI aceite continuar a financiar a Grécia.

    Em contrapartida, é previsível que os gregos comecem a imprimir moeda para financiar as despesas de um Estado demasiado grande. O empobrecimento que a inflação traz, trará também a consciencia a politicos e “clientes” de que é melhor viver com menos Estado do que com muitas notas no bolso que não chegam pra pagar a comida exposta nas prateleiras.

    É também natural que a economia grega ganhe a competitividade que agora não tem por estar agrilhoada à zona euro. E é esta dimensão económica da questão que irá ser o mais importante, porque é por aí que o problema se resolve, e não por processos financeiros que engordam os Bancos, que engordam os políticos, que engordam “clientes”, mas que definham os povos.

  2. dervich

    “devem pensar no efeito que a desvalorização externa terá nos poder de compra interno.”

    Sim, esse efeito será visível em relação aos bens importados, em relação aos serviços e produtos nacionais tudo ficará na mesma ou até melhor…O impacto do regresso a uma moeda desvalorizada dependerá portanto da estrutura de despesa de cada um e de cada empresa.

  3. Miguel Noronha

    “Se a Grécia sair do euro, é certo que o dracma desvaloriza, mas é muito pouco provável (e menos desejável ainda) que o FMI aceite continuar a financiar a Grécia”
    Depende. Digo eu.

    “O empobrecimento que a inflação traz, trará também a consciencia a politicos e “clientes” de que é melhor viver com menos Estado do que com muitas notas no bolso que não chegam pra pagar a comida exposta nas prateleiras.”
    Ou nao. Nos anos 70 e 80 a “receita” portuguesa passava por desvalorizaçoes periodicas e inflaççao

    “É também natural que a economia grega ganhe a competitividade ”
    A exportaçoes ficarao certamente mais competitivas mas os estragos causados pela inflaçao e desvalorizaçao vao ser muito superiores a actual austeridade

  4. Miguel Noronha

    “esse efeito será visível em relação aos bens importados, em relação aos serviços e produtos nacionais tudo ficará na mesma ou até melhor”
    Depende dos inputs importados nos bens nacionais. Pensemos por exemplo combustiveis. Para nao falar de outras materias primas.

  5. Nos anos oitenta, o nosso processo de “ajustamento”, para empregar uma palavra que certamente te é cara, não foi tão penoso como este. Recuperámos rapidamente, agora não se vislumbra fim à vista.
    A desvalorização da moeda e a sua impressão são instrumentos clássicos da política económica dos estados e, convém não esquecer, do FMI, cujos planos de ajustamento por esse mundo fora assentam nesses dois pressupostos. Não são soluções perfeitas, mas onde é que elas estão? A escolha em política é entre soluções necessariamente imperfeitas; escolhemos, nós os povos, as menos más. Se a discussão fosse feita neste plano, estaríamos a discutir os prós e contras de todas as alternativas, e não a fugir de algumas como o diabo da cruz. Tu parece-me que acreditas em soluções perfeitas, aliás à semelhança daqueles comentadores encartados de economia que colonizaram as televisões.
    Essa da “desvalorização interna”, recorrendo novamente à vossa novilíngua, ser menos dolorosa que a desvalorização da moeda está por provar. O prof. João Ferreira do Amaral já desfez esse mito, comparando a quebra de poder de compra a que assistimos hoje com a ocorrida aquando dos ajustamentos dos anos 80.

  6. Miguel Noronha

    “Nos anos oitenta, o nosso processo de “ajustamento”, para empregar uma palavra que certamente te é cara, não foi tão penoso como este. Recuperámos rapidamente, agora não se vislumbra fim à vista.”
    A memoria ja nao eh o que era. A perda de poder de compra na intervençao do FMI em 83-85 tera sido cerca de 1/3

  7. dervich

    “Depende dos inputs importados nos bens nacionais. Pensemos por exemplo combustiveis”.

    Pensei nisso, mas trocar euros por dólares ou escudos por dólares deve ser indiferente, isto considerando que o euro também está a desvalorizar em relação ao dólar (pelo menos é uma das explicações dadas para o aumento de preço nas bombas).

    “A perda de poder de compra na intervençao do FMI em 83-85 tera sido cerca de 1/3”

    Isso é a minha perda nos últimos 4 anos e, para quem perdeu o emprego, será ainda mais, portanto…que se lixe!

  8. Miguel Noronha

    “Pensei nisso, mas trocar euros por dólares ou escudos por dólares deve ser indiferente”
    mesmo que o euro se desvalorize sera sempre menos que a Grecia cuja economia esta em muito pior estado.
    No caso do USD estima-se que o cambio passe dos 1.31 do euro para 0.59 do novo dracama. Mesmo que o euro voltasse ah paridade o que ja seria um tombo bastante significativo o impacto seria sempre muito superior para a Grecia. E com a convesao forçada de todos os depositos e rendimentos a perda de poder de compra seria da mesma ordem.

  9. PPorto

    Pois, MN, repare que as suas respostas partem do pressuposto de que continuaremos a viver com os livros de história económica fechados. Não é que isso em grande medida não aconteça, mas o problema da inflação é certamente uma área em que não acontece.

    Nos anos 80 a receita portuguesa não era a inflação, e tanto assim que pedimos ajuda ao FMI. Nos anos 70, de facto, foi. Neste caso, atendendo a situação económica do pais (perda de competitividade externa por aumento dos salários) associada aa perda de mercados africanos protegidos, a inflação foi a solução possível.

    Quanto aos estragos que refere; não ha estragos superiores aa atual austeridade, porque a atual austeridade nem sequer serve para pagar a dívida, como se tem visto com os perdões sucessivos da divida grega. O problema é o efeito económico que resulta da prossecução desta solução financeira. Acresce que os desajustamentos resultantes de “uma mesma moeda para economias diferentes”, mais do que impedir o crescimento económico da Grécia, estão a conduzir a Grécia aa inviabilidade economica. A continuar por este caminho, a Grécia arrisca ser o primeiro estado falhado gerado pela UE. E nós a caminho.

  10. Miguel Noronha

    “Nos anos 80 a receita portuguesa não era a inflação”
    Basta ver as taxas de inflaçao do decenio 1975-1985

    “Quanto aos estragos que refere; não ha estragos superiores aa atual austeridade, porque a atual austeridade nem sequer serve para pagar a dívida,”
    Se se esta a referir ao aumento de imposto concordo. A soluçao passa por reduzir substancialmente a despesa.

    “Acresce que os desajustamentos resultantes de “uma mesma moeda para economias diferentes”, mais do que impedir o crescimento económico da Grécia, estão a conduzir a Grécia aa inviabilidade economica”
    A Grecia eh um caso perdido na zona euro e ja devia ter saido ha muito. Esperemos que nos nao a sigamos. Devolver aos polticos nacionais a impressora eh literalmente entregar o ouro aos bandidos.

  11. Miguel Noronha

    “atendendo a situação económica do pais (perda de competitividade externa por aumento dos salários) associada aa perda de mercados africanos protegidos, a inflação foi a solução possível”
    Pois. Tudo menos tentar conter a despesa e moderar os aumentos. Recordo que as principais empresas estavam na altura nacionalizadas portanto ao estado tinha de facto a possibilidade de conter esses aumentos. Como nao havia coragem para tomar as medidas certas a receita era o imposto inflaçao.

  12. PPorto

    MN,

    Nos anos 80 a inflação foi contida.
    Nos anos 70 optou-se pelo mal menor no meio do caos; admito que tenha sido “sem querer”, em todo o caso, foi o possível.

    Concordo csg quanto ao problema de pôr as impressoras de notas nas mãos dos políticos, mas se reparar eu escrevi que que até Mario Soares (quando ainda não andava com este amigo alemão com um nome esquisito) compreendeu a questão e chamou o FMI.

    Fica um problema: as máquinas de impressão de notas de euro (as tais que o MN nao quer que estejam nas mãos de políiticos) estão nas mãos… de políticos, e dos políticos da pior espécie, aqueles que não são eleitos e, em simultaneo, andam a construir imperios; e as tais máquinas estão a trabalhar a 24/7, como se pode observar pelos índices de inflação sem imobiliário.

    E com isto, o euro, depois de ter espatifado as economias do sul vai acabar por espatifar também as do norte. De resto, é bom não esquecer que a Alemanha vai no mesmo caminho que nós – aumento contínuo do endividamento e regressão demográfica. Vai é um bocadinho mais lá atrás. Mas é tudo uma questão de tempo.

  13. Miguel Noronha

    “Nos anos 80 a inflação foi contida.”
    Depois de 85. Mesmo assim continuo em niveis bastante elevados para o que agora estamos habituados.

    “Fica um problema: as máquinas de impressão…”
    É preferivel um BCE independente que um banco central às ordens dos politicos. E quanto à legitimidade dos dirigentes do BCE recordo que eles são nomeados por políticos eleitos. Não tem é felizmente ordens para monetizar os defices. Ainda que tenham andado a fazer demasiadas asmeiras. Aquele balanço deve andar uma desgraça-

  14. lucklucky

    “Nos anos oitenta, o nosso processo de “ajustamento”, para empregar uma palavra que certamente te é cara, não foi tão penoso como este. ”

    No auge da crise dos anos 80 pelo menos Lisboa e suponho que outras cidades apagavam a maior parte das luzes publicas e assim como as lojas ficavam às escuras. Disto lembro-me eu bem.

  15. PPorto

    “É preferivel um BCE independente que um banco central às ordens dos politicos.”
    Ok, agora percebo a nossa divergência. Eu estava a falar do BCE deste lado da galáxia. No BCE deste lado da galáxia, o tal que tem como vice presidente vitor constancio (este nome diz quase tudo sobre a independencia da “coisa”), e como Presidente Mário Draghi (que faz a ligação da “coisa” à bancocracia mundial). O BCE é tudo menos independente. Pelo contrário, o BCE é uma peça chave na estratégia de construção de mais um imperio antidemocratico, da “fortaleza europa”.

    Enfim, se os nazis soubessem que o seu sonho de uma moeda única europeia e de uma europa unida sobre a égide alemã se podia concretizar sem balas, em lugar de andar a ocupar a terra dos outros teriam antes proposto fazer uma UE como aquela que agora está a ser “construida”. E hoje a Alemanha teria 100 milhões de habitantes, em vez de 80, a Prussia Oriental ainda seria habitada por alemães.

  16. Miguel Noronha

    “No auge da crise dos anos 80 pelo menos Lisboa e suponho que outras cidades apagavam a maior parte das luzes publicas e assim como as lojas ficavam às escuras. Disto lembro-me eu bem.”
    Eu recordo-me bem das “marchas fome”. Realmente já não há memória.

  17. A medida pretende substituir o efeito de uma desvalorização cambial. O primeiro-ministro comparou-a com a desvalorização cambial feita com o FMI no programa de 1983. A medida é um substituto?

    Não é um substituto da desvalorização cambial, isso é um erro comum. Tentar substituir uma desvalorização cambial por uma medida de redução de salários é um erro, aliás, destes programas de estabilização com a troika. As medidas têm consequências diferentes. O primeiro-ministro fez alguma confusão entre desvalorização cambial e queda do nível de vida. A desvalorização cambial no programa de 1983 foi da ordem dos 20%, mas a queda dos salários reais não chegou a 8%. Uma coisa é a moeda desvalorizar-se, outra é o nível de vida baixar. É falso dizer que, nesse caso, o nível de vida desceu 20%. Os salários reais desceram cerca de 8%, o que é bastante menos do que será se a medida da TSU for para diante.

    http://www.ionline.pt/portugal/joao-ferreira-amaral-estes-programas-ajustamento-da-troika-sao-erro-brutal

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