Cidadãos tolos? Apetece dizer como o meu six year old: quem diz é quem é.

Faço parte de uma empresa que age num mercado concorrencial (sendo os concorrentes tanto portugueses como estrangeiros) e vende tanto ao consumidor final como a distribuidores intermédios (novamente tanto portugueses como estrangeiros). O nosso sucesso depende em boa medida, portanto, da capacidade de oferecer ao consumidor final bens que ele queira comprar. E durante nove anos da minha vida a maioria do meu tempo de trabalho foi passada com fornecedores, cá e por esse mundo fora, esolhendo e negociando precisamente esses produtos que, esperava eu, os consumidores finais de vários lugares quisessem comprar. Nesse processo sempre tive duas regras de ouro. Uma: que não devia supor que as outras pessoas quisessem comprar aquilo que eu, no lugar delas, quereria. A segunda e ainda mais importante: nunca assumir que os consumidores finais são burros, sem gosto, incapazes de perceber o valor de um produto e por aí adiante. Considero ter sido muito bem sucedida neste trabalho, mas de vez em quando lá havia alguns produtos que simplesmente não se vendiam ou só se vendiam quando eram saldados. Nestes casos sempre constatei o óbvio – fui eu que escolhi mal – e nunca me passou pela cabeça considerar que os consumidores não sabiam escolher devidamente ou até, fazendo uso de algum dramatismo, que os consumidores ainda não estavam preparados para aquilo que eu lhes havia oferecido. A minha opção sempre foi respeitar a capacidade de discernimento dos outros e não me dei mal.

Isto vem a propósito de quê? Vem a propósito de notícias que têm surgido dando conta da aceitação geral de que é necessário cortar na despesa pública e da consequente desvalorização dessas notícias por quem supostamente sempre advogou a necessidade de cortar na despesa pública, com argumentos muito simples: em geral diz-se sim ao corte na despesa mas em cortes concretos diz-se sempre que não; ou que se é favorável a cortar na despesa mas não nos locais onde a despesa é maior, como saúde e educação. Ou seja, que ninguém é, de facto, favorável a cortes na despesa.

Ora eu – que não sou daquelas pessoas que só sente segurança na sua capacidade intelectual quando vê o que mais ninguém vê e que quando outros começam a ver aquilo que eu já via, começo a ver outra coisa porque não gosto de companhia – tenho a dizer que fico muito feliz com esta disposição geral verdadeiramente austera para as contas públicas, que de resto se percebe por notícias mas também pelas conversas que as pessoas, de todas as proveniências e ocupações, têm no seu dia-a-dia. Há dez anos, se algum jornal perguntasse pelo problema das finanças públicas, não ocorreria a ninguém sugerir que o estado gastasse menos e dispariam logo com atoardas como o combate à evasão fiscal.

Não se enganem e isto é importante: que a questão orçamental seja agora colocada do lado da despesa (bem ou mal, para o caso não interessa) e que a fuga ao fisco ou o imposto sobre as ditas grandes fortunas tenham desaparecido do radar dos cidadãos é uma derrota clamorosa da esquerda e uma importante vitória cultural da direita.

Quanto aos dois argumentos usados para menorizar esta recente conquista da direita, por acaso esperava-os mais vindos de apreciadores de Keynes e dos seus animal spirits do que vindos também dos sectores liberais (enfim, ditos liberais), que supostamente consideram os indivíduos capazes de fazer escolhas por si próprios sem interferência do estado. Claro que toda a gente que recebe dinheiro dos contribuintes espera que o corte seja no vizinho e não em si próprio. O bom disto? Se se cortar ou se se cortar mais em determinados sectores, esses sextores queixam-se e os outros ficam felizes; se se aumenta impostos, toda a gente se queixa. Há vantagem em fazer cortes. (Veja-se a solidadiedade que gerou o protesto dos artistas: nenhuma).

Quanto à pouca vontade de aceitar cortes na saúde e educação, duvido que o comum cidadão saiba a parte de leão que estes dois sectores têm na despesa pública. E, vejam lá, não estou com aqueles que acham compreensível erros de António Borges sobre a alocação de despesa pública mas torcem o nariz com superioridade porque alguém sem doutoramento em economia não sabe ainda (e reforço, ainda) que saúde e educação são monstros da despesa. É digno de louvor e prova da inteligência dos inquiridos que neste tempo de desemprego as preocupações das pessoas sejam saúde e educação e não a defesa de subsídio de desemprego, RSI e outros que tais. Acrescento: estas preocupações com educação e saúde, percebe-se bem, não é preocupação com ordenados de professores e médicos (é só ver o entusiasmo geral sucedido com as últimas greves dos médicos: nenhum), mas sim com os serviços prestados aos cidadãos.

Em suma, o governo e seus apoiantes nos aumentos de impostos podem esconder-se atrás de muita coisa para aumentar impostos em vez de reduzir despesa, mas não se podem escudar atrás da vontade dos eleitores. E não vale a pena tentar convencer do contrário.

10 pensamentos sobre “Cidadãos tolos? Apetece dizer como o meu six year old: quem diz é quem é.

  1. jhb

    “e que a fuga ao fisco ou o imposto sobre as ditas grandes fortunas tenham desaparecido do radar dos cidadãos é uma derrota clamorosa da esquerda e uma importante vitória cultural da direita.”

    Finalmente a Direita reconhece que a fuga ao fisco por parte das grandes fortunas está-lhe na alma…

  2. Maria João Marques

    Não sei bem o que quer dizer, jhb, porque uma porção pornográfica do total de impostos pagos em Portugal é pago por uma pequena minoria endinheirada da população. Pelo que se diz que as grandes fortunas não pagam impostos, é ignorante.
    Se diz que a direita pensa que quem tem grandes fortunas não deve ser ainda mais penalizado por isso, então sim, dizemos, com muito orgulho.

  3. jhb

    Sim, eu devo ser ignorante. Estava convencido que a maior parte do total de impostos sobre o rendimento pessoal arrecadados pelo Estado provinha dos rendimentos dos “trabalhadores por contra de outrem” e não de “uma pequena minoria endinheirada da população”. A não ser que para a Maria João Marques os trabalhadores por contra doutrem sejam a tal pequena minoria endinheirada da população, algo que não digo que não venha a acontecer dado o rumo que este governo está a dar ao país…

    De qualquer maneira, o facto de eu ser ignorante não prejudica em nada o meu comentário anterior, onde apenas saudava o reconhecimento de que para a Direita a fuga ao fisco é algo que não a preocupa minimamente… provavelmente até a faz feliz…

  4. Maria João Marques

    ‘Estava convencido que a maior parte do total de impostos sobre o rendimento pessoal arrecadados pelo Estado provinha dos rendimentos dos “trabalhadores por contra de outrem”’.
    Pois, jhb, está enganado. O PedroS já lhe deu percentagens ilustrativas.

  5. jhb

    Nao se precipite, Maria João… Esses 15% de contribuintes com mais altos rendimentos são compostos por quem? Só pelas grandes fortunas? Estará a maioria das grandes fortunas dentro desses 15%?

  6. politologo

    NÃO TEMOS MEDO DOS MERCADOS , ELES QUE PAGUEM A CRISE”
    E ninguém há-de morrer de fome num País com mais ovelhas que Gente e mais canas de pesca que telemóveis” .
    (OLAFUR GRIMSSON – Presidente da ISLÂNDIA)
    E deixa o aviso :
    Não será encerrada nenhuma Escola , um Infantário ou um Hospital para pagamento das “ aventuras e cowboiadas” da Banca e da Bolsa” .
    N.B. E quando se insulta os mercados o resultado é 4 anos após a crise ,
    é o País que mais está a crescer na Europa , tendo o Desemprego caido e 14% para 7% e a Divida Externa desceu apenas para 30% do PIB !…

    “Insultar os mercados prejudica a Economia Nacional” .
    (ANIBAL CAVACO SILVA – Presidente de Portugal)
    E deixa o aviso:
    Os mercados externos têm que ser respeitados na certeza de que se alguém insultar os mercados internacionais (?) vai haver prejuizo para a Economia Nacional .
    “Deus nos livre de termos um Presidente da Republica que não mede as palavras que diz” .
    (castigat ridendo mores)
    E quando não se insulta os mercados , o resultado é estarmos na sub-cave da bancarrota ….
    “Se o dinheiro for a sua esperança de independência, você jamais a terá. A única segurança verdadeira consiste numa reserva de sabedoria, de experiência e de competência.” – Henry Ford
    A OPINIÃO do saudoso ERNANI LOPES sobre os “brilhantes tugas” :
    FACILITISMO
    VULGARIDADE
    MOLEZA
    GOLPADA
    VIDEIRISMO
    IGNORÂNCIA
    MANDRIICE
    ALDRABICE
    COBRAR IMPOSTOS é muito fácil (enquanto houver riqueza)
    DESPEDIR/CORTES CEGOS é fácil
    Organizar/racionalizar/Optimizar é dificil para quem é ignorante e aldrabão
    Pior , o Governo alem de incompetente em razão da matéria , criminosamente apenas governa para as eleições que se avizinham … .

  7. DavC

    15% dos contribuintes com mais altos rendimentos DECLARADOS. Isto é, os trabalhadores por conta de outrem que ganham mais e meia dúzia de empresários que declaram efectivamente os seus rendimentos.

  8. Nogueira da Costa

    “politologo” esqueceu-se de dizer que o problema da Islândia é muito diferente do de Portugal: lá o problema foi mesmo a “cowboyada” de meia dúzia, enquanto que cá o nosso problema é estrutural, é durante décadas ter havido demasiada gente a trabalhar para o estado, “vício” que não se cura facilmente.

    E por cá não temos assim tantas ovelhas nem canas de pesca… temos é muita terra ao abandono e um estado de espírito que dita que ser agricultor é mais reles do que viver do rendimento mínimo. Por cá as pessoas preferem deitar fogo a tudo do que mãos às canas de pesca e aos cajados.

  9. politologo

    NOGUEIRA DA COSTA
    Quando estudei geografia económica , li : “A AGRICULTURA é a ARTE de empobrecer alegremente” (Engº Ezequiel de Campos)
    cumprimentos
    P.S.
    Dantes , Querer é Poder ; hoje , Poder é Saber . O nosso verdadeiro deficit é de SABER .
    O Português deve começar por ver o que nos está escondido …

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