A vida complicada de Paulo Portas

Quem vota no CDS sabe que, à partida, o CDS não ganhará as eleições e, por isso, não liderará o governo. Sabe também que é possível que o CDS acabe num governo liderado pelo PSD, portanto sabe que está efectivamente a votar num governo de coligação CDS-PSD. Apesar de saber que está a votar num governo que será liderado pelo PSD, prefere votar no CDS do que directamente no PSD. Fá-lo porque espera que o CDS influencie de alguma forma o governo de coligação a tomar decisões que o PSD não tomaria sozinho.

Para manter o seu eleitorado, o CDS precisa de demonstrar que é um parceiro de coligação estável, mas que, ao mesmo tempo, tem uma palavra a dizer nos destinos do país. Por vezes estas duas condições não são compatíveis o que coloca o CDS numa posição complicada. Se a intransigência do ministro das finanças em alterar um orçamento para o qual o CDs não foi consultado se mantiver, restam duas opções a Portas.

A primeira opção é rejeitar o orçamento, ficando com o ónus da crise política que se seguir. Ao falhar na sua função de manter uma coligação de governo estável, perderá eleitorado para o voto útil. A segunda opção é aprovar um orçamento com o qual discorda, fazendo passar a mensagem de que é de facto um parceiro menor, disposto a aguentar as exigências do PSD, sejam elas quais forem. Esta segunda opção desapontará o seu eleitorado que vota no CDS especificamente porque espera que seja diferente no PSD e tenha uma voz na coligação. Não evitará também a imagem de ser um partido que se vende ideologicamente a troco de uns tachos.

Sem a flexibilidade de Gaspar, Paulo Portas está em maus lençóis. Uma alternativa é apresentar propostas de redução de despesa de tal maneira inequívocas e consensuais que deixem o ónus da estabilidade governativa no primeiro-ministro e no ministro das finanças. Uma segunda alternativa, mais complicada para alguém como Portas, é deixar passar o orçamento de Gaspar, evitando eleições antecipadas, mas abandonar o governo. Perder o acesso ao pote no curto prazo pode vir a gerar ganhos eleitorais futuros. E o país ganharia uma oposição de direita, que muito necessita.

8 pensamentos sobre “A vida complicada de Paulo Portas

  1. Ventura

    Definitivamente, a opção mais aconselhável para o CDS neste momento seria a apresentação das tais propostas inequívocas de redução de despesa – ao fim e ao cabo são essas mesmo (ou a ausência delas) que criaram esta ruptura entre CDS e PSD. Até porque, na apresentação de tais medidas, a independência do CDS é enorme face a um partido como o PSD que pisa telhados de vidro no que respeita a cortes de despesa verdadeiramente transformadores do paradigma despesista vigente.

  2. Sebastien De Vries

    Este orçamento destroi a coesão nacional.
    O único argumento a que um partido como o PP se podia sentir vinculado e que se compreenderia o pecadilho do anormal aumento de impostos era o da manutenção da pátria nos seus sacrificios.
    Assim, impõe-se a ruptura.
    E dizer na cara do PSD que :
    –é preciso estudar mm quando se está na oposição (conhecer o país);
    –o cds não participou na criação do monstro pinga-pinga-social;
    –debate sobre as funções do Estado na educação, saúde e segurança social: já não há milho para os pardais, porque não há agricultores;

  3. A Republica Cadáver

    Comecemos pelo óbvio:

    1) A proposta de Orçamento para 2013 é suicidária em termos políticos e de imagem pessoal;
    2) Vitor Gaspar e, sobretudo, Pedro Passos Coelho não têm qualquer interesse nesse suicídio;
    3) Nenhum político ou titular de cargo político alguma vez usou a expressão “brutal” para classificar uma medida sua;
    4) Só há duas formas de equilibrar as contas e cortar o défice: aumento de receitas fiscais ou corte radical de despesas;
    5) Há demasiados lobbies prontos a impedir ou dificultar o corte de despesas nas suas áreas;
    6) A diminuição da despesa pública não dá votos, sobretudo a nível autárquico;
    7) Limitar o défice é crucial no sentido de limitar o crescimento da dívida pública, já quase (?) impagável;
    8) A divida pública é o principal obstáculo ao crescimento económico pois drena uma parte importante dos recursos financeiros do estado, directamente, e do sector privado, indirectamente através dos impostos e do aumento do custo do crédito;

    9) Vitor Gaspar acentuou o facto da proposta poder ser alterada ao “ritmo” dos cortes na despesa.

    De 1 e de 2 resulta que não há qualquer razão política que fundamente as opções contidas na proposta de orçamento. Somando 3) e tendo consciencia de todos os outros pontos, só poderá resultar daqui que Vitor Gaspar (com o apoio ou mesmo o patrocínio do PM) está a desenvover uma estratégia de pressão de forma a conseguir o consenso polititico e social mínimo e suficiente para avançar com medidas mais “brutais” de redução da despesa.

    Reparem que tem surtido efeito, quer na coligação quer nos fazedores de opinião pública!

  4. Francisco

    “O CDS não foi consultado para o OE”? Mas alguém acredita nisso? O que estiveram a fazer os ministros do CDS em pelo menos 3 reuniões que duraram umas dezenas de horas? Estavam a fazer o sudoku? Não, a verdade é outra. O líder do PP gosta das habilidades políticas, quer estar dentro e fora ao mesmo tempo, quer estar no poder mas não ter o ónus de participar em medidas difíceis para todos os portugueses. Ou seja, está mais interessado no futuro próximo do partido do que em ajudar a tirar Portugal do sufoco em que se encontra. Para PP o partido está primeiro…e muito à frente do País…

  5. JS

    C.G.P. alvitra; “Perder o acesso ao pote no curto prazo pode vir a gerar ganhos eleitorais futuros.”
    Permita-me.
    Com o perfil cultural do eleitorado português, não parece que o CDS, ou qualquer outro partido de “direita”, venha alguma vez a ter grandes resultados eleitorais.

    Assim sendo a (não) evolução política no País será, com já tem sido, uma sequência de alternãncias entre governos A- Iintervenção externa e B-Governos PS/PSD/CDS..

    A- Iintervenção externa, (FMI e/ou ESM) com controlo absoluto na elaboração do Orçamento de Estado, por necessidade imperiosa. Seguinda de:

    B- Governos PS/PSD/CDS a desbaratar os recém conseguidos equilíbros orçamentais a fim de, demagogicamente, subsistir no “acesso ao pote” durante o máximo de tempo possível, para manter as respectivas clientelas eleitorais, de “esquerda”.

    Desfazer este triste cíclo, que depaupéra o País, geração atráz de geração, só, infelizmente, com uma revolução, seguida de virtuoso processo Constitucional, em contraste com o actual, realizado por uma oportunista politizada minoria, sequiosa de concentração do poder.

    Será que a cultura social do País, entretanto, impulsionada pela crise, evoluio o suficiente?

  6. vivendipt

    O CDS-PP deve apresentar as alternativas ao país. Depois as mesmas serão negociadas no parlamento e analisadas pelo Ministério das Finanças.

    No final, caso o CDS-PP obtenha a inclusão das suas ideias fica se não houver feedback positivo para a inclusão das suas ideias deve então aprovar o orçamento e sair imediatamente da coligação.

  7. lucklucky

    Um post quase delirante sobre o CDS. O CDS quer a RTP! onde raio um partido que quer a RTP vai propor cortes. Não vai.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.