Portugal tem o seu momento Weimar

A República de Weimar é ainda hoje lembrada na Alemanha como um período de catástrofe económica.  Perante o acumular de dívida, o governo recorreu à impressão de moeda para estimular a economia causando um período de forte inflação nos anos 20. Um país com uma economia fragilizada pela hiperinflação não conseguiu depois resistir à grande depressão dos anos 30, abrindo portas à tomada do poder de Hitler. As consequências catastróficas para a Alemanha e para o Mundo desse erro são conhecidas. Mas algo de positivo surgiu dessa experiência: desde essa altura os alemães alimentam uma aversão à inflação e preferência por moeda forte, que tem sido uma das bases do seu desenvolvimento económico nos últimos 60 anos.

Não havia até agora na história económica recente de Portugal um período prolongado de grave crise económica que pudesse marcar a memória dos portugueses (as reservas deixadas pelo Estado Novo e mais tarde a entrada na CEE permitiram ao país absorver de forma mais ou menos pacífica o choque económico do 25 de Abril). Talvez por isso os portugueses se tenham deixado levar tão facilmente nas promessas de crescimento de políticos baseado em despesa pública. Talvez por isso, os eleitores permitiram o acumular de dívida pública sem chamarem a atenção para o facto de esta se tornar insuportável.

Quero acreditar que as pessoas que vêem hoje o seu rendimento disponível baixar devido a este aumento brutal de impostos no futuro olharão com maior suspeita políticos que alimentem défices para cumprir promessas. Quero acreditar que os eleitores farão as contas quando lhes prometerem pontes, estádios de futebol e um pavilhão gimno-desportivo em cada freguesia.

Com consequências, esperemos, menos dramáticas, Portugal tem agora o seu momento Weimar. Por muito desastrosas que as consequências venham a ser (e o pior ainda está para vir), espero que, pelo menos, tal como os alemães, os portugueses aprendam a sua lição. Se aprendermos, não será só uma enorme dívida que deixaremos para as próximas gerações, mas uma lição importante também.

25 pensamentos sobre “Portugal tem o seu momento Weimar

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  2. ricardo saramago

    Para que a lição sirva para alguma coisa a catástrofe terá que ser grande.
    Mesmo assim tenho dúvidas.
    Se deixarmos de ser o país do chicoespertismo, deixaremos de ser portugueses.

  3. paam

    “Quero acreditar que os eleitores farão as contas quando lhes prometerem pontes, estádios de futebol e um pavilhão gimno-desportivo em cada freguesia.”

    A maioria dos eleitores não vê as coisas por essa perspectiva. Quando um político promete algo é o Estado que paga. Só quando os políticos aumentam os impostos é que os eleitores fazem contas. Infelizmente, a maioria das pessoas não consegue perceber a ligação entre o custo das obras públicas e o aumento de impostos. Isto porque durante décadas esse custo era pago pelas transferências da UE e através do endividamento externo. Esse tempo acabou mas as pessoas continuam a não perceber…

  4. lucklucky

    “Quero acreditar que as pessoas que vêem hoje o seu rendimento disponível baixar devido a este aumento brutal de impostos no futuro olharão com maior suspeita políticos que alimentem défices para cumprir promessas. Quero acreditar que os eleitores farão as contas quando lhes prometerem pontes, estádios de futebol e um pavilhão gimno-desportivo em cada freguesia.”

    Tal como os outros não acredito. A maioria nem sabe o que é Dívida Publica nem de onde ela vem…

  5. Ricardo Cerqueira

    A mim faz-me mais lembrar o ano de 1804, quando, numa última tentativa de comprar a paz, Portugal deu 16 milhões de Francos a um ameaçador Napoleão.

    O resultado é o previsível nestas situações e o nosso país só não foi logo invadido em 1805 porque, entretanto, os franceses foram derrotados em Trafalgar. A “recompensa” veio atrasada, pela mão de Junot, em 1807. O que quer dizer que andámos a sacrificar o erário público e o povo, para alterar coisa nenhuma, além de enriquecer mais os bandidos e ficarmos ainda mais fragilizados como país.

    Há certas alturas em que não ganhamos absolutamente nada em “baixar as calças”.

  6. Rafael Ortega

    Essa mentalidade não mudará porque 57% da população, não pagando qualquer cêntimo de IRS, não vê os impostos. O estádio de futebol e o pavilhão gimno-desportivo saiu não do seu bolso, mas do bolso dos “ricos” (em Portugal considera-se rico quem ganha 2000€/mês, já me disseram essa pérola).

    Assim sendo, 57% da população tem apenas a ganhar com as promessas eleitorais que exigirão dívida.

    Seria bem melhor que todos ganhassem mais e a maioria sofresse no bolso as consequências do voto.

  7. nuno granja

    Eu também gostava de acreditar que finalmente as pessoas vão questionar os politicos sobre como vão ser pagas as promessas, mas tenho pouca esperança.

  8. vivendipt

    Acreditar não “custa”.

    A realidade é que grande parte do povo (os menos informados) pensam que estão assim por políticas liberais e por alguma corrupção. Querem que sejam os ricos a pagar a crise. Acham que o grande responsável pelo estado do país é o Passos Coelho e as “elites” políticas também o acusam procurando assim sacudir as responsabilidade do passado político de quando estiveram no poder.

    Só resta “pagar” para ver este circo até ao fim…

  9. Rafael Ortega

    Ricardo Campelo Magalhães,

    O que disse é muito certo, mas desses:

    1. Os que pagam IMI pagam pouco e terão sempre maneira do aumento ser curto (quem ganha 500€ certamente não tem uma casa que pague um grande IMI);
    2. Com os mesmos 500€ dificilmente as poupanças serão grandes, logo os juros são mínimos e o imposto sobre estes ainda menor;
    3. IVA é invisível, mesmo paguem nunca o sentem;

    A talhada que o IRS leva ao salário é bem visível e real. Como existe uma maioria que nunca a sentirá, mas que pode nas urnas sufragar políticas que farão os outros senti-las, o político irresponsável tem todo o incentivo a apelar ao mais português dos sentimentos, a inveja. Os ricos que paguem. Não interessa se o português é tacanho ao ponto de achar que com 5000€/mês já se pode cobrar 50% de IRS (outra pérola que também já ouvi).

    O ideal seria que a maioria tivesse salários suficientes para entrar nos escalões que pagam. Aí acabavam os pavilhões, estádios, rotundas, etc.

  10. Ricardo Cerqueira

    A maioria dos comentadores continua a pensar em “economês” quando o partido nazi e a extrema esquerda na Grécia já chegam aos 40% das intenções de votos (e eles têm um dos maiores arsenais da europa) e quando em Portugal 18% dos militares têm os salários penhorados (eles que fizeram uma revolução em 1974 por verem os seus interesses coorporativos colocados em causa).

    O cidadãos comum, quando bate no fundo, perde a casa (e o investimento da vida), o emprego e a esperança, está-se nas tintas para o facto de haver ou não dinheiro para os negócios das PPP’s, Planos Hidrológicos ou mesmo quem vai pagar a dita “dívida soberana”. A partir de certa altura, quanto melhor, pior. Depois de tudo perdido para cada família, até vai ser divertido ver tudo o resto a desmoronar-se. Eleger um Hitler pode ser uma das soluções. A solução pós-Weimar. Mas parece que os cursos de economia dão pouco relevo às cadeiras de história.

    Quando até Christine Lagarde lança avisos nesse sentido, é porque esta fórmula que estamos a seguir não funciona MESMO.

    Quando perceberem que o “economês” só funciona dentro de alguns limites e não como um fim, provavelmente será tarde demais. Como sucedeu nos anos 30. Mais vamos ter sempre um grupo de “Atlees” a julgar conseguir salvar a Europa com pensos e aspirinas, deixando o bicho crescer até ser incontrolável.

  11. Momento Weimar? Onde está a hiper-inflação? O que eu vejo à minha volta, considerando as descidas nos salários e nos preços do imobiliário, é deflação. Como na Alemanha de 1930/1931, sob o “Chanceler da Fome” Heinrich Brünning.

  12. Rui Silva

    Como chegamos até aqui?
    Não me espanta, um pais que teve presidentes como o iluminado “Jorge Sampaio”, e sempre que, mesmo agora quando abre a boca para sair asneira ficam todos em transe de veneração, desde os comparsas até á “descomunicação social”, o que é que estão á espera …

  13. lucklucky

    “Como na Alemanha de 1930/1931, sob o “Chanceler da Fome” Heinrich Brünning.”

    Interessante como a “fome” só misteriosamente aparece com cortes não com inflação…

  14. Ricardo Arroja

    Excelente post Carlos. Mas nós já tivemos o nosso período Weimar….curiosamente durante a própria República Weimar. A exemplo da Alemanha e da Áustria, também nós tivemos hiper-inflação no após 1ª Guerra Mundial até 1923/24. Curiosamente, acabou na ruína da I República.

    Um abraço,

  15. lucklucky

    Brunning também foi Weimar. Mas é a sequência típica; gastos excessivos> impressão louca(no nosso caso endividamento louco que é outra maneira de criar moeda), como não funciona > cortes e subidas de impostos. Foi assim cá nos anos 80.
    A primeira resposta ao défice foi a impressão com a inflação a atingir mais de 30%. Não funcionou como nunca funciona uma vez que recompensa o infractor.

    Não há dúvidas que vamos pagar a única dúvida é quem vai pagar mais ou menos e como. este governo por cá está a seguir a via socializante com mais impostos do que cortes. A destruir economia livre a favor da economia política/social.

  16. Carlos Guimarães Pinto

    Ricardo, de acordo. Mas as consequências para Portugal desse momento de hiperinflação não foram graves ao ponto de ficar na memória colectiva do país. Ou isso, ou somos mais lentos a aprender com a história do que os alemães.

  17. Paulo Pereira

    o CGP anda a tentar reescrever a historia.

    Em 1929 a Alemanha estava com o resto do mundo num boom económico.

    Em 1931 o RU optou por iniciar politicas ant-recessão , saindo da recessão em 1932.

    A Alemanha optou por politicas de austeridade extremas , o que levou a um desemprego superior a 30% e ao alastramento da pobreza.

    E,em 1933 Hitler ganhou as eleições.

    O a hiperinflação de 1922 / 1923 já estava utltrapassada há 10 anos !

  18. Carlos Guimarães Pinto

    O Paulo Pereira deveria prestar mais atenção ao texto

    “Um país com uma economia fragilizada pela hiperinflação não conseguiu depois resistir à grande depressão dos anos 30, abrindo portas à tomada do poder de Hitler.”

    A palavra-chave aqui é “depois”.

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