Leitura dominical

Sem vergonha nem esperança, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Além da dita pobreza envergonhada, agora também temos, em menos numerosos mas mais notáveis casos, a pobreza descarada. A de Paulo Campos, por exemplo. O ex-secretário de Estado das Obras Públicas declarou em entrevista televisiva precisar do patrocínio mensal dos pais para viver e criar os filhos. Este dilacerante drama não traduz apenas a profunda crise económica do País: traduz sobretudo a crise moral.

Depois de se ter celebrizado pelo seu papel caridoso no Governo, tão caridoso que é alvo de es-tudos (policiais, admita-se), o dr. Campos não recebeu um emprego, uma avença, uma ajudinha que fosse. Depois de o dr. Campos plantar na administração dos CTT dois antigos parceiros numa empresa criada exclusivamente inventada para fazer negócios com uma autarquia, os parceiros e os CTT deixaram o benfeitor de mãos a abanar. Depois de o dr. Campos contratar os “chips” de identificação nas Scut a uma multinacional gerida em Portugal por um sujeito que tivera a honra de ser seu assessor, o sujeito e a multinacional deixaram o benfeitor de mãos a abanar. Depois de aliviar o contribuinte em 600 milhões que reverteram para o grupo Ascendi (Mota-Engil e BES), o grupo e o contribuinte deixaram o benfeitor de mãos a abanar. Etc.

Abanam as mãos do dr. Campos e cai o queixo do entrevistador (José Gomes Ferreira), assombrado perante tamanha falta de solidariedade. É este o Portugal que queremos? Um lugar onde a generosidade é recompensada com desprezo e ingratidão? Um lugar onde os altruístas sobrevivem a expensas paternas (e o salário de deputado)? Aparentemente, sim, e é pena. Num país digno, ao menos o Estado teria a decência de garantir o bem-estar do dr. Campos, zelando para que nunca lhe faltasse alojamento, roupa, refeições regulares e visitas semanais da família, entretanto aliviada de encargos.

2 pensamentos sobre “Leitura dominical

  1. Joaquim Amado Lopes

    Num país digno (ou pelo menos justo), o Estado garantir-lhe-ia também “colegas de quarto” que lhe dariam muito “carinho”, de preferência com frequência e sem lubrificante.

  2. Que maldade, gozar desta maneira com a infelicidade do senhor deputado. Não ouviu o senhor deputado explicar que só na educação dos filhos vai uma grossa fatia do seu magro salário de deputado? E é claro que um deputado e ex-governante, mesmo que se diga socialista, não pode pôr os filhos na escola pública. Poupava muito dinheiro, mas condenava os miúdos à ignlorância e ao convívio com más companhias.

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