Mau jornalismo, inveja e preguiça

De acordo com o jornal i, a Deloitte terá apresentado um estudo onde conclui que o aumento (desde 2000) da carga fiscal foi maior para os escalões intermédios do IRS do que para os escalões mais elevados. Como já vimos aqui n’O Insurgente, há alguns anos, diga-se, a progressividade é de tal modo acentuada no IRS – e existem tão poucos agregados a quem possamos chamar realmente de “ricos” – que a única forma de obter receitas por via de aumentos da carga fiscal é penalizar os burros do costume. Daí que aproximadamente 85% de todo o IRS seja suportado por apenas cerca de 15% da população. Como, lamentavelmente, Portugal é um país relativamente pobre, os agregados com rendimentos superiores a 20, 30 mil euros anuais (os tais escalões intermédios) são considerados comparativamente ricos, caindo sobre eles o grosso dos impostos sobre o rendimento.

Não viria mal ao mundo desta notícia, que peca por tardia, não fosse o facto de ter erros de palmatória. E tal é a preguiça vigente, que o Jornal de Negócios elaborou uma notícia que citando o i (ao menos isso), transcreve na integra os erros de palmatória, sem que o responsável pelo copy/paste se tenha sequer dado ao trabalho de consultar o Portal das Finanças… O primeiro erro é uma inexatidão: Não se pode chamar de classe média os 10% da população que ficam imediatamente abaixo dos 2% mais ricos. Especialmente porque isso dá azo a que o idiótico copy/paster do Negócios escreve um título incendiário («Aumento de impostos foi maior para a classe média do que para os ricos nos últimos 12 anos»). O segundo erro é de método: Se a notícia é sobre um estudo da Deloitte, não deveria conter uma parte importante do artigo com conjecturas mal feitas pela jornalista com base numa leitura deficiente do Portal das Finanças e que podem ser, erradamente, confundidas com conclusões do estudo. O terceiro erro é de análise: A classificação feita por escalões de IRS é imperfeita, pois esses escalões são de matéria colectável e não de rendimentos brutos, bem como de taxas nominais e não efectivas. É mais correcto, como as próprias Finanças fazem, usar a classificação por escalões de rendimento bruto. O quarto erro é inacreditável: A jornalista cita um escalão de rendimentos e vai buscar o total de imposto pago à linha errada da tabela.

Por fim há uma questão que pode ser considerada erro ou não, dependendo da intenção, ou falta dela, da jornalista de influenciar politicamente a opinião pública. A certo ponto da notícia escreve [destaque meu]:

«As estatísticas mais recentes do IRS, relativas a 2010, mostram que 45,8% do imposto liquidado, o que correspondeu a 1257 milhões de euros, foi pago pelos rendimentos anuais entre os 18 mil euros e os 41,4 mil euros. Os rendimentos mais elevados, a partir dos 60 mil euros anuais, são responsáveis apenas por cerca de 20% da receita do imposto.»

Esta comparação é vergonhosa. O que a jornalista não diz é que os agregados que “apenas” pagam 20% do IRS são 0,71% do total de agregados; ao mesmo tempo que o escalão que cita paga 42,8% do IRS (ao contrário dos 45,8% que refere – mais um erro de transcrição) e representa 10,1% dos agregados.

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9 pensamentos sobre “Mau jornalismo, inveja e preguiça

  1. tina

    O Diretor do jornal devia despedir imediatamente esse jornalista, pois a partir de agora não se pode confiar mais no que o jornal diz. É assim que as vendas baixam, pois só faltava as pessoas irem gastar dinheiro com o jornal para depois se chatearem.

  2. Alexandre Gonçalves

    Realmente a patetice não tem limites.

    A jornalista também poderia ter escrito…

    «As estatísticas mais recentes do IRS, relativas a 2010, mostram que 45,8% do imposto liquidado, o que correspondeu a 1257 milhões de euros, foi pago pelos rendimentos anuais entre os 18 mil euros e os 41,4 mil euros. Os rendimentos mais elevados, a partir dos 5,000.000 euros anuais, são responsáveis apenas por cerca de 0% da receita do imposto.»

    É a lógica de querer taxar o que não existe….

  3. ricardo saramago

    São doutores em comunicação social, atrevidos e não têm noção da sua incompetência.
    Tocam de ouvido, “não têm jeito para matemática”, “ler é uma seca”, e estão habituados a fazer trabalhos de grupo “tirados da net”.
    Copiam da net coisas que não compreendem para leitores que também não fazem ideia de coisa nenhuma.
    Estão a estagiar de borla e assim não se lhes pode exigir grande coisa.
    Se não os contratarem no fim do estágio vão fazer mestrados.
    No fim dos mestrados esperam ter a sorte de fazer novo estágio sem remuneração.

  4. Luís

    Por muito que se queixem que os 10% abaixo dos 2% mais ricos não é afinal uma classe média, a verdade é que os restantes 88% cujo rendimento é ainda mais baixo não o são de certeza, e estão ainda mais longe de o ser. Com certeza que concordamos que esta carga fiscal é insuportável, e é absolutamente necessário reduzi-la. Contudo, também deveremos conseguir concordar que havendo esta carga fiscal então é do interesse de todos que aqueles que mais tem sejam também aqueles que mais contribuam para o estado. Afinal claramente que um agregado familiar com um rendimento colectável inferior a 7410€ tem uma margem de manobra financeira muito inferior do que, por exemplo, um agregado familiar com um rendimento colectável superior a 66.045€. Ou será que os pobres deste país são aqueles que tem um vencimento superior aos 5000€/mês?

  5. lucklucky

    Nem vou entrar em questões de liberdade – e a famosa igualdade do TC- mas caso não tenha notado Luís essa política que defende foi a seguida até aqui desde à décadas.

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