Estímulos

(Artigo publicado hoje no Diário Económico)

A abundância de pessoas que clamam contra o Governo, pedindo que este dê “estímulos” à economia em vez de “insistir” na “austeridade”, só é comparável à escassez de dinheiro para se fazer o que pedem. Segundo o dr. Soares, isso não é problema: o dinheiro “fabrica-se quando é preciso”. Mas no mundo real, tudo é mais complicado: por ter o euro como moeda, Portugal não pode fabricar dinheiro; se quem pode o fizer, esse dinheiro perderá tanto mais valor quanto mais for fabricado, e com ele os rendimentos e as poupanças de toda gente. “Austeridade”, portanto. De qualquer maneira, tivesse o Estado com que “investir”, o que não faltou na última década foi “investimento público”, sem que por isso tenhamos evitado estar como estamos.

Por muito que desagrade ao coro contestatário, a única forma de “estimular” (e só a longo prazo) a economia portuguesa é realizar um profundo programa de reformas que diminua significativamente o peso do Estado. Pena que ninguém pareça ter vontade de o levar a cabo.

Se a política governamental revela algo sobre o seu carácter, este é um governo fortemente empenhado em conciliar o cumprimento das exigências dos nossos credores com a satisfação dos interesses clientelares dos partidos da coligação, e que por isso muda tanto quanto possível apenas e só na exacta medida em que tal permita que tudo fique na mesma. É uma disposição, aliás, que parece partilhar com o resto do eleitorado: a crer nas recentes manifestações, se há coisa que os portugueses não querem é uma mudança que desiluda as expectativas que, até há uns anos, tinham para as suas vidas. Receiam seguir o caminho da incógnita das reformas, como se o sentido oposto não tivesse como destino a eternização da “austeridade” contra a qual reclamam.

A começar pelo Governo, e a acabar no eleitorado, ninguém parece ter vontade de fazer reformas que realmente mudem o país. Mas sem elas, os únicos “estímulos” que teremos serão, não para “reanimar” a economia, mas para emigrar.

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2 pensamentos sobre “Estímulos

  1. Paulo Pereira

    Qualquer programa económico que leve à redução do PIB com aumento da divida pública é errado logicamente.

    Só programas económicos que levem ao aumento do PIB ou à redução da divida são lógicos.

  2. JS

    Um dos erros genéticos deste Euro -ainda em vigor- na àrea da economia, é a disgualdade do processo produtivo, nos diferentes Estados, tão artificialmente aglutinados na mesma moeda.
    Não há “estímulo”, à industria de calçado, capaz de corrigir a disparidade que é comercializar -trocar- sapatinho, mesmo incrustados a brilhantes, por Mercedes-Benses, Audis ou BMWs.
    Quantos pares de sapatos -preço médio 25€- foram precisos só para contrabalançar as trinta (30) viaturas da frota automóvel agregada aos Primeiro Ministros?. Não deu, não dá, nem dará!.
    Quantas Licenças de Aplicações de Software terão que ser comercializadas para equilibrar o preço -de importação- dos computadores em que foram desenvolvidas essas aplicações?.
    Nunca esquecendo que os próprios fundos desses, muito discutíveis, “estímulos” não caiem do céu.
    São, apenas, mais empréstimos, e mais juros a amortizar.
    O Presidente Honorário da Internacional Socialista, cá do burgo, como sempre, continua com uma agenda demasiado penhorada aos seus mandantes, demasiado “internacionalista”, e escassamente “nacionalista”. Os resultados estão bem à vista.

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