Maias e o fim da história

A solução para tamanho desmando é aquele que a história, repetidamente, destinou a este tipo de episódios: o incumprimento. Não vale termos ilusões. Seja através das tesouradas gregas ou através dos reescalonamentos irlandeses e portugueses, é incumprimento que teremos. Na dívida pública, na dívida privada, na interna e na externa, com inflação ou sem ela, não há grande volta a dar nem será grande novidade. O maior problema desta crise é que nunca na história moderna tivemos tanto endividamento quanto aquele que hoje existe.

“O fim da história”, artigo de Ricardo Arroja na Vida Económica.

9 pensamentos sobre “Maias e o fim da história

  1. paam

    Semelhanças entre Portugal em 1892 e Portugal em 2012. Descubra as diferenças.

    “Para mim a crise, sob a qual nós vergamos, tem de ser encarada sob três aspectos. O primeiro é o desequilíbrio orçamental; o segundo é a circulação fiduciária; e o terceiro é o desequilíbrio capitalista ou económico, como se quiser chamar, quero dizer, a diferença entre o ingresso e as saídas, quer de mercadorias, quer de capitais
    (…)
    Nós chegámos a este estado, verdadeiramente anormal, de consumir exclusivamente produtos estrangeiros e de trabalhar exclusivamente com capitais estrangeiros; (Apoiados.) de nos dessangrarmos anualmente com o serviço desses capitais e com o preço desses produtos! Assim vivíamos efectivamente e assim vivemos durante largos anhos, se o espaço de meio século, pouco mais ou menos, se pode chamar largos anos; mas vivemos como? Vivemos exagerando a soma da dívida pública até às proporções verdadeiramente esmagadoras em que hoje se encontra.
    (…)
    Chegámos a uma situação em que as medidas médias, os paliativos, são absolutamente improcedentes (Apoiados.) Ou nós conseguimos, por um acto de energia, por um movimento de dedicação patriótica, equilibrar o orçamento imediatamente, ou estamos perdidos. (Apoiados.) Isto é que é necessário que esteja na consciência de todos; ou nós conseguimos equilibrar o orçamento do estado à custa dos sacrifícios, sejam eles quais forem, (Apoiados.) ou estamos irremediavelmente perdidos. (Apoiados.)
    (…)
    Na declaração que o Sr. presidente do conselho proferiu nesta casa, apresentando o gabinete, referiu-se sua Ex.ª a sacrifícios que era necessário reclamar, não só dos funcionários públicos, como dos credores do estado. Eu não necessito confirmar as palavras de sua Ex.ª até porque elas eram, não a expressão de um pensamento individual, mas sim a expressão da opinião colectiva do governo.”
    (…)
    Discurso de Oliveira Martins em 20 de Janeiro de 1892. Ministro das Finanças no governo presidido por Dias Ferreira, Oliveira Martins apresentou o programa financeiro do novo governo, empossado em 17 de Janeiro, para substituir o governo de João Crisóstomo, que tinha tido Mariano de Carvalho por ministro das finanças.

    “O ministro da fazenda Oliveira Martins apresentou um orçamento ao parlamento a 13 de Fevereiro de 1892. Neste orçamento propunha um aumento da tributação dos títulos de dívida pública para 30%, dos impostos sobre os ordenados dos funcionários públicos e das corporações administrativas para 12,5%, 15% às contribuições predial, industrial e sumptuária, e 12,6% sobre os rendimentos de rendas de casas.

    A 13 de Junho de 1892 o estado anunciou oficialmente a impossibilidade de pagar os juros da dívida pública e a bancarrota foi declarada e a crise política instalou-se até pelo menos o convénio de 1902 e eventualmente até à implantação da república (18 anos).”
    http://www.sixhat.net/portugal-120-anos-depois-da-bancarrota-de-1892.html

    A declaração de bancarrota em 1892 foi uma das principais razões para a queda da monarquia, para ascensão e, também, para queda da primeira republica tendo acabado na implantação de uma ditadura. A solução (incumprimento) pode tornar-se no nosso principal problema. Mas também acredito que terá de ser renegociada, mais tarde ou mais cedo, ela constituiu um peso brutal no orçamento. Estamos, novamente, entre a espada e a parede, assim como à 120 anos, utilizando as mesmas medidas tomadas à um século atrás e, ao que tudo indica, com o mesmo resultado. O incumprimento.

  2. ricardo saramago

    Como dizem o governo, o camarada Tó Zé e a troika, o objectivo é “voltar aos mercados”.
    Nesse dia mítico, o dinheiro começará a jorrar outra vez com fartura e podemos todos voltar à nossa vidinha como antigamente.
    Isso da dívida é uma chatice e, como sabemos, as dívidas não se pagam.
    Não se entreguem a amadores – chamem o V. Azevedo.

  3. Ala que se faz tarde

    Nunca na história tivemos tanta fraude fiscal e financeira.

    Uma empresa de fachada pode ser registada com 60 euros, é só escolher o nº de telefone, nem precisa de identificação, até o nome do proponente pode ser falso…

  4. Mário Amorim Lopes

    Com estes e com quaisquer outras políticas económicas, Portugal precisava de crescer a 2% e ter um excedente significativo no saldo estrutural primário para lá para 2030 ter uma dívida pelos 60%. Ora, tendo em conta que cresceu a uma média de 1% nos últimos 10 anos, anos ricos em endividamento e gastos públicos, parece-me muito pouco realista achar que Portugal vá melhorar essa taxa de crescimento sem mudanças estruturais de médio e longo prazo, que demoram tempo a surtir efeito.

    Mas desengane-se Paulo Nespereira, que o crescimento económico não vai surgir do nada, muito menos com esta tributação draconiana. Ou acha que é chutar uns milhões em investimento público que a coisa se resolve? Espere, acha mesmo. Você e a maior parte dos professores de Economia deste país.

  5. Buiça

    O endividamento não é só de Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Irlanda, é do “OCIDENTE” inteiro.
    Para já e como o Japão fazia prever, todos os bancos centrais do ocidente perderam a ferramenta taxa de juro por 20 a 50 anos. Qualquer mexida manda paises inteiros ao fundo durante um seculo.

    E sim, sem fome ou guerra ou ambos nunca se conseguiu desalavancar tanta dívida.

  6. ricardo saramago

    A luta entre os que estão insolventes e os que mantiveram alguma sanidade (famílias e países) vai-se transferir para o nível político e geoestratégico.
    No mundo actual já não é possível negociar a partilha de recursos e mercados como faziam as potências europeias no passado.
    Quando os devedores e os credores são arrastados para o desespero, a guerra é o cenário último e mais incerto em que os vencedores se apoderam de todos os activos que sobrem, mas tem uma consequência: os credores dos vencidos perdem tudo.
    Daí que os credores tentem adiar o mais que podem antes de partir a corda.

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