Ignorância

(Artigo publicado hoje no Diário Económico, não disponível online)

Bastou António Borges apelidar de “ignorantes” os empresários portugueses para a diminuta parcela dos portugueses que presta atenção aos políticos indígenas se entreter a discutir os hipotéticos méritos da classe. Como de costume, ignoraram a questão essencial.

Na realidade, em Portugal, pouco importa a qualidade – ou falta dela – do intelecto dos empresários. E esse é o problema: vivemos num país em que o mérito não é premiado, e a inépcia não é penalizada.
Facilmente se compreenderá que é difícil ser bem sucedido num ambiente económico que, muito antes desta crise, já criava enormes dificuldades a qualquer pessoa que arriscasse investir. Todos nós conhecemos alguém com relatos inacreditáveis acerca das complicações burocráticas com as quais teve que lidar na criação e gestão do mais pequeno negócio, dos problemas colocados pela carga fiscal pesada e complexa ou pelo simples facto dos clientes (privados e Estado) não pagarem a tempo pelos serviços prestados pelo nosso interlocutor. O dr. Borges até poderá ter razão no seu louvor das alterações na TSU entretanto abandonadas, mas se há coisa que nenhum empresário ignora, e que tal medida nada faria para resolver, são estes problemas.

Como nada faria para resolver a quase absoluta dependência do Estado para o sucesso de qualquer negócio: as afamadas “pequenas e médias empresas” vivem sujeitas à carga fiscal que o Estado lhes impõe, e os “grandes negócios” vivem num meio de promiscuidade em que nada se faz sem aprovação ou patrocínio do poder político – o sucesso ou insucesso de uma empresa depende assim do poder reivindicativo do sector em que estas se integram para obter do poder condições favoráveis ao exercício da sua actividade. Em Portugal, em vez de um mercado de serviços e produtos que premeie aqueles que satisfazem os seus clientes, temos um “mercado” de influência política que premeia quem melhor bajula o governo do dia. Em Portugal, a única “ignorância” que prejudica um empresário é a do número de telefone dos ministros.

4 pensamentos sobre “Ignorância

  1. Paulo Pereira

    O Borges deveria ser mandado para casa pelo Passos e assim ele já teria tempo para criar empresas.

    O Passos está a prejudicar o Passos em milhões de euros por ano que o Borges poderia estar a ganhar com as empresas que o Borges já poderia ter criado.

    O Passos está a usar o Borges sem qualquer remorso.

  2. Pingback: No Insurgente andam a ler os os Donos de Portugal – Aventar

  3. Amadeu

    Sr Bruno
    Vê-se mesmo que não percebe patavina do que fala.
    Conte lá alguns dos “relatos inacreditáveis acerca das complicações burocráticas com as quais teve que lidar na criação e gestão do mais pequeno negócio” ?
    Vê-se logo que não foi você, claro, mas conte lá à mesma.

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