A paternidade da dívida

Como referi aqui na sexta-feira, os governos da alegada direita (AD) em Portugal nunca foram capazes de fazer diferente dos governos do PS no que toca à contenção da despesa pública. Se virmos bem, a AD quando está na oposição critica ferozmente inúmeras decisões socialistas e quando vai para o governo não reverte praticamente nenhuma delas; por vezes até as expande. A retórica da responsabilidade orçamental é para a AD na oposição o equivalente à retórica vermelha do PS, colado à sua esquerda quando não está no poder. Como disse Manuela Ferreira Leite em tempos, num lapso hilariante, em 14 anos de governação socialista o PSD esteve apenas 2 anos e meio no poder. Os número são objectivos: nos últimos trinta e tal anos a dívida não parou de crescer, nominalmente, um ano sequer.

 

Tem circulado nas redes sociais a ideia de que a despesa e a dívida pública subiram mais nas governações lideradas pelo PSD do que nas pelo PS. Não sendo minha intenção estar a defender políticos e políticas que são co-responsáveis pela bancarrota nacional, a verdade é que não se devem deixar passar como certas afirmações erradas; nem que seja porque tal encoraja uma liderança do PS que já de si tem uma cara de pau inacreditável, quanto mais se achar que consegue escapar às suas responsabilidades na história.

É sabido que a dívida pública no fim do último mandato de Cavaco Silva era três vezes e meia superior à que ele tinha encontrado em 1985. O que não é referido é que tendo em conta a taxa de inflação, o crescimento real da dívida é muito inferior (embora ainda assim um crescimento anual de cerca de 5% durante os dez anos em que esteve no poder). Por outro lado, é sabido que foi durante o governo de António Guterres que a dívida menos cresceu. O que não é referido é que durante o seu mandato Guterres beneficiou de uma redução dos encargos com juros para praticamente metade, devido à entrada na União Europeia e ao início da convergência para o Euro. (Isto para não falar nas receitas das privatizações, nas PPPs e outros instrumentos de desorçamentação.)

Temos assim que a paternidade da nossa dívida pública é alargada. Se somarmos os valores reais (euros de 2011) de aumento da dívida desde 1980 até 2009, veremos que a responsabilidade está equitativamente distribuida entre os governos liderados pelos PSD e os pelo PS, com este último tendo ligeiramente mais. Se juntarmos os dois últimos anos de Sócrates, os valores do PS aumentam drasticamente. Mas por outro lado, juntando o actual governo, volta a equilibrar; embora a coisa já esteja de tal forma que qualquer governo terá péssimos números, eventualmente sem grande responsabilidade. A culpa dos diversos governos está, não tanto na dívida em si, ou mesmo no crescimento inevitável de certas despesas; está na incapacidade de tomar as medidas necessárias para reduzir a despesa. A cada ano que passa, estas medidas necessárias tornam-se mais drásticas e mais indigeríveis pela população. Se não passámos ainda o ponto de não-retorno, deve estar iminente.

5 pensamentos sobre “A paternidade da dívida

  1. lucklucky

    A subida de impostos também serve para estancar a subida da dívida e deve estar incluído nas contas do ónus. Ou seja básicamente as contas devem ser feitas pelo aumento de gastos do Estado.

  2. tina

    O que é importante analisar é a dívida em % do PIB. A orientação de 60% foi seguida por todos os governos, à exceção de Sócrates. Mesmo antes da crise rebentar, já ele tinha aumentado para 70%. Enquanto todos os governos anteriores mostraram ter controlo sobre a dívida – e isso é que é o mais importante -, Sócrates provou ser um desvairado. Tivemos mesmo azar com aquele maluco.

  3. Paulo Pereira

    Continua a parvoice de olharem para o deficit e não para a despesa.

    Depois admiram-se que nas recessões dá asneira da grossa com a receita fiscal a cair e a despesa social a subir.

    Não aprendem estes candidatos a liberais.

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