O Fascismo Alimentar no seu melhor

Luís Filipe Menezes: Uma candidatura contra o Porto

Muito tem sido dito, incluindo neste blog, sobre a culpabilidade dos autarcas na actual crise. Muito tem sido especulado sobre as autárquicas de 2013. No entanto, pouco ou nada tem sido dito sobre alguns dos poucos casos de boa gestão autárquica, como Ponte de Lima ou Porto. Este último caso, apesar de longe da perfeição ou das ideias políticas características a este blog, surpreende ainda mais, considerando que se trata de um grande município, habitualmente susceptível a lobbies e à tentação de grandes fanfarras. Rui Rio comprou algumas guerras – nem sempre da forma mais inteligente – deu o corpo às balas e venceu. Não ficarão para a história da cidade aqueles que, até mesmo dentro do próprio PSD, profetizavam a sua derrota aquando da polémica com o FCP.

Por contraste, basta atravessar o rio e ver como a cidade vizinha se afunda numa dívida que ascende às centenas de milhões de euros. Foi feita obra sim, mas à custa do endividamento dos contribuintes e da asfixia fiscal que todos começamos a sentir. Gaia é a imagem, a uma escala menor, do que foi feito no país. É a Madeira do Norte. Não estranhemos. Ainda em 2008 o Presidente da Câmara Municipal de Gaia declarava o seu apoio ao programa de obras públicas do Governo de José Sócrates. É portanto um exercício de hipocrisia, de pura desonestidade intelectual e de demagogia de feira a forma com grande parte do PSD se lança contra o anterior Governo e contra a Madeira, para no dia seguinte apoiar a candidatura de alguém que defende o mesmo tipo de política e que, aliás, se define politicamente como sendo de “Centro-Esquerda” e de “Esquerda-Radical”. Não sei se o facto de ter nascido em Ovar explica a sua fixação por grandes carnavais, mas todo o seu percurso político tem sido pautado pela bênção ao despesismo e por um estilo trauliteiro de fazer política que por vezes recorda Santos Silva. O homem que há quase duas décadas se insurgia contra os “Liberais” – como se os Barrosistas fossem anarco-capitalistas ou algo do género – continuou consistente com o discurso que lhe deu fama. Gastou, prometeu gastar. Era ele Líder do PSD, já quando se sentia o peso do défice e da recessão e Menezes passeava-se pelo país prometendo gastar, por exemplo, “200 milhões de contos” nos bairros sociais. Não se olvidem, caros leitores portuenses, no dia das eleições, de que este homem, as políticas que aplicou e as políticas que defende, são directamente responsáveis pelos impostos que pagam a mais, pelo desemprego que vos assola, pelo detrimento da qualidade dos serviços para os quais vos forçam a descontar. O autarca de Gaia sabe de futebol – como demonstrou pelos toques que foi dando nas campanhas – deve saber de medicina – pois é essa a sua formação – e até percebe de discursos.No entanto o seu percurso demonstra que nada sabe de gestão pública que, infelizmente, é a única actividade a que se vem dedicando.

A confirmação de LFM como candidato do PSD à CMP é um novo sinal de que o partido, ideologicamente está podre e que o seu défice de seriedade é bem mais elevado que o défice financeiro – que por sinal é incapaz de domar. É uma candidatura que apesar de nortenha, é provinciana e nada liberal. Representa tudo que de pior há na política portuguesa. O socialismo, o caciquismo, a demagogia e a incoerência. É o complexo da Toranja: laranja por fora, vermelho por dentro. As alternativas são escassas. À esquerda, mais do mesmo. Quanto ao CDS, apesar da posição corajosa e louvável, não tem força suficiente nem quadros de peso para construir uma candidatura de direita capaz de vencer as eleições. Resta o fantasma de Rui Moreia, que nem diz que sim nem diz que não. E resta a posição da ala de Rui Rio no PSD Porto. Só a união destes três grupos – o CDS Porto, os apoiantes da gestão de Rio e a sociedade civil encabeçada por Rui Moreira ou outro – podem formar uma coligação séria, hábil e realista para contestar as esquerdas – laranja e vermelhas – e manter a Invicta no percurso que esta tem seguido. Qualquer outra opção é retornar aos tempos de Fernando Gomes, à promiscuidade entre política e futebol – como observamos na polémica em Gaia com o Centro de Estágios do Porto – à corrupção, aos lobbies e ao esbanjamento do dinheiro alheio. Menezes até pode ganhar (e tudo aponta para isso), mas estou certo que a cidade perderá e muito

A rua árabe está tranquila

A destruição renovação de um dos locais mais sagrados do Islão passa ao lado das preocupações políticas e mediáticas dos dirigentes árabes da genuína rua árabe. Não é de hoje. este avanço progressista:  o local de nascimento de Maomé foi transformado numa biblioteca e a casa da primeira mulher  do Profeta serve como casa de banho pública. Nas últimas duas décadas boa parte do património religioso foi destruído renovado nas cidades de Meca e Medina. A Mossad deve ter deitado algo muito eficaz e tranquilizador nas águas…

Desvios

(artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Quando afirmou que existe “um enorme desvio entre o que os portugueses acham que devem ter como funções sociais e os impostos dispostos a pagar para assegurar as mesmas funções”, Vítor Gaspar, talvez inadvertidamente, pôs a nu a complicada situação em que o país se encontra.

É quase ofensivo dizer-se que os portugueses pagam pouco pelo seu “Estado Social”: entre impostos, “taxas” e “contribuições” (impostos com outros nomes), os contribuintes entregam ao Estado mais de metade do seu rendimento. “Pouco” não é a melhor palavra para descrever o que os portugueses pagam pelo que o Estado lhes “dá” (as longas listas de espera na Saúde, uma Educação medíocre, e pensões e subsídios cada vez mais baixos). No entanto, por muito que paguem, os portugueses não evitam o carácter profundamente deficitário do “Estado Social”. Por muito que paguem, não pagam o suficiente para que a Saúde, por exemplo, não tivesse em Abril um défice de 74 milhões de euros. É algo expectável num modelo de financiamento que usa os impostos como preço indirectamente cobrado: o dinheiro é distribuído de acordo com os critérios dos políticos e funcionários que administram o sistema, e não de acordo com as necessidades das pessoas que recorrem a esses serviços, sendo assim propenso a desperdícios (se as pessoas pagassem, mesmo que subsidiadas pelo Estado, directamente por esses serviços, estes teriam de responder às suas necessidades, regulando a sua oferta de acordo com a procura dos pacientes, em vez dos objectivos traçados pelos políticos e burocratas).

Mas há outras razões para défices como esse: a Saúde é cara, e Portugal não produz riqueza suficiente. O “enorme desvio” que Gaspar não menciona é mais importante que o que referiu: o “desvio” entre o nível de vida que esperamos e aquele que podemos ter. É nesse “desvio” que reside a “austeridade”, e seja com aumentos de impostos, seja com redução da despesa, continuaremos a sentir o seu efeito. Não só precisamos de fazer reformas (que este Governo não quer), como de ajustar as nossas expectativas.

Também quero uma t-shirt da Lusa

Quero uma t-shirt da Lusa. No excelente Contra a Corrente, de Carlos do Carmo Carapinha.

A edição n.º 113.201.002 do Prós & Contras, trouxe à colação o jornalismo.

Presentes: jornalistas, dois professores universitários, jornalistas, o plesidente do Observatório da Imprensa, jornalistas, o plesidente do Sindicato dos Jornalistas e, salvo erro, jornalistas. Gestores ou administradores de órgãos de comunicação? Leitores de jornais, interessados em discutir o tema? Ninguém dessas bandas. A meia-hora de programa, percebeu-se a razão: para a generalidade dos presentes, estabeleceu-se e lavrou-se em acta o entendimento de que o jornalismo é uma actividade sacrossanta, etérea, acima de tudo e de todos, cujos ritos, formas e manifestações se devem exercitar num plano superior à lufa-lufa dos impios mercados e a salvo da ralé das redes sociais, dos blogues e derivados (a qual fará a si própria, se tiver juízo, o favor de rejeitar o regabofe em que anda metida).

Jornalismo, claro está, produzido por gente que sente, pressente e não rejeita, o desígnio grave e divino de estabelecer de um modo seguro e sublime o nosso domínio sobre a substância. Seres, portanto, a preservar, de preferência em atmosfera protegida, e a salvar em caso de ataque nuclear para além do que é humano e vegetativo. (…)

Houve, é claro, excepções: Joaquim Vieira, Pedro Santos Guerreiro e, a espaços, António Costa, tentaram recentrar a discussão num plano, digamos, menos tonto. Um plano, pasme-se, virado para os destinatários do jornalismo: os leitores ou telespectadores.

Pelo caminho, São José Almeida aproveitou para cumprimentar e felicitar os senhores patrões que lhe dão guarida, numa atitude tremendamente tocante, à medida que alertava para os perigos da internet-alienante; José António Cerejo e Pedro Santos Guerreiro abordaram a problemática do «medo» que assola as redacções deste país (muito prosaicamente: o inédito medo de perder o emprego); um dos professores universitários conjecturou sobre a problemática da «mercantilização» do jornalismo (penso que terão distribuído na plateia o dicionário «Gramsci para iniciados»); o outro professor universitário quer as criancinhas a aprender a importância do jornalismo, desde tenra idade (alvíssaras a quem avançar com o método).

A sério: quero acreditar que «aquilo» a que assistimos, não representa a maioria dos jornalistas portugueses. Que as redacções vivem sobretudo do esforço e do trabalho de gente descomplexada, actualizada em relação ao mundo e livre de corporativismos bafientos. Gente ciente da importância do jornalismo nas democracias, mas humildemente conscientes de que o importante são os leitores, e não uma classe. E que o fundamental, at the end of the day, é saber que, no dia seguinte, se tentará fazer melhor – sem autocomiseração, soberba ou enfatuação. De calimeros e pavões estamos todos mais ou menos fartos.

Onde estão os liberais?

Foi hoje aprovado na Assembleia da República o Orçamento de Estado que prevê a maior carga fiscal e a quarta maior despesa pública de sempre. Apesar da retórica, o único deputado do CDS que votou contra o orçamento foi por desejar mais despesa. O único que irá apresentar declaração de voto, provavelmente será pelo mesmo motivo. Este é o partido do contribuinte. Já do PSD, nem boa retórica houve.