O gene

Concorde-se ou não, é sempre com agrado e interesse que se lêem as observações do Pedro Arroja sobre o espaço cultural em que estamos inseridos, em contraponto (e em confronto) com outras culturas próximas. Mas continuo a achar que em tal análise das culturas católicas falta um factor essencial: o factor (ou herança) árabe. Não tenho qualquer evidência científica para apresentar em defesa desta tese. É apenas uma convicção que foi crescendo a partir de alguns factos circunstanciais (para além da História): ser nativo de um país do sul da Europa, viver há anos na cidade que foi o último reduto árabe da península ibérica e ter um conhecimento razoável do Mediterrâneo latino e eslavo (e algumas experiências do outro lado do lago). Vale o que vale. Mas vale o suficiente para estar convencido de que vamos continuar a disparar ao lado do tema central enquanto insistirmos em ignorar este termo da equação. Para que serve acertar no alvo? Talvez para nada. Ou talvez para se chegar à conclusão definitiva de que o “projecto europeu”, tal como tem sido desenhado nas últimas duas décadas, está condenado ao fracasso, e que esse fracasso pode condenar-nos ao jugo da tirania. É que o pilar onde se sustenta o paleio unionista — a matriz cristã da Europa — é uma farsa, e não é porque uns são protestantes e outros católicos. A clivagem é mais profunda.

13 pensamentos sobre “O gene

  1. Luís

    O professor Sobrinho Simões frisava nas aulas que temos uma matriz celta. E que os povos das ilhas britânicas, França, Norte e Oeste da Península Ibérica tinha a mesma origem, de acordo com estudos genéticos. Como houve invasões, os habitantes mais «puros» destas áreas estavam: na Irlanda, País de Gales, França ocidental, País Basco, Galiza, Astúrias, Cantábria ou Noroeste de Portugal.

    Em Portugal, temos de considerar dois povos invasores que alteraram muito a nossa genética: os judeus e os árabes. Tal é mais notório no Sul do território, e menos no Noroeste.

    Orlando Ribeiro frisava a dualidade Atlântico vs Mediterrâneo na nossa cultura e clima. Dizia ainda que do ponto de vista cultural e ambiental o Noroeste de Portugal estava mais próximo da Europa Média do que da Europa Mediterrânica.

    Antes da chegada dos romanos a Península Ibérica estaria dividida em duas metades, com dois povos com origens distintas. As tribos celtas estariam no Oeste e Norte da Península, provavelmente até à foz do Guadiana.

    Foi o Sul de Portugal que mais contactos teve com povos do Mediterrâneo, principalmente o Algarve. O Sul foi mais romanizado, teve mais população sefardita; e esteve mais tempo debaixo do domínio árabe.

    Em suma, temos de considerar que o país tem diferenças regionais marcantes entre o Norte e o Sul… Talvez esse tal gene árabe (e judeu) seja mais marcante a sul do Mondego… e talvez faça pouco sentido no Norte do território!

  2. Carlos M. Fernandes

    Sim, é verdade. E se essas diferenças entre norte e sul são visívieis num país com a dimensão de Portugal, imagine em Espanha.

  3. Luís

    Sim, mas os estudos genéticos que conheço demonstram que o há uma maior prevalência de ascendência sefardita no Sul de Portugal, bem superior àquela que existe a Norte.

    Como já referi, a influência dos povos invasores (árabes, judeus, berberes, romanos) foi pouco importante no Norte de Portugal e Espanha, e os estudos genéticos provam-no.

    Sublinho ainda que os judeus estiveram cá mais de mil anos! Começaram a chegar ainda durante o Império Romano, como provam vestígios arqueológicos encontrados em Mérida!

    O Noroeste de Portugal é outro país dentro do nosso território, faz parte da região eurossiberiana (o resto de Portugal pertence à região Mediterrânica), a precipitação é das mais elevadas da Europa, o Verão climatológico é curto, os sistemas agrícolas tradicionais são idênticos aos que ocorrem na Europa Média, a percentagem de católicos praticantes e de católicos é muito superior àquela que existe no resto do país… e claro depois há a questão genética…

  4. Luís

    Bragança não faz parte do Noroeste. Quando falo em Noroeste falo da região portuguesa eurossiberiana.

    Limites:

    Sul: Ria de Aveiro
    Norte: fronteira com a Galiza
    Leste: serras do Caramulo, Arada, Montemuro, Alvão, Marão, Peneda, Gerês.

    Compreende assim: Minho, Douro Litoral, Beira Litoral Norte, parte da Beira Interior e de Trás-os-Montes.

    A região entre Aveiro e o vale do Mondego é de transição, tal como a Terra Fria transmontana.

  5. António

    Bom post.

    Na realidade é bom perceber que, embora a face mais visível do Islão actual seja a extremista radical, essa é, ainda, a minoritária. Com tendência a piorar…

    O próprio Islão se construiu sobre o monoteísmo cristão e judeu, e sobre o império persa e romano (alguns falam até da matriz grega, deixada pelo império de alexandre…)

    Nenhum povo não tem pureza nenhuma, a nível genético e cultural. E o português é um caso claro de misturas profundas.

  6. Pelo menos parece haver mais genes norte-africanos no Norte do que no Sul de Portugal:

    http://blogs.discovermagazine.com/gnxp/2011/12/basque/ (liguem mais aos comentários do que ao artigo em sim)

    De qualquer maneira, não sei se o CMF estará a falar do gene literalmente ou metaforicamente (referindo-se simplesmente à influência árabe, independentemente de ser cultural ou biológica).

    Uma ideia que me ocorre é se o facto de essas populações terem tido muito tempo governantes com uma matriz cultural distinta do povo (e aqui estou incluindo quer a situação povo cristão – governo muçulmano durante o período islâmico, quer a situação povo islâmico – governo cristão que pode ter ocorrido nalguns sítios após as reconquistas) pode ter contribuido para uma mentalidade de nós vs. eles que legitima uma atitude de desprezo geral pela lei (pelo menos na Grécia, já vi muitas referências à cultura de evasão fiscal ser uma herança dos tempos em que quem não pagasse impostos aos turcos era um herói)

  7. Luís

    O que interessa é a metanálise dos estudos de genética nesta área. E a partir daí conclui-se que a ascendência árabe/berbere ou sefardita é mais marcante a Sul.

    Destaco ainda que segundo alguns autores Portugal é o país da Europa com maior percentagem de marcadores genéticos da África Negra. Tal deveu-se provavelmente a cruzamentos com escravas durante séculos. No Sado, houve comunidades negras.

    Importa ainda olhar para o território e a cultura, e encontrar traços de influência árabe ou mediterrânica. Veja-se a Sul a distribuição da população, mais concentrada em cidades e vilas, o que contrasta com a distribuição da população no Noroeste de Portugal, muito dispersa. No Sul, mormente no Algarve, muitos regionalismos têm origem árabe, e a população, tal como os árabes, usa muitas alegorias, algumas bem engraçadas, no seu discurso oral. Há quem diga que os algarvios têm uma linguagem «cantada». A tradição da quadra popular é mais evidente a Sul, e um dos maiores poetas populares portugueses é algarvio, falo de António Aleixo.

    O clima no Sul de Portugal é idêntico ao que ocorre na bacia do Mediterrâneo e no Magrebe. Já no Noroeste português há apenas 2 meses com menos de 30 mm, e nas serras nem há meses secos. O Minho é mesmo uma das regiões mais chuvosas de toda a Europa. A região eurosiberiana começa a norte da Ria de Aveiro, embora a norte do Mondego já comece a transição.

    As culturas agrícolas tradicionais do Mediterrâneo, a Norte do Mondego, estão presentes apenas em força nos vales isolados do Douro interior e dos seus infliuentes, vales esses isolados dos ventos húmidos oceânicos por uma muralha de serras acima dos 1000 metros de altitude (Arada, Marão ou Gerês).

    De acordo com Orlando Ribeiro, o Noroeste de Portugal já faz parte da Europa Média, atendendo à sua cultura popular, agricultura tradicional, métodos de criação de gado ou demografia. O resto do país faz parte da Europa Mediterrânica.

    O professor Pedro Arroja considera que na nossa cultura popular predominam valores femininos. Manly Hall escreveu que o islamismo é uma religião onde predominam valores femininos. Orlando Ribeiro sublinhou que nos meridionais há uma tendência para o fatalismo, fruto das condiições naturais do seu território, e deu o exemplo da destruição de Pompeia. O Sul da Europa está mais sujeito a sismos, erupções vulcânicas, secas prolongadas e cheias destruidoras.

    Vários autores ao longo de séculos sublinharam as diferenças dos meridionais. Mais dados à força dos impulsos, das emoções. Muito sedutores, belos. Os Europeus para lá dos Pirinéus ou do Norte de Itália seriam mais dados à Razão, controlariam melhor os seus impulsos. A Literatura, a Arte e a Fé seriam atributos dos meridionais. A Ciência ou a Filosofia dos europeus da Europa Média e do Norte. Oposição, portanto, perante Coração e Razão. Os ingleses que faziam a Grand Tour deslocavam-se a Itália, à Grécia ou ao Império Otomano à procura dos prazeres da carne que não eram lícitos nas Ilhas Britânicas… e deixaram registos muito interessantes sobre as diferenças dos meridionais.

    Portanto,as diferenças poderão vir de uma complexa interacção entre clima, território e Homem. O ambiente condiciona a cultura popular. E esta passa de geração em geração, sem mudar muito ao longo de séculos e milénios, apesar das invasões, alterações políticas e religiosas, etc., adaptando-se contudo às modificações que ocorrem ao longo da História.

    Espero ter contribuído para uma discussão que muito me agrada, e que por preconceitos vários não se faz em Portugal. Mas seria fundamental fazê-la!

  8. Em Tragedy and Hope, do Quigley, estão bem explicados os traços de carácter dos povos do sul, de influência árabe (vistos por um protestante). Ele explica quais são, e mostra que estes traços vão do paquistão ao perú (o “pakistani-peruvian axis”), passando por toda a Europa do Sul.

    A melhor descrição que eu tenha lido (apesar de excessivamente negativa).

    Click to access carrollquigley-tragedyandhope.pdf

  9. hcl

    Admitindo que estas diferenças genética/costumes/religião/clima são significativas. Como explicar que todas as grandes civilizações até ao sec. XV são do sul da Europa. Porque não admitir, apenas, que o sul da europa está em decadência após ~4000 anos de domínio.
    O império Otomano desmembrou-se há ~100 anos.
    O império português há ~50 anos (Brasil ~150).
    O império espanhol há ~150 anos.
    A Itália formou-se há 150 anos.
    A Grécia há ~100 anos.
    Todo o Norte de África foi colónia até há ~50 a 100 anos.

    O contraste com o Norte é significativo. Excepto a Alemanha (formada recentemente ~100 anos) os outros países são rezoavelmente estáveis. Os nórdicos não tiveram impérios. A dimensão império/país e população do império/população do país é diferente do sul.

    A ideia protestante vs católico não me convence (ex: Baviera), nem a genética.

    Decadência, sob a forma de desagregação da sociedade, levando a comportamentos “chico esperto” , isso sim, convence-me.

    Nos últimos 5000 anos o Norte da Europa foi mais rico/desenvolvido que o Sul durante ~150 a 200.

  10. Luís

    Os Impérios pouco importam para esta discussão.

    Nos últimos 4 séculos de onde saiu a maioria dos grandes matemáticos, filósofos, químicos, físicos, médicos, teólogos ou poetas? Foi do Sul? Não! Curiosamente as primeiras universidades surgiram no Sul e na Grã-Bretanha, só séculos depois começaram a florescer na Europa Central e do Norte.

    E importa não esquecer que a Holanda, Alemanha, Bélgica ou Reino Unido também tiveram Império.

  11. hcl

    Caro Luís,
    Os Impérios importam, especialmente se, como no caso português, a extensão comparada com a dimensão do país for desfasada.
    A população espalha-se pelo império. O Estado vive do ouro do Brasil e/ou especiarias da Índia e/ou escravos de África etc. criando uma sociedade parasitária na Metrópole.

    Acabou por expor exactamente a minha ideia.
    A diferença Norte/Sul (com vantagem para o Norte) é recente (eu não diria 4 sec. mas 2 a 3 no máximo). O fosso alarga-se pela adaptação (ou não) à revolução industrial. Naturalmente isto exclui razões de ordem religiosa/genética/climática/etc.
    Quaisquer comentários de visitantes do Norte são semelhantes aos comentários de um romano no séc. III. que visitasse o Norte. “São bárbaros mandriões.”

    Na minha modesta (e é mesmo modesta) opinião a adopção da cultura “francesa” com o seu gosto pelo acessório e desprezo pelo empreendedorismo, principalmente a partir do sec, XIX (uma cultura “Gauche”) é uma das razões da diferença.

    Nota: O império holandês (tal como o inglês e menos o francês) no fundo resulta da pilhagem dos impérios decadentes (português, espanhol, otomano, chinês, etc.). É sempre assim, os espanhóis pilharam os Incas e os portugueses na Índia/África/Brasil também fizeram “pela vida”.

    Nota: A riqueza disponibiliza recursos para o ensino/investigação, assim, sociedades mais ricas terão mais matemáticos/médicos/físicos/etc. Tal como os gregos ~V VI VII A.C tinham mais matemáticos/filósofos/médicos/ etc.
    Parece-me uma consequência da diferença, não uma causa.

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