Saltar da frigideira para o fogo

Ontem o primeiro-ministro declarou que a alternativa à subida da TSU para trabalhadores e descida para as empresas será repor um dos salários dos funcionários públicos e aumentar impostos sobre os rendimentos pessoais (IRS), de património (IMI?) e capital (IRC? IRS?). A reacção imediata de José Gomes Ferreira, comentador da SIC, foi a seguinte (video):

esta alteração foi o que, no ínicio, deveria ter sido feito (…)

Agora faz sentido porque, antes, aquela medida de retirar da economia 2.800 milhões euros só dava 500 milhões para combater o défice. Aquele disparate não está ainda explicado. (…) Aquilo não era para combater o défice. (…) Agora todos percebem. (…) Agora [com estas medidas] é claro. É para combater o défice. Agora já começo a perceber.

José Gomes Ferreira percebeu… nada!

As famílias e empresas portuguesas já estão a fazer os necessários sacrifícios, decorrentes do aumento de impostos e da recessão económica que enfrentamos. É ao Estado que falta mudar comportamentos. É o Estado que continua a gastar mais do que recebe. E foi para “cortar as gorduras do Estado” que o PSD recebeu mais votos que os partidos dos que defendiam (ainda) mais despesa pública. Essa foi a principal promessa, quebrada logo no primeiro mês de governação.

Devido ao que posso apenas categorizar de cobardia política, o Governo de Pedro Passos Coelho decidiu cortar o défice através da redução dos salários de funcionários públicos. Isto para evitar ter de medir forças com interesses instalados nos sectores da Educação, Saúde e Segurança Social (onde está a maior “gordura” do Orçamento de Estado).

Mas o Tribunal Constitucional declarou a medida inconstitucional. Referiu que não havia suficiente equidade entre os sacrifícios do sector público e do privado. Para contornar o chumbo (e manter o dinheiro no sector privado, sendo que o combate ao défice continuaria a ser feito exclusivamente através do corte de 2 salários na Função Pública), o Governo decidiu implementar duas medidas numa só: via Taxa Social Única, aumentar impostos aos trabalhadores e “subsidiar” todas as empresas com o objectivo de melhorar a competitividade das mesmas ou, se a medida fosse realmente neutra, facilmente compensar os trabalhadores por tal perda.

Contudo, agora está na mesa outra solução: aumentar os impostos e “subsidiar” os ministérios e empresas do Estado. Reduz-se o défice já não tanto com o corte da Despesa mas com a subida (vamos ver!) da Receita. Caro José Gomes Ferreira, mas então com esta alternativa – claramente pior para a economia portuguesa – “já percebe”???

O Hélder Ferreira está absolutamente correcto quando escreveu:

Posto isto resta-nos, a todos, agradecer encarecidamente ao Tribunal Constitucional, à iliteracia dos media, à inabilidade política do PSD e à irresponsabilidade do PS e do CDS por mais esta insanidade.

6 pensamentos sobre “Saltar da frigideira para o fogo

  1. Paulo Pereira

    A despesa do estado só pode ser reduzida sustentadamente se pelo menos 30% das entidades e chefias do sector publico alargado forem eliminadas.

    Manter a burocracia inutil é uma afronta ao programa eleitoral do PSD, que o Passos está a fazer !

  2. dervich

    “José G. Ferreira percebeu… nada!” Ah não? Como assim?

    Era com 500 milhões que se ia combater 2 pontos de deficit??…

  3. paam

    A medida da TSU permitia ao Estado uma redução na despesa de mil milhões de euros. Este valor era garantido. Agora o Estado vai ter de arranjar forma de compensar este valor através do aumento de impostos. Será mais difícil atingir esse valor por via da receita, principalmente num cenário de recessão:

    As receitas fiscais caíram 2,4% nos primeiros oito meses do ano em relação ao mesmo período de 2011, menos do que até Julho.
    http://economico.sapo.pt/noticias/irs-desagrava-quebra-nas-receitas-fiscais_152439.html

  4. lucklucky

    Os jornalistas são um desastre. Na maioria analfabetos sobre o país. Então ler o texto no Publico de Vitor Malheiros deveria ser guardado como pérola da classe. Juntamente com o “FMI já não vem” de “outro jornal de referência” “Expresso”.

  5. fgr

    Transferir meios dos trabalhadores directamente para as empresas é inaceitável politicamente. Ou até poderia ser aceite, mas para isso seria necessário que a medida fosse claramente apresentada ao país e discutida, apresentados os convenientes e inconvenientes dela e as pessoas convencidas da bondade da mesma; enfim, que fosse feito o trabalho que um governo e os partidos de um pais democrático fariam. Nada disso foi feito. O que quer? Com gente incompetente e cobarde, resta-nos o “liberalismo de estado”…

  6. Carlos Dias

    Já agora, acrescento ao comentário do “dervich”: era com 500 milhões que se ia combater 2 pontos de deficit??…… e com uma economia cada vez mais debilitada?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.