No Fio da Navalha

 

O meu artigo de hoje no jornal i.

Quando a democracia falha

De acordo com uma sondagem da Universidade Católica, 87% dos portugueses dizem-se desiludidos com a democracia. Sentimos que se falhou na democracia quando se permite que mais de metade do que auferimos com o nosso trabalho vá para um Estado que está falido.

O Estado não tem dinheiro. Mas se ninguém quer pagar mais impostos, poucos querem que o Estado deixe de sustentar empresas, fundações, institutos, ensino gratuito para quem o poderia pagar, empregos que não são precisos para nada e subsídios culturais de retorno nulo. O Estado não tem dinheiro, mas a maioria não deixa que se mexa em nada, porque isso seria desestruturar o Estado que, dessa forma, está a desestruturar a economia.

São poucos os que não esperam receber o quer que seja do Estado, nem querem viver na dependência da sua generosidade. A grande maioria prefere contribuir para o bem comum, recebendo o seu quinhão. Dessa forma, caímos numa armadilha: instituímos uma democracia que favorece uma maioria sedenta de favores públicos e desprotegemos os indivíduos, vistos como egoístas e insensíveis. Agora, a maioria massificada virou-se contra a maioria de nós, quando individualmente considerados. Como pessoas, sentimo-nos desprotegidos e frágeis perante o poder cego do Estado, quando a maioria que recebe conhece agora o preço individual da factura. A democracia, se falhou, foi porque negligenciámos a liberdade individual e deixámos os cidadãos sós contra uma maioria que ninguém controla.

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7 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. JS

    ” …instituímos uma democracia que favorece uma maioria …” .
    Ou apenas favorece políticos e mentores?. Um sub-grupo da sociedade.
    E quem a instituiu?. O menino Jesus?. Intocável?. O reconhecido erro é assim tão sagrado?

    PPD/PSD:2.159.181 + CDS-PP:653.888= 2.813.069. “Maioria”, sim, mas muito relativa.
    Abstenção 42%. E cerca de 2.600.00 votos expressos contra. Que representatividade?

    Como A.A.A. muito bem sabe, o problema é: representatividade e qualidade dos “representantes”.
    A qualidade do processo. O envolvimento, e contolo, da sociedade em relação à coisa pública.

    A.A.A., com o poder e representatividade que tem, vai mexer nisso?. 87% de desiludidos?. Desistiu?.
    Mais um acomodado numa “Assembleia da República” de acomodados (para não dizer outra coisa)?.
    Aguardamos, atentos, a passagem das palavras aos actos.
    Cordialmente.

  2. André

    Esta é uma forma muito inteligente de dar a volta a várias questões, com todo o respeito.

    87% estão descontentes com “esta” democracia. Há quem já lhe tenha chamado de “monarquia”, e até mesmo de “senhores feudais vs servos da gleba”. Porque é “desta” democracia, este híbrido que por fora se apresenta como: representativa (assembleia da república); equilibrada nos seus poderes (presidente); e baseada em instituições respeitadas (justiça, banco de portugal, entidade da concorrência, etc.), mas de facto, as pessoas começaram a perceber que de representativa tem muito pouco, de equilibrada tem muito pouco, e, pior, começaram a perder o respeito pelas suas instituições-chave.

    O trabalho de casa está do lado das instituições, não das pessoas. Até porque a sua responsabilidade é muito maior do que cada cidadão. Para sair do impasse terá de envolver todos e cada um. Para conseguir mobilizar todos e cada um terá de ser credível, portanto, terá de se reabilitar aos olhos dos cidadãos, tornar representativo o que não o é, equilibrado o que não o é, terá de dar o exemplo para poder voltar a ver respeitadas as suas instituições-chave.

    Por isso é que colocar o problema nos cidadãos, na sua cultura dependente, é desviar a atenção do problema maior: a cultura de base dos gestores políticos e das instituições-chave, a sua lógica organizativa e funcional.
    Uma democracia saudável clarifica, não esconde; engloba, não exclui; implica trabalho de equipa em colaboração, não cultura de clubes em competição; as decisões são as melhores possíveis para todos; projecta-se no futuro, não desiste.
    Ana

  3. tina

    A resposta seria fazer mais referendos pontuais, ou aproveitar as eleições para votar noutras questões, como é feito nos USA. Mas num país tendencialmente à esquerda como é Portugal, o poder do estado dita sobre as escolhas individuais.

    Um questão importantíssima que deveria ser votada era a imposição de limites ao défice na Constituição. A grande maioria votaria que sim e isto resolveria num ápice o seu problema de desilusão com a democracia. Mas a esquerda não deixa, claro.

  4. neotonto

    São poucos os que não esperam receber o quer que seja do Estado, nem querem viver na dependência da sua generosidade. A grande maioria prefere contribuir para o bem comum, recebendo o seu quinhão. Dessa forma, caímos numa armadilha: instituímos uma democracia que favorece uma maioria sedenta de favores públicos e desprotegemos os indivíduos, vistos como egoístas e insensíveis.

    .

    Este Amaral quem é? O Romney ( Mitt ) a portuguesa?

  5. ricardo saramago

    Para grande parte dos portugueses democracia significa imposição da vontade da maioria.
    Significa também benefícios materiais à custa dos que votam vencidos e dos que no futuro terão que pagar a conta sem terem voto na matéria.
    Percebemos isto quando vemos que 15% dos contribuintes pagam 85% do IRS.
    Perante a impossibilidade de manter esta situação, à medida que forem caindo os benefícios e diminuindo a qualidade de vida, os portugueses vão rejeitar aquilo a que têm chamado democracia.
    O povão está quase maduro para ser enganado outra vez.

  6. lucklucky

    ” mas de facto, as pessoas começaram a perceber que de representativa tem muito pouco, de equilibrada tem muito pouco, e, pior, começaram a perder o respeito pelas suas instituições-chave.”

    Patetice pegada. A Democracia Portuguesa é um muito boa representante da maioria do povo português. Que não quer mais do que viver do dinheiro dos outros.
    Trabalham 3/4 e querem receber 4/4. Ou seja mais de 3 meses grátis por cada ano.

    Quem paga:
    Os Europeus- Subsídios da União e como não bastou temos a Troika.
    Os Ricos – que pagam a maioira dos impostos.
    O Estado Novo – que deixou uma Dívida de 15% e em 30 anos foi aumentada para mais de 120% incontrolável mesmo com aumentos constantes de impostos.
    Os Filhos e Netos- que ficam com uma dívida enorme presa ao pescoço.

  7. Miguel

    “15% dos contribuintes pagam 85% do IRS” (falso, mas assumindo que sim) porquê?

    Porque são esses 15% que andaram a enriquecer e o roubar o dinheiro do estado, da europa, e a aproveitar-se de monopólios nas últimas décadas.

    Eles pagam porque são ricos, e muito poucos chegarama ricos honestamente. São só ladrões

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