Ao sul (3)

O transporte por camioneta na Sicília funciona surpreendentemente bem. Vou da Catânia a Taormina, de Taormina a Messina, de Messina a Palermo, depois para Sciacca, regresso a Palermo, e outra vez para a Catânia. Não há um único atraso e os preços são justos. Cada trajecto é explorado por uma empresa diferente.

Os comboios são da responsabilidade da Ferrovie dello Stato Italiane  (a única excepção é uma linha que dá a volta ao Etna). Não uso. Na preparação da viagem leio sempre o mesmo comentário: as ligações ferroviárias não são fiáveis e são mais caras do que as viagens em camioneta (exemplo: Catânia-Palermo, 15 euros em camioneta, 25 no comboio inter-cidades). Em Espanha sigo a mesma política: só vou pela Renfe, empresa pública que gere a rede de comboios, quando não tenho outra opção (usei os comboios duas vezes em Espanha e, numa delas, um atraso épico quase me custava um voo).

Entretanto, em Lisboa, uma senhora, que dizem ser ministra mas que numa sociedade livre não estaria nem no refugo da hierarquia governativa, afirma, sem se rir, que “está por provar que o sector privado, ao contrário do que se diz muitas vezes, tenha maior eficiência que o sector público“. É isso mesmo.

21 pensamentos sobre “Ao sul (3)

  1. paam

    Nem sempre. Ia perdendo o avião porque o autocarro que me iria levar de Catânia para o aeroporto não apareceu. Felizmente havia uma empresa de taxis ali perto. Tirando este pormenor é verdade que os transportes ferroviários são mais caros e existe uma clara preferência pelo transporte por autocarros.

  2. Carlos M. Fernandes

    O autocarro urbano, suponho. Com o trânsito da Catânia isso é mais ou menos normal e há que ir com tempo para a paragem.

  3. €25 de Bremen para Amesterdão, 4.5h, sem atrasos, confortavél, serviços públicos, internacionais. Só por os (alguns) países Europeus não conseguirem, não quer dizer que seja impossivél!

  4. jcfm

    vir com exemplos estrangeiros não serve, como sera facil de mostrar existem varios exemplos por essa europa fora de bons serviços publicos.

    o que interessa é em portugal e ai existe de tudo.
    Desde o bom exemplo que foi aprivatização da RN, ao que nada mudou na galp ou edp, ou aquilo que tem sido o desastre nas aguas.

  5. jhb

    São meios de transporte de características completamente diferentes. Depois disso, então são meios de transporte alternativos.

  6. José Carlos Morais

    do Relatório e Contas da CP, 2011:
    Vendas: 238.255.936 €
    Resultado Líquido: -289.046.560 €
    Realmente, é só isto… comentários para quê?

  7. APC

    Lá vêm os relativismos, se ambos me levam do ponto A ao B e se existe um mais rápido e curiosamente mais barato, tá decidido…

  8. Gonçalo Lages

    E o conforto, flexibilidade que dá a frequência do serviço, variância do tempo da viagem não entram na equaçãozinha?

    É que em tempo+dinheiro é difícil bater ser atirado de uma catapulta gigante de A para B…

  9. Miguel Noronha

    Isso cabe a cada um decidir. Se o conforto de um comboio (adimito que o é) me custa quase o dobro do autocarro e os horários forem pouco fiáveis então é preciso que este seja verdadeiramente mau para me decidir pelo primeiro.

  10. dervich

    Em Espanha percorro o país todo nas “carreteras” do estado sem gastar um tusto e sem me chatear com nada, em Portugal pago uma fortuna para andar em AEs privadas que, se fôr preciso, têm vias cortadas para obras, têm cabines de portagem que acumulam filas, têm preços exorbitantes nas áreas de serviço, etc, etc…

    Pontos de vista…como sempre…

  11. fernandojmferreira

    Dervich, Nao pagas um tusto nas carreteras do estado, mas alguem teve de pagar, com certeza bem caro, para as usares? Isso nao te chateia? Usares um servico e outros pagarem por isso?

  12. João

    Fique descansado Fernando que não me chateia que recorra à policia, bombeiros ou outro serviço qualquer pago também pelos meus impostos…

  13. fernandojmferreira

    Joao,
    quer dizer que so’ ha policia, bombeiros e “outros servicos” porque sao publicos. Se nao houvessem policias, bombeiros, professores, medicos, juizes publicos queria dizer que nao haveriam policias, bombeiros, professores, medicos, juizes de todo. E’ isso?
    Quem e’ que garante ao Joao que, permitisse o estado a existencia de forcas de seguranca privadas e a opcao de “descontar” ou nao para a forca de seguranca publica, eu (e outros) recorreria a forca de seguranca publica?
    Permitisse o monopolizador estado a existencia de forcas de seguranca privadas, o mais provavel seria a forca de seguranca publica nem existir, pois so existe porque detem o monopolio da seguranca. Todos sabemos com o que podemos contar quando um servico e’ fornecido por um monopolio: Um mau servico e precos elevados.

  14. lucklucky

    “Fique descansado Fernando que não me chateia que recorra à policia, bombeiros ou outro serviço qualquer pago também pelos meus impostos…”

    Obrigado por demonstrar mais uma vez a esquerda a dar tiros nos pés. Não aceita a diferença.

  15. George Orwell

    Caro fenandojmferreira,

    Esta é uma questão de sincera curiosidade minha:

    Supondo que as pessoas recorrem à segurança privada, esta será responsável pela segurança de quem lhe paga, ao contrário da PSP que, como o próprio nome indica, responsabiliza-se pela segurança pública. Você tem um acidente de carro, coisa pequena, e não conseguindo chegar a acordo com o outro envolvido sobre quem tem a culpa, faz o quê? Chama a sua empresa de segurança privada para que decida quem tem a culpa, como se faz agora com a PSP? E se o outro decide também chamar a empresa que lhe garante a sua segurança?
    Ou admitamos que os dois decidem ir a um tribunal? A que tribunal se vão dirigir? Você provavelmente vai tenta escolher um tribunal que, em casos semelhantes tenha decidido a seu favor, não? E o outro tentará fazer o mesmo, não acha? Nesta situação, como chegarão a acordo em relação ao tribunal (privado) onde levar o vosso caso?

  16. Caro George,

    Respondo-lhe com todo o prazer.

    Em primeiro lugar devo dizer que nunca existiu uma sociedade verdadeiramente livre. Houve sempre um individuo ou um pequeno grupo de individuos que conseguiu convencer os outros que estes precisam de alguem que mande neles, que os “defenda”, que os “organize”, que pense nos “assuntos complicados e chatos” por eles. Em troca deste “trabalho”, estes “planeadores”, os quais se auto-entitularam governo, exigiram apenas que os cidadaos entregassem uma parte (sempre crescente) dos frutos do seu trabalho, mas que o proprio governo, unilateralmente e coercivamente, diz quanto e’.

    Assim sendo, este cenario que vou descrever seria um cenario bastante provavel de acontecer numa sociedade livre. No entanto, a maneira exacta seria determinada pelo interaccao e decisoes individuais de cada individuo, ja que nao estao sujeitas a planeamento central. Poderiam aparecer outros servicos que nos agora nao somos capazes sequer de imaginar. O mercado livre tem destas coisas fantasticas: cria e inova com o objectivo de satisfazer os consumidores.

    Na ausencia da seguranca e justica coercivas e monopolistas do estado, existiriam, com certeza, servicos de seguranca, ja que sempre existira essa necessidade. Uma das concepcoes erradas de criticos duma sociedade livre e’ pensarem que essa sociedade pressupoe que nao exista criminalidade. Esta e’ uma ideia errada. Criminalidade existiria sempre. A diferenca e’ que esta seria tratada de uma maneira completamente diferente e o incentivo de um bom comportamento seria muito maior.

    Mas vamos ao exemplo: O mais provavel e’ que os servicos de seguranca fossem prestados por empresas seguradoras. Quando eu assino um contrato de seguranca com uma seguradora, para alem de ficar a saber e concordar com as leis que terei de respeitar, aceitarei, tambem, a escolha de juizes arbitro com os quais a minha seguradora (e outras seguradoras) trabalha. O mesmo acontecera com o outro sujeito do acidente de carro.

    Como o acidente foi pequeno, seria muito provavel que nos, os condutores, chegassemos a acordo sobre a responsabilidade do mesmo. ja que o nosso incentivo de resolver o problema e’ grande. Tal como hoje em dia acontece com seguros automoveis, chamar as seguradoras tera como consequencia o aumento do preco da apolice.

    Mas vamos supor que nao conseguimos chegar a acordo porque, embora pequeno, o acidente e’ complexo. Agentes de cada uma das seguradoras seriam chamados ao local para investigar e fazer um relatorio. Com base na analise do mesmo, as seguradoras tentariam chegar a um acordo sobre a responsabilidade do acidente e, caso fosse impossivel, concordariam aceitar a decisao do juiz arbitro como decisao final.

    Mas o que e’ que isso e’ diferente dos servicos publicos, poderia perguntar o George? E’ diferente por causa do incentivo. Tanto as seguradoras como os juizes trabalham para satisfazer os clientes e o sucesso do servico que prestam baseia-se na sua reputacao. Um juiz com um historial de decisoes equilibradas e independentes tem maior probabilidade de ter mais clientes. Um juiz corrupto veria os seus clientes desaparecerem, forcando-o a mudar de ramo. O mesmo em relacao as empresas de seguranca privada. Se o amigo George nao estiver satisfeito com a sua, seja por nao responderem quando telefona, por demorarem muito a chegar aos locais dos acidentes, precos muito altos, etc., o George muda de seguradora, tal como faz com o seu seguro automovel.

    Seguranca privada tambem tem outras vantagens. Por exemplo, o meu amigo vai de ferias descansado porque tem a certeza que a sua seguradora vai patrulhar e vigiar a sua residencia com todo o cuidado porque, caso a sua casa seja roubada, a seguradora sera responsavel por o indemnizar. Eles tem todo o incentivo para o proteger.

    O mesmo nao se passa com a policia publica, que nunca e’ responsavel por nada e nao tem o incentivo de melhorar o seu servico pois nao tem concorrencia. E quanto e’ que o meu amigo paga pelo servico de seguranca publica? Muitos acham que e’ “gratis”, mas para quem paga impostos nao e’ gratis com certeza. Na realidade voce nem sabe quanto paga. Os politicos criam leis a seu belo prazer, com as quais voce nao concordou e ate desconhece e desconhecer a lei nao e’ desculpa para nao a cumprir, segundo o estado. Os juizes nao sao responsaveis pelas suas decisoes, caso julguem mal. Qual e’ o seu incentivo de prestarem um bom servico? Nenhum. Bom ou mau ganham o mesmo.

    Existem bons livros que falam sobre estes assuntos. Teria todo o gosto de recomendar alguns ao meu amigo, caso esteja interessado. Cumprimentos!

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