O desafio

O discurso de quem defende uma RTP pública, parte do conceito de serviço público de televisão. Algo inócuo, vago e que pode ser o que se quiser que seja. Independentemente do esforço que é repetir à exaustão a importância de, na idade da internet e do cabo, um estado ter um canal de televisão, o que está em causa na RTP é a nossa capacidade, enquanto cidadãos livres e autónomos, adultos (se preferirmos), de não aceitarmos mais que nos usem como pretexto para a prossecução de actividades empresariais protegidas pela lei do mais forte.

O Miguel Noronha já referiu as empresas públicas que, apesar de falidas e com prejuízos cada vez maiores, nunca fecham. Nunca encerram porque nós estamos cá para pagar a conta. O conceito de ‘público’ hoje é isso mesmo: lucro para alguns e prejuízo para a maioria.

O dinheiro acabou e sem ele o socialismo definha. Finalmente, e por isso mesmo, a maioria das pessoas começou a dar valor ao dinheiro que entrega ao estado. Dinheiro que tendo sido ganho com o nosso trabalho, e em vez de ficar no nosso bolso, é entregue a quem não o sabe gerir, o aplica em negócios que, apesar de chamados de ‘públicos’, não interessam a ninguém. À medida que estamos a tomar consciência do quanto custa o estado empresário, vai-se notando uma mudança ténue na mentalidade dominante. Protestos como os dos funcionários da RTP serão, esperemos, cada vez mais e em maior tom. Será bom sinal.

O essencial nos próximos anos será determinar até que ponto os cidadãos deste país tomaram consciência do seu valor e das suas capacidades. Durante o Estado Novo, Salazar dizia-nos que não estávamos preparados para a democracia. Não tínhamos o discernimento para votar, escolher o governo. Hoje, dizem-nos que a maioria pouco percebe das complexidades da vida e não sabe escolher: não sabe escolher a melhor escola para os seus filhos; não sabe escolher o que fazer com grande parte do seu salário, que deve ser entregue ao estado; não sabe empreender, nem tomar decisões. Não consegue sequer escolher entre um bom e um mau produto, um bom ou um mau supermercado, um bom e um mau restaurante. Por isso, os estímulos. As ajudas, os subsídios e o dinheiro que há quem ainda peça que flua à força na economia. As proibições, as regulamentações e as coimas aplicadas por diversos institutos estatais a quem se porta mal. Políticas que são do único interesse dos que estão instalados no status quo de sempre.

Somos um país de cidadãos adultos, capazes de escolher, ou gente menosprezada pelo poder político que nos vende o que já sabe que vamos comprar? Se o desafio do estado é gastar menos e sobreviver, o nosso é responder a esta pergunta.

14 pensamentos sobre “O desafio

  1. JS

    O PM fala ao País, em directo, via TV, ontem a meio do dia. Transmitem o directo: RTP, SIC e TVI.

    A meio do directo, a primeira a interromper é a RTP, “serviço público” milhões de Euros dos já muito gemifrados contribuintes. Palavra de PM secamente interrompida no “serviço pago pelo público”.

    E para quê tão premente interrupção?.
    Para transmitir um anúncio de uma marca de automóveis de luxo!.
    Ps- Faz sentido. O Estado é quem anda a comprar automóveis de luxo. Assim os multiplos acessores do PM já sabem o que comprar.

  2. tric

    “O Miguel Noronha já referiu as empresas públicas que, apesar de falidas e com prejuízos cada vez maiores, nunca fecham. Nunca encerram porque nós estamos cá para pagar a conta. O conceito de ‘público’ hoje é isso mesmo: lucro para alguns e prejuízo para a maioria.”
    .
    eu posso considerar a Banca Portuguesa como uma empresa publica, visto a não sobreviverem sem o aval e apoio do estado !?

  3. tric

    “O dinheiro acabou e sem ele o socialismo definha.”
    .
    tal como a Banca…que só sobrevive com o apoio do Estado !!

  4. tric

    “Somos um país de cidadãos adultos, capazes de escolher, ou gente menosprezada pelo poder político que nos vende o que já sabe que vamos comprar? Se o desafio do estado é gastar menos e sobreviver, o nosso é responder a esta pergunta.”
    .
    quando é que é o próximo orçamento rectificativo!!?? e já agora o próximo orçamento ainda vai ser realizado em Euros ??

  5. vivendipt

    No estado de Salazar o peso do estado só valia 15%. Agora só vale 50%.

    Salazar conseguiu um estado forte com muito menos e sem ir ao bolso das pessoas.

  6. Ala que se faz tarde

    Preocupação pelo dinheiro que o estado gasta mas ausência dessa preocupação quando os mercados se escondem em paraísos fiscais, através deles deixam de pagar o que a lei os obriga a pagar e através deles multiplicam o seu valor.

    «O dinheiro acabou e sem ele o socialismo definha.»

    O dinheiro não acabou. Está escondido em paraísos fiscais e os governos de direita, todos desde o 25 de abril, recusam-se a ir buscar esse dinheiro. Nenhuma das empresas da bolsa de lisboa tem a contabilidade organizada em portugal.

    Esta gente bota moralismo a toda a hora. São aqueles que passam toda a semana a roubar mas ao domingo vão à missa em peso e até deixam cair uma moeda na caixa das esmolas porque é preciso dar comer aos pobrezinhos. Farsantes.

  7. fernandojmferreira

    Eu acho que ha uma coisa que e’ preciso esclarecer. Depois de lerem posts como este do Andre, ha comentadores (como o estimado amigo Tric) que parece que ficam com a impressao que aqui se criticam “empresas” publicas falidas mas que, de algum modo, se apoia o resgate de bancos, igualmente falidos. Falando por mim, qualquer empresa, o que inclui bancos, falida, nao deve ser resgatada. Ponto final. Se uma empresa vai a falencia e’ porque deixou de ter a capacidade de produzir bens e/ou servicos que os consumidores, VOLUNTARIAMENTE e sem a intervencao do estado, desejam comprar. E isto inclui bancos.
    A questao com os bancos e’ que o estado reservou para si o monopolio da criacao do dinheiro e os bancos sao os seus tentaculos. Os bancos (como os conhecemos hoje) nao podem viver sem o estado nem o estado pode viver sem os bancos. Ambos vivem as custas de todos nos. O estado vai sempre tentar resgatar bancos. Eles fazem-no porque podem. Porque tem poder. Sem poder, nao ha resgates. Nao podemos criticar os resgates sem criticar o poder. Cumprimentos!

  8. Número 7, como vai fazer para pegar o dinheiro que está nos paraísos fiscais? invasão? é que só pode… não nos esqueçamos que, num mundo globalizado, quem vai para cima dos ricos, vê o dinheiro escapar, pois há sempre países mais amigos onde o mesmo pode ser posto, e mesmo investido. Prefiro alguém com dinheiro escondido mas que pelo menos ainda invista em Portugal. Veja-se o caso da França, cujas palavras do presidente estão a fazer abalar muita gente que pagava muitos milhões de impostos. quem tudo quer…

  9. Outra questão em relação aos Bancos, e que já vi defendida neste blog, era do estado liquidar toda a dívida que tem perante os bancos nacionais, numa espécie de negociação ad hoc, mas não sei porque não foi preferida essa intenção. Pois este tipo de apoio, com o Estado a intrometer-se na administração dos bancos, aumenta a sua responsabilidade no futuro. Assim podia lavar as mãos e deixar a banca seguir o seu caminho.

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