A questão do milhão de dólares

O voto do PSD contra o chamado PEC 4 – que se saberia ir provocar eleições legislativas – só podia ser fundamentado por uma de duas razões, uma boa e outra má. A boa: no governo o PSD pretendia realizar uma reforma do estado que permitisse reduzir despesa e alcançar uma consolidação orçamental e uma acalmia dos leilões de títulos de dívida pública sem aumento de impostos. A má: Pedro Passos Coelho queria ser primeiro-ministro e sabia que se submetesse a mais umas directas enquanto líder da oposição se sujeitava a ser arrasado por um Rui Rio. Como a política orçamental deste governo não tem sido substancialmente diferente da do governo anterior, e as medidas sanitárias que tomou (e as meias medidas, como a ‘reforma’ laboral) foram impostas pelo exterior e seriam feitas de qualquer forma, resta-nos a todos a consolação – de muita utilidade aos empresários cujas empresas vão em catadupa à falência e aos que diariamente perdem o emprego sem grandes perspectivas de outro num curto prazo – de que realizámos o sonho de juventude de Pedro Passos Coelho.

Enfim, era mais ou menos evidente que alguém que teve o seu percurso alicerçado na política e nos conhecimentos que a política lhe havia trazido (recordemos as memórias de Helena Roseta da proposta que diz lhe ter feito Miguel Relvas para beneficiar a empresa onde trabalhava Passos Coelho) não iria destruir o que possibilitou a sua história de vida. No entanto, até eu pensei que PPC iria mudar alguma coisa para tudo ficar na mesma. Nem isso.

A questão que se coloca, agora: o que vai fazer o CDS? Vai manter-se firme e não aceitar novo aumento de impostos? (E, de caminho, honrar os votos que lhe entregou o eleitorado – e um eleitorado urbano e dinâmico.) Ou vai revelar que é um partido que acima de tudo pretende satisfazer também as suas clientelas nas breves alturas em que o PSD vencer eleições ao PS sem maioria absoluta? Este é o momento da verdade para o CDS. E, provavelmente, o momento em que pode criar algo de verdadeiramente novo na política portuguesa – recusar a inevitabilidade do aumento do estatismo e do saque crescente aos contribuintes – ou o momento em que pode tornar-se oficialmente Os Verdes do PSD.

14 pensamentos sobre “A questão do milhão de dólares

  1. FilipeBS

    Bom post, boa análise. No entanto, não deposito nenhuma confiança CDS. Basta ver que, desde que entrou para o governo com o PSD, o CDS tem sido uma força mais em prol do status quo do que a favor de reformas a sério. Nas pastas que controla (segurança social, ambiente, agricultura e ordenamento do território), isso tem sido por demais evidente. Até é possível que o CDS faça oposição ao aumento de impostos. Mas estará preparado para sugerir cortes a sério que compensem do lado da despesa? Cortes a sério e reformas significa desagradar às clientelas. Pelo contrário, aumentos de impostos significa diluir o sacrifício por todos (ou melhor, pela classe de gebte que produz alguma coisa no país). Veremos o que acontece…

  2. Paulo Pereira

    Os cortes que o CDS deve propor são cortes no Estado Não Social e não no Estado Social.

    Existem muitos cortes a fazer no Estado Não Social, como a eliminação de dezenas de entidades públicas e milhares de chefias.

  3. ««A questão que se coloca, agora: o que vai fazer o CDS?»»
    .
    Essa é fácil: o CDS tentará passar a ideia que é contra o aumento de impostos, contra despedimentos, contra cortes de salários, a favor do aumento de subsídios, contra os despedimentos, a favor da descida do défice, pela redução da dívida, por menos sacrifícios etc etc

  4. Paulo Pereira

    O CDS pode também explicar ao Passos e ao Gaspar um bocadinho de macroeconomia , mostrando que é impossivel ter um deficit abaixo dos 5,5% ou 6% , e que os mercados preferem crescimento para reduzir o racio da divida do que recessão permanente.

    Era um grande serviço ao país que o CDS faria ensinando o PSD os porquês da vida do capitalismo.

  5. FilipeBS

    Paulo Pereira, porque é que é impossível ter um défice abaixo dos 5,5%? E já agora, como é que se decreta o crescimento? Consagrando o crescimento económico na Constituição? Eu (que não sou ninguém), digo: é possível e é reduzir o défice até níveis de sustentabilidade, e caminhar aos poucos para uma situação de superavit. Basta que o estado gaste abaixo da receita, tal como todos nós fazemos (ou procuramos fazer) na nossas casas.

  6. lucklucky

    “O CDS pode também explicar ao Passos e ao Gaspar um bocadinho de macroeconomia , mostrando que é impossivel ter um deficit abaixo dos 5,5% ou 6% , e que os mercados preferem crescimento para reduzir o racio da divida do que recessão permanente.”

    É vigarice ou loucura cega FelipeBS, Paulo Pereira é só mais um Keynesiano obcecado pelo papel moeda, para pessoas assim basta haver dinheiro para haver crescimento apesar de a história não só da Europa como do mundo estar cheia de exemplos que o dinheiro não trás por si só crescimento, até basta olhar a última década recessiva portuguesa ou muitos países com riquezas naturais..
    Sócrates injectou 90 mil milhões de euros na economia portuguesa com nova dívida, isto só em 4 anos. Onde está o crescimento que permita pagar esses 90 mil milhões?

    Não existe porque o problema não é dinheiro, mas a gente obcecada pela finança: dos bancos centrais ao mero comunista cheio de teorias da conspiração sobre os bancos pensam que o dinheiro que cria crescimento apesar de inúmeras provas em contrário.

  7. Carlos

    Caramba!! será tão difícil perceber o conceito de “ir ao pote”?
    E já agora,também alguém alguma vez pensou que com esta crise não seria necessário aumentar impostos?
    Cada vez percebo menos esta rapaziada que acredita nos “amanhãs que cantam”…

  8. Paulo Pereira

    Filipe BS,

    É impossivel porque as receitas fiscais baixam com a descida do PIB, como se vê !

    Como a economia privada tem crédito bruto na ordem dos 200% do PIB , o sector privado é fortemente pro-ciclico nas recessões.

    Basta ler um livro de um famoso economista publicado em 1936 que ele explica.

    Outras hipotese é pegar no livro de Schumpeter de 1911 e deduzir o que se passa numa recessão em vez de numa expansão.

    Umas licões de macroeconomia são essenciais para quem tentar dirigir um país , não acha ?

  9. Maria João Marques

    Em 1936 o peso do estado britânico na economia britânica não era bem os mais de 50% como é em Portugal actualmente… Isto sem levantar outras questões sobre as teorias de Keynes.

  10. Paulo Pereira

    Maria João Marques,

    Por maioria de razão , se o peso do estado na economia é maior, então mais necessidade existe de promover o crescimento do PIB quando se corta na despesa.

    É ao contrário do que afirma.

  11. Maria João Marques

    O corte na despesa é por si só um incentivo ao aumento da produção, visto que se libertam recursos afectos ao estado (e, invitavelmente, mal geridos e mal alocados) para as actividades privadas.

  12. Pingback: Time is running out… (2) « O Insurgente

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