um juízo precipitado

“Verão quente de 2008. Todos os dias surgiam notícias alarmantes dos Estados Unidos sobre a crise no mercado imobiliário. As taxas Euribor galopavam a 4%, sem travagem à vista. E, nos seus gabinetes, presidentes das empresas públicas portuguesas assinavam contratos que protegiam os seus créditos desta escalada descontrolada. Quatro anos passados, e uma profunda descida das Euribor depois, estas decisões criaram uma bomba relógio que já chegou, em Julho, aos 2,5 mil milhões de perdas potenciais. Só nos transportes são 2,2 mil milhões. Actualmente, existem 165 destes instrumentos de gestão de risco financeiro (IGRF), segundo os dados da Direcção Geral do Tesouro e Finanças (DGTF). Quase 70% dizem respeito a cobertura simples de risco de taxa de juro (“swaps”). (….) Os contratos têm de ser avaliados caso a caso, para se verificar se é mais favorável para a empresa denunciar desde já, assumindo as perdas, ou aguardar pelo fim do contrato. A maturidade média destes instrumentos é de 10 anos, pelo que só começarão a expirar perto de 2018, embora alguns se estendam a 2024.”, hoje no  Jornal de Negócios (página 4).

Aqui está uma peça informativa, mas, na minha opinião, também precipitada. Primeiro, o facto de os contratos exibirem neste momento perdas potenciais terá impacto contabilístico, mas não económico. Como escreve e bem o Negócios, a maturidade média é de 10 anos, pelo que, só um louco denunciaria um contrato nestas circunstâncias. Há que esperar pela maturidade como fará qualquer investidor que tenha comprado (noutros tempos) as OT’s do Tesouro ou as obrigações dos bancos. Segundo, de acordo com a bibliografia financeira (“101 Years of Investment Returns”, de Staunton, Dimson e Marsh), no longo prazo, as taxas de juro convergem para uma leitura média de 6% (inflação + 100 bp’s). Ou seja, assumir em 2008 que (até 2018) as taxas poderiam passar dos então 4% para 6, 7, 8, 9 ou 10%, longe de configurar um salto de fé, seria uma suposição razoável. Terceiro, e é aqui que reside a maior precipitação, o negócio dos gestores públicos não é a especulação financeira – é a gestão operacional das empresas -, pelo que, do ponto de vista da gestão, a cobertura de riscos não operacionais, sejam estes financeiros (o caso em apreço) ou outros que escapem ao controlo dos gestores (e.g., quantas centenas de milhões de prejuízos na TAP teriam sido evitados se a administração, a exemplo do que fazem outras companhias, tivesse um programa permanente de “hedging” do preço do jet fuel?!?), faz todo o sentido. O problema é o carácter errático das acções de cobertura de risco e isto, sim, é que deveria ser alvo de escrutínio público.

Em suma, a decisão de cobrir riscos financeiros, atendendo à dimensão do passivo histórico destas empresas, tem racionalidade económica. Mas deve ser implementada de forma permanente, não devendo ser casuística. Tem de ser estratégica. E o problema é que não é.

8 pensamentos sobre “um juízo precipitado

  1. Bruno

    Se estão a pagar fixo e a receber variável neste momento estão a ter um prejuízo que não é só contabilístico. Pode ser que na Maturidade o negócio pode compensar mas neste momento está a ter custos elevados. Em relação ao impacto ser apenas contabilístico: o mesmo se passa com as instituições financeiras. Muitos dos prejuízos anunciados derivam da valorização MTM e são apenas potenciais. No entanto têm que ser contabilizados e afetam os rácios tendo outras consequências. Neste cenário o impacto contabilístico também é importante.

  2. Bruno

    Quanto à sua conclusão sobre o problema ser a forma casuística com que a cobertura é feita, estou absolutamente de acordo.

  3. Ricardo Arroja

    “No entanto têm que ser contabilizados e afetam os rácios tendo outras consequências. Neste cenário o impacto contabilístico também é importante.”

    Caro Bruno,

    Bem observado e não digo o contrário. Acontece que como nestas circunstâncias os contratos não serão denunciados, apenas o deverão ser na maturidade ou eventualmente se estiverem algum dia “in the money”, deduzir destes números que há um “buraco adicional” de 2,2 mil milhões é extemporâneo. Quanto muito, por prudência contabilística, poderá existir a necessidade de aprovisionar parte da perda potencial, mas mesmo isso, segundo leio, não é neste momento exigido. E insisto: dado a história financeira, não é descabido que até 2018 as taxas não regressem a patamares muito altos do que os actuais. Aliás, dados os problemas na zona euro, diria que até 2018 é elevadíssima a probabilidade de as taxas dispararem a partir dos níveis actuais!!

  4. Ricardo Arroja

    E, caro Bruno, já agora, imagine que, por qualquer avaria do destino, Portugal sai do euro ou o euro deixa de ser a nossa moeda….os contratos de swaps seriam imediatamente redenominados na nossa moeda de curso legal, que desvalorizaria…..já imaginou o chimbalau que os bancos levariam?? cruzes credo!

  5. Bruno

    Caro Ricardo, obrigado pela resposta. Percebo o seu ponto de vista. Quanto ao cenário de saída do euro, creio que todos levaríamos com o chimbalau! Neste momento ando preocupado é com as minhas poupanças e o que lhes pode acontecer…

  6. Carlos

    Para além da palavra potencial na notícia que faz toda a diferença…, já se questionaram porque é que dados de Junho só são agora manchete? Pois é, estamos na altura de mudar as administrações das empresas públicas e o governo não deixa o spin em mãos alheias…

  7. Andre

    Concordo totalmente com o comentário do Carlos. Esta notícia é puro spin.

    Os gestores das empresas públicas, que se deveriam concentrar na melhoria operacional das empresas que dirigem, reduziram o risco de subida das taxa de juro atravéz da utilização de derivados. Nada mais razoável.
    Em 2006-2007 o Banco de Portual andava repetidamente a avisar o público sobre a potencial subida das taxas de juro. Foram até aprovadas, por esta altura, regras que obrigavam os bancos a uma maior divulgação deste risco quando concediam crédito à habitação. O BdP tinha razão. As várias Euribor vieram a quase duplicar em dois anos.
    Participei em vários financiamentos nesse período, quer a algumas destas empresas quer a privados e todos fizeram o mesmo, pelas mesmas razões, e com os mesmos resultados. A haver aqui alguma questão seria saber porque foram estas operações estruturadas com contrato de financiamento com taxa variável + derivado para fixar a taxa em vez de celebrar um contrato de financiamento de taxa fixa. No segundo caso as regras contabilísiticas não obrigam a nenhum mark to market e por isso isto teria passado mais ou menos despercebico.

  8. Pingback: de risco | O Insurgente

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