o escudo

“Lembro-me bem do escudo: com 500 ou 1000 escudos podia-se comprar muita coisa, hoje cinco euros não conseguem comprar nada”. Emanuel Silva critica a subida de preços que ocorreu com a adopção da moeda única. O atleta defende que a saída do euro poderia ser benéfica, desde que com uma aposta na indústria lusa”, hoje no Negócios (página 39).

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20 pensamentos sobre “o escudo

  1. A minha avó também ainda se lembra do escudo e como podia comprar muita coisa com uma nota de 20 🙂

    Existem muitas boas razões para sair do Euro mas pensar que uma inflação reduzida é uma delas vai para além do wishful thinking.

  2. Ricardo Arroja

    #2 – bem visto Nuno.

    De qualquer modo, não invalida o comentário inicial e final do Emanuel Silva. E faz-nos também reflectir sobre o mistério da inflação que se seguiu ao euro, que toda a gente sentiu mas que nunca alguém viu (nas estatísticas oficiais)…

  3. Ricardo
    A adesão à moeda única é uma armadilha de que não escapamos com essa facilidade. Aliás, as próprias condições de adesão saíram-nos muito caras. Estamos entalados na moeda única, pois.
    O pior deste filme é que se está a pressionar no sentido do federalismo como único meio de manter o euro. Terão de inventar uma outra fórmula que permita gerir o erro inicial, que minimize as desvantagens e maximize as vantagens, pois sair do euro agora seria catastrófico, na minha modesta opinião.
    Ana

  4. Ricardo, para entenderes melhor o porquê de nunca ser refletida a realidade da inflação nas estatisticas oficiais vai investigar o seguinte: “Boskin Commission” e os 3 criterios daí extraidos para alteração da medição da inflação (“Substitution”, “Weighting” e “Hedonics”). Isto foi nos EUA em 1996. Calculo que o Euro siga criterios semelhantes.

  5. Br

    Caro Venator, pode especificar melhor os motivos pelo quais se omitiu das estatisticas oficiais de inflação a subida intenssissima que se verificou após adesão ao Euro?
    .
    Rb

  6. Syme

    Tanto o autor da entrada como os comentadores, se pretendem escrever sobre questões monetárias, deveriam começar por se certificar que compreendem o significado de duas situações económicas distintas:

    a) Alteração do nível de preços;
    b) Inflação.

    Não são situações equivalentes: a adesão ao euro provocou uma acentuada (e porventura dificilmente compreensível) subida do nível de preços, mas não causou inflação, bem pelo contrário. O atleta citado (e excitado com o eventual regresso à impostura da moeda nacional) fica isento desta crítica, por motivos que suponho óbvios.

  7. Venator

    Rb, respondendo em nome do Syme: Inflação é um termo utilizado para descrever uma expansão monetária (mais moeda injetada artificialmente na Economia) que, como consequencia, proporciona um aumento de preços (pois a moeda sofreu uma desvalorização). Não é a mesma coisa que dizer que o preço de um produto aumentou porque os custos de fabrico aumentaram.

    Em relação à pergunta anterior sobre a nossa percepção dos preços terem subido imenso quando passamos para o Euro:
    Penso que (e isto é a minha percepção, pois é muito dificil arranjar relatorios que expliquem bem o que aconteceu naquele curto periodo em que o Escudo desapareceu e o Euro tomou o seu lugar) o que aconteceu foi que a grande fatia de aumento de preços que se verificou nessa passagem foi em produtos alimentares. Acho que toda a gente sabe do exemplo de que um pão que custava 0.20 Escudos passou a 0.15/0.20 Euros da noite para o dia, proporcionando um aumento instantaneo de 50 a 100% do preço. É só um exemplo extremista mas é uma aproximação do que aconteceu em montes de produtos alimentares cujos preços passaram mais despercebidos por serem, de uma forma geral, “baratos”. Outra coisa que não podemos ignorar é que os arredondamentos de produtos foram sempre feitos para cima…

    Isso nunca é refletido nas estatisticas pois o que é publicado oficialmente é a “Core Inflation”, isto é, aumento dos preços de todas as categorias de produtos excepto dos produtos alimentares e de energia.
    Porquê?… o argumento conta que estas categorias de custos são demasiado volateis para serem tidas em conta…

    Calha que num pais relativamente pobre é natural que as categorias de Energia e Alimentação tenham um peso maior (em percentagem) nos rendimentos das familias do que num pais mais rico, agravando, assim, a questão da percepção de aumento de preços.

    Como se não bastasse, a “Core inflation” dos paises da periferia da UE foi sempre superior, em média, cerca de 1% do que nos outros estados membros.

  8. Syme

    Em resposta ao comentário #8, e muito brevemente:

    “A inflação não mede a variação nos preços”?

    A taxa de inflação mede a variação percentual nos preços no consumidor tomando como base um índice compósito que se supõe “representativo” desses preços (se o é ou não; quais as dificuldades técnicas e potenciais erros e enviesamentos envolvidos, são questões subsequentes: se tiver curiosidade procure os trabalhos de Michael J. Boskin). A inflação é portanto (uma aproximação) à variação contínua dos preços; uma alteração do nível de preços não é necessariamente originada por inflação, nem significa inflação: pode corresponder simplesmente a uma “mudança de patamar no nível dos preços, uma descontinuidade súbita como a que sucedeu no caso em questão, com a mudança de denominação monetária do escudo para o euro.

    O que suspeito é que a pretexto dos chamados “custos de transacção”, originados pela mudança de moeda, houve um enorme oportunismo nas alterações da generalidade dos preços. Esse oportunismo foi facilitado pelo corporativismo e pelos mecanismos formais ou informais de “concertação” de preços que impedem ou condicionam a concorrência nos mercados de bens e serviços. Nada tem a ver com inflação: o euro foi uma oportunidade e isto é um antro de oportunistas.

  9. Ricardo Arroja

    Caríssimo Sr. Prof. Syme,

    Tem toda a razão: a inflação e a alteração do nível de preços são conceitos distintos. Porém, sem prejuízo do rigor académico, para o comum dos mortais essa alteração do nível de preços (a conversão) traduziu-se num aumento da inflação pela simples razão de que tendo havido (inúmeras?) conversões de preços que na prática duplicaram os preços (a célebre ideia dos 100 escudos = 1 euro!) houve um preço que nunca se perdeu nessa reconversões: os salários, que se mantiveram iguais em euros ao que eram em escudos.

  10. Syme

    Ricardo Arroja,

    Deixei suficientemente claro a asneira implícita no comentário do atleta que citou e (creio) que também ficou suficientemente claro que as alterações discretas dos preços subsequentes à adopção do euro resultaram em perdas de poder de compra que foram, e são, difíceis de compreender: como de costume, é escusado perguntar o que estavam a fazer os burocratas “reguladores” dos mercados. De resto, beneficiaria muito os seus leitores e a qualidade destas trocas de impressões se não insistisse em confusões, revestindo-as de ironias deslocadas. Não é a primeira vez que tenho de lhe chamar a atenção para a descortesia com que me responde, mas será seguramente a última.

  11. Ricardo Arroja

    “Não é a primeira vez que tenho de lhe chamar a atenção para a descortesia com que me responde, mas será seguramente a última”

    Descortesia? Há-de me dizer desde quando? Bem pelo contrário, aprecio sempre comentários inteligentes como os seus.

  12. lucklucky

    “E faz-nos também reflectir sobre o mistério da inflação que se seguiu ao euro, que toda a gente sentiu mas que nunca alguém viu (nas estatísticas oficiais)…”

    São Índices estatistas logo existem para defender até certo ponto os políticos. A gigante bolha do Imobiliário apareceu no Ìndice de Preços?
    Não.

    E ninguém se preocupa ou fala sequer deste falhanço do INE.

    Já há muito que instituições privadas: think thanks, fundações, universidades deveriam ter índices de inflação próprios para competirem com os do Estado.

  13. Ricardo Arroja

    “A gigante bolha do Imobiliário apareceu no Ìndice de Preços?”

    Não, mas não faltam pessoas (eu, por exemplo), fora do mainstream, a escrever sobre a bolha imobiliária em Portugal.

    “Já há muito que instituições privadas: think thanks, fundações, universidades deveriam ter índices de inflação próprios para competirem com os do Estado.”

    100% de acordo. Aliás, nos EUA há quem o faça (a propósito da inflação e tb dos agregados monetários….não esquecer que a publicação do M3 foi abolida nos últimos anos de Greenspan…).

  14. Br

    Caro syme, ao que julgo saber, quando em Portugal se fala em inflacao o valor anunciado é muito proximo do IPC. Ora o IPC mede um cabaz que, ao contrario do que acontece ns eua, comtempla a alimentacao, habitacao e energia., alem de outros bens. Jukgo até que esse cabaz é elaborado e ajustado constantemente, conforme o peso que cada genero de produto vá tendo maior ou menor peso nos orcamenos das pessoas. Os tecnico fazem uma amostra alaagda de familias e contabiliza os produtos para efeito sde calculo do IPC que mais contribuem para o orcamento familiar.
    .
    Dito isto, fica claro que quando falamos em inflacao, falamos num valor muito proximo do IPC do ine. Ora, sendo IPC uma medida objectiva da variacao de precos, que pode ser chamada erradamente de inflacao, que justificacao se encontra para que percepcionemos precos mais altos sem que isso seja reflectido no IPC.
    .
    Rb

  15. Br

    Mas entao, caro RA, gostava mesmo de perceber isto, se o IPC ou a sua meia-irmã – a inflacao – tem tido valores que nao traduzem os precos que sentimos na carteira, como justifica isso?
    .
    Se os salarios sao iguais, se nao houve grandes emissoes de dinheiro, se os precos dos bens e servicos disparam, nao seria natural que o IPC traduzisse esse nivel de precos acrescido?
    .
    Quer dizer, mesmo que se diga que o chico espertismo portugues cotou 1 euro com 100 escudos, este a aumento nao tinha que esta reflectido no IPC?
    .
    Desde 2002 a ate hoje, os precos das rendas, da compra de habitacao, da gasolina, do cafe, da carne, do cinema, da luz, do gas etc mais do que duplicou. Em alguns casos triplicou. Porque é que o IPC nao traduz esses aumentos?
    .
    Mesmo que somemos os numeros oficiais de toda a decada a inflacao total nao passou os 40%. talvez uma media de 3% ao ano.
    .
    Ora uma casa duplicou de preco, a gasolina mais do que duplicou, a luz, o gas, um cafe triplicou…
    .
    Rb

  16. Ricardo Arroja

    #17

    Caro RB (bem regressado seja),

    Em relação à sua pergunta (Porque é que o IPC nao traduz esses aumentos?), a minha resposta é: não sei nem entendo. Devo, no entanto, ressalvar que nunca me dediquei a estudar a fundo o assunto (embora conheça quem já o fez e que chegou à mesma conclusão anterior).

    Em baixo, os dados em bruto (cortesia BdP):

    ANO IPC Global Bens Alimentares Não transformados Transformados Industriais Não energéticos Energéticos Serviços
    PT PT PT PT PT PT PT PT PT
    1997 1,9 1,1 0,4 1,5 -0,7 1,6 1,2 3,8 4,0
    1998 2,2 1,7 3,8 6,6 1,0 0,2 0,1 0,6 3,6
    1999 2,2 1,7 2,8 2,8 2,8 1,0 1,8 -1,8 3,3
    2000 2,8 2,2 2,0 2,5 1,4 2,4 1,5 6,1 4,0
    2001 4,4 4,2 6,1 8,9 3,1 3,1 2,5 5,2 4,7
    2002 3,7 2,4 1,9 0,2 3,8 2,7 3,1 1,2 5,9
    2003 3,3 2,4 2,6 2,1 3,1 2,4 1,8 4,9 4,6
    2004 2,5 1,6 1,4 0,0 2,8 1,8 0,8 5,4 3,9
    2005 2,1 1,9 0,1 -0,5 0,8 2,8 1,0 10,0 2,5
    2006 3,0 3,2 3,6 3,2 4,1 3,0 1,5 8,1 2,7
    2007 2,4 2,2 2,8 3,0 2,6 1,9 1,4 3,5 2,8
    2008 2,7 2,4 4,2 0,6 8,1 1,4 -0,2 6,6 3,1
    2009 -0,9 -2,4 -2,5 -4,3 -0,9 -2,3 -0,8 -8,0 1,3
    2010 1,4 1,7 0,4 0,7 0,2 2,4 -0,7 9,5 1,0
    2011 3,6 4,4 3,0 2,9 3,1 5,2 1,4 12,8 2,4

  17. CN

    “A gigante bolha do Imobiliário apareceu no Ìndice de Preços?”

    A razão porque as bolhas (provocadas pela expansão monetária e crédito) continuam fora dos radares dos economistas é que estas se passam nos bens reais (mercadorias, etc)., bens de capital, fora do radar da inflação no consumidor que só nos estágios finais o denota. Os monetaristas (Friedman e Co) têm grande culpa nesta subavaliação dos males da expansão de crédito por isso mesmo, medem os problemas pela inflação no consumidor.

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