Ao sul (2)

N’O Leopardo, a páginas tantas, Lampedusa descreve o príncipe de Salina, Don Fabrizio, como um homem, aos olhos de Don Calogero, com “uma certa energia propensa à abstracção, uma predisposição para moldar a sua vida com o que dele saísse e não com o que podia arrancar aos outros”. Em contraste, Don Calogero, o príncipe da nova ordem, recém-chegado aos prazeres da riqueza material, é desenhado como um ser emocional, rude, e talhado por centenas de gerações de comerciantes mediterrânicos. Na Palermo de 1860 confrontavam-se as duas Europas e a de Calogero já levava vantagem sobre um Leopardo resignado. Nesta ilha euro-africana açoitada pelo sol e adubada pelo Etna, onde o sangue árabe corre nas veias dos seus lânguidos habitantes — sangue herdado dos sarracenos que, privados do poder com a chegada dos Normandos, fizeram governos-sombra e chamaram manfa à Sicília perdida (manfa, lugar de exílio, possível embrião de uma famosa e sinistra palavra siciliana) —, não podia haver outro vencedor. Para selar a vitória, Calogero deu filha e generoso dote, aprendeu a comportar-se à mesa, e entrou no clube em declínio. Mas agora o espelho grotesco de Don Fabrizio, arruinado, pede esmola ao Leopardo. Ou exige, mesmo. Seria melhor que seguisse o exemplo do seu santo homónimo, padroeiro de Agrigento, que viveu numa gruta, alimentando-se exclusivamente do leite dos veados selvagens do Monte Cronio.

Um pensamento sobre “Ao sul (2)

  1. paam

    Mas, pelo que recordo, Don Calogero também é uma personagem rigída, austéra e, em parte, avarenta, que conseguiu o que tem através dos negócios que ia fazendo. E apesar da sua rudeza, luta constatemente para que a sua filha possa ter um futuro melhor. Don Fabrizio é exactamente o oposto. Membro de uma nobreza em declínio recusa, apesar de convidado, a participar na construção de uma nova Sicília, resignando-se completamente à sorte dos acontecimentos enquanto deambula pelas inúmeras salas do seu palácio ou observa o movimento dos astros. No final é Don Calogero que consegue o que sempre quis. Ligar a sua familia, através do casamento, à familia do Principe de Salina. Não esquecer que o próprio sobrinho do Leopardo, Tancredi, nobre arruinado, também se junta à revolução em busca de prestigio e poder nessa nova Itália unificada. No final acaba por haver uma união entre os dois mundos.

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