uma má solução

“Na reunião entre os banqueiros e o ministro das Finanças que decorreu no dia 27 de Agosto, os banqueiros propuseram a Vítor Gaspar dois instrumentos para criar liquidez e resolver o problema do crédito a Pequenas e Médias Empresas (PME). Uma das propostas consiste na criação de um fundo de investimento que compre carteiras de crédito de Médio e Longo Prazo do sector Imobiliário e Turístico aos bancos, com recurso à dos 12 mil milhões da ‘troika’ destinados à banca. Em troca os bancos ficariam com unidades de participação do fundo. Desta forma os accionistas do fundo seriam os bancos e os Estado. A ideia é semelhante ao que já foi feito na Irlanda e que vai ser feito em Espanha. Mas no caso português não seria um “bad bank”, uma vez que os activos que passariam para o fundo já foram provisionados no âmbito Programa Especial de Inspecções da ‘troika’, e passariam ao valor de mercado. Este instrumento permitiria a libertação de liquidez para dar crédito à economia, na ordem dos três a cinco mil milhões de euros.”, no Diário Económico.

Nas últimas semanas, sempre que me perguntaram acerca deste ou daquele buraco respondi sempre da mesma forma: utilize-se o dinheiro que sobrou da linha de capitalização destinada aos bancos (12 mil milhões de euros), que como se sabe apenas foi utilizada pela metade. Na minha opinião, é uma questão que deveria estar na frente da agenda mediática – por que raio não se usa aquele dinheiro – mas que, porque a troika aparentemente nem quer ouvir falar do assunto, se meteu na gaveta. Faz-se de conta que aquele dinheiro não está ali a jazer.

Em condições normais, aquele dinheiro poderia ser utilizado para pagar os pagamentos em atraso do sector público – que devendo mais de 5 mil milhões de euros é o maior e mais crónico devedor do País, a larga distância de todos os outros. Poderia servir para pagar as indemnizações aos funcionários públicos que, mais dia menos dia, o sector público terá de libertar. Poderia até, outra hipótese, servir para indemnizar os bancos se houvesse, como deveria haver, um relaxamento das regras que regulam a dação em cumprimento dos empréstimos hipotecários. Mas não.

A solução que se está a desenhar, um fundo público que irá adquirir créditos à banca de forma mais ou menos casuística (porquê só o turismo e o imobiliário?), servindo para fortalecer a banca – isso é indiscutível e também tem o seu valor – representa uma solução que, no balanço, não me parece boa nem transparente (a que preço serão compradas as tais carteiras?). E só faria sentido se, depois, o Ministro das Finanças passasse a ter assento no conselho de crédito dos bancos que viessem a beneficiar da acção do fundo, o que, infelizmente, seria outro erro.

Enfim, que o Estado pretenda ter um banco 100% seu, concedendo crédito no âmbito da sua estratégia económica, eu entendo. Os resultados em geral são maus – pois rapidamente se entra numa estratégia de financiar sobretudo os amigos -, mas existindo uma estratégia definida com pés e com cabeça até que poderia funcionar. Foi, assim, que em circunstâncias parecidas (política à parte) aconteceu no início do Estado Novo, altura em que a concessão de crédito da Caixa Geral de Depósitos chegou a representar 70% de todo o crédito concedido em Portugal e sem a qual a Lei de Reconstituição Económica não teria sido viável.

Coisa diferente é o que parece estar a preparar-se agora.

6 pensamentos sobre “uma má solução

  1. Paulo Pereira

    É mais que óbvio que o dinheiro que não foi usado pels bancos sejam usado para repor os pagamentos em atraso há mais de 60 dias, ao mesmo tempo que uma lei seria aprovada a impedir pagamentos a mais de 60 dias em todo o sector público.

    Só não vê que não quer. ESte governo cada dia que passa é mais inutil.

  2. Ricardo Arroja

    “A melhor alternativa para o dinheiro que não foi usado na capitalização dos bancos é não o gastar”

    Claro. Não existissem esses 5.000 milhões de pagamentos em atraso, concordaria contigo João. Mas como há, não concordo.

  3. Ricardo G. Francisco

    O compromisso e consumo já foi feito. Em relação aos 5.000 Milhões falta a segunda metade do gastar, a parte do pagar.

    A razão para atirarem os activos no sector imobiliário e turismo (quase a mesma coisa, é imobiliário) é porque de facto são activos tóxicos. Se são obrigados a vender vai acontecer 2 coisas. Os activos já dos bancos terão de ser reavaliados porque os preços vão cair muito mais e muito mais rápido e construtores e promotores verão, em maior proporção, os seus activos a terem um valor inferior ao do valor em dívida. Se uma pessoa deve mais do que vale o imóvel terá de pagar esta dívida com receitas futuras. Uma empresa de construção fecha e se os sócios não tiverem dado garantias pessoais tem o problema limitado e a menos valia passada para o banco.

    Onde é que estão a maior parte destes créditos? Nos maiores bancos Portugueses, os públicos CGD e BCP.

    O Estado vai injectar o dinheiro aqui em primeiro lugar para salvar as empresas públicas CGD e BCP. Essa será a principal motivação. Porque a não salvação por esta via implicará a salvação via orçamento de estado com aumentos de capital.

    Os políticos não são estúpidos…têm é razões estúpidas.

  4. Euro2cent

    > é imobiliário … activos tóxicos

    Pois. Enquanto foi ganhar nos empréstimos aos construtores e compradores, estes banqueiros eram uns génios que mereciam os milhões que ganhavam.

    Agora que a bolha pifou, assaltam-se os reformados para lhes pagar o deboche.

    Porque é que esta gente não está presa, como os passadores de droga que emulam?

  5. neotonto

    “Estado pretenda ter um banco 100% seu”.

    Mas, cómo, quando?
    O estado tem um banco 100% seu e nao pode ter aeropuertos, rtp,. Este mercado ( o portugués) nao está no 100% ainda liberalizado…

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