A Star is Born!

O discurso de Condoleezza Rice, ontem à noite, na Convenção Nacional Republicana foi, a todos os títulos, memorável. Muito mais que um discurso galvanizador do eleitorado republicano, foi o discurso de alguém que se afirmou como a principal reserva do partido republicano e referência nacional da política americana. Como ela própria sugeriu, ela pode, desde que o queira, ser Presidente dos EUA.

O discurso merece ser lido na íntegra (aqui ou aqui.). Ressalvo apenas algumas passagens que me parecem fundamentais.

Desde logo, a resposta à pergunta fundamental que vem sendo feita à administração Obama:

Where does America stand?  You see when the friends or foes alike don’t know the answer to that question, unambiguously and clearly, the world is likely to be a more dangerous and chaotic place.

Since world war ii, the United States has had an answer to that question.  We stand for free peoples and free markets.  We will defend and support them.

A resposta é claríssima e é complementada com a determinação que se exige a um estadista americano:

But we can only know that there is no choice, because one of two things will happen if we don’t lead. Either no one will lead and there will be chaos, or someone will fill the vacuum who does not share our values.

My fellow Americans, we do not have a choice.  We cannot be reluctant to lead and you cannot lead from behind.

Os EUA gostam de ser ver como líderes do chamado “mundo livre”. Foram-no, seguramente, desde a Segunda Guerra Mundial, quando o mundo estava dividido sob a influência de duas super-potências. Mas aí a liderança era o resultava da avaliação da dimensão e eficácia dos arsenais nucleares. Hoje, porém, vivemos num mundo aparentemente mais livre, mais globalizado, mais interdependente. Supostamente agora as batalhas seriam travadas no tabuleiro que é mais natural aos EUA — o tabuleiro do mercado livre. Mais eis que a antiga super-potência se vê agora ameaçada no seu próprio “backyard”. A China, nova potência, também joga no tabuleiro militar, é certo, mas é no económico que a sua ameaça se faz sentir.

China has signed 15 free trade agreements and is in the progress of negotiating as many as 18 more.  Sadly, we are abandoning the field of free and fair trade and it will come back to haunt us.

(…)

When the world looks at us today, they see an American government that cannot live within its means.  They see an American government that continues to borrow money, that will mortgage the future of generations to come.  The world knows that when a nation loses control of its finances, it eventually loses control of its destiny.

Eis a suprema ironia: a principal credora da hipoteca que está a ser lançada sobre as futuras gerações de americanos é essa mesma China. Não é preciso dizer muito mais. Como diriam os americanos, “do the math!”

E o discurso da estadista em ascensão termina com uma nota pessoal.

And on a personal note– a little girl grows up in Jim Crow Birmingham – the most segregated big city in America – her parents can’t take her to a movie theater or a restaurant – but they make her believe that even though she can’t have a hamburger at the Woolworth’s lunch counter she can be President of the United States and she becomes the Secretary of State.

Não se trata propriamente de uma nota pessoal. Trata-se de uma afirmação de liderança política como há muito não se ouvia nas democracias do chamado mundo livre.

Para quem quis ouvir, não é preciso muito mais: ela pode — basta que o queira.

15 pensamentos sobre “A Star is Born!

  1. jhb

    “We stand for free peoples and free markets. We will defend and support them.”

    Hahahahahahahaha….

  2. FilipeBS

    Campanhas eleitorais, congressos partidários, bah… Nessas campanhas cada um diz o que quer. E normalmente o que se diz tem como intuito galvanizar as hostes, i.e. o povinho crente na bondade e pureza do partido. Essa senhora quer reduzir o défice e, ao mesmo tempo, expandir militarmente o EUA pelo Mundo? Liberdade??? Foi no tempo dessa senhora que os EUA se tornaram num autêntico Estado-polícia medonho.

  3. J. Ramos

    Condi é uma warmongerer.

    Acarinha particularmente o warfare state, enquanto que o outro lado acarinha mais o welfare state. Nada muda no fundamental.

    Apenas Ron Paul poderia mudar alguma coisa realmente.

  4. Spongebob

    “We stand for free peoples”?? Eu não vejo defesa da liberdade no Patriot Act..
    Qualquer pessoa pode ser Presidente dos EUA?! Isso só pode ser uma anedota. Veja-se o Ron Paul. GOP tudo fez para que o Ron Paul não pudesse ser eleito porque eles sabiam que grande parte dos delegados não queriam o Romney. Eles pura e simplesmente mudaram as regras a meio do jogo e isso é impossivel de negar. Isto é liberdade?! Isto é liberdade à la Comunismo.
    Ainda por cima tudo isto dito por uma das principais obreiras do 11 de Setembro. Esta táctica é velha e sempre foi usada nos EUA principalmente por estes republicanos e é o apelo ao patriotismo. Bem apelo ao patriotismo, isto faz-me lembrar alguns ditadores. O certo é que muitas pessoas caem nesse apelo como muitas caíram algumas décadas atrás..

  5. Miguel Noronha

    “Ainda por cima tudo isto dito por uma das principais obreiras do 11 de Setembro”
    Foi uma das respomsáveis pelos atentados?!! Não me diga.

  6. hcl

    Um(a) político(a) com conversa sem correspondência em actos (muito pelo contrário).

    O que é que é novo?

    Não percebo o entusiasmo.

  7. lucklucky

    “Mais cego do que aquele que não vê é aquele que não quer ver”

    Precisamente, o seu exemplo então é caso paradigma. Consegue sentir-se mais confortável com uma conspiração do que sentir que o mundo é algo caótico não é?

  8. Spongebob

    Pois se o Mundo é algo caótico deveriamos fazer algo para o corrigir, não acha lucklucky?
    Eu ainda quero ver se vão dar o tempo de antena adequado ao Gary Johnson.
    Passamos a vida a queixar-nos do nosso país mas eu acho que ainda vivemos em liberdade, coisa que não acontece nessa grande potência.
    ” I am convinced that there more threats to American liberty within the 10 mile radius of my office on Capitol Hill than there are on the rest of the globe”- Ron Paul

  9. pmm

    O partido Republicano tornou-se no partido em que “blessed are the warmakers.”

    Qualquer verdadeiro cristão, libertário ou conservador tradicional fazia muito melhor em ficar em casa em Novembro.

  10. ““Ainda por cima tudo isto dito por uma das principais obreiras do 11 de Setembro”
    [Condoleeza Rice] Foi uma das responsáveis pelos atentados?!! Não me diga.”

    Uma pequena observação de índole histórica me ocorreu com o comentário supra enquanto prossigo na leitura de Freedom Betrayed, de Herbert Hoover.

    Creio que ninguém hoje sustentará que tenha sido Franklin D. Roosevelt a dar a ordem para desencadear o ataque japonês a Pearl Harbor. Porém, daí não decorre que FDR não tenha, factualmente, feito tudo para que os Japoneses fossem os primeiros a disparar (estrangulando-os através das sanções económicas por si decididas) e assim, finalmente, se “verificar” o facto que permitiu o que a sua administração há muito perseguia sem o conseguir: o apoio da opinião pública e do Congresso à entrada na II Grande Guerra por parte dos EUA. Hoover, no livro acima referenciado, transcreve uma entrada no diário de Henry L. Stimson, ao tempo Secretário da Guerra com FDR, e que há muito procurava forma de os EUA entrarem em guerra “algures” [Hoover]: “When the news first came that Japan had attacked us, my first feeling was of relief that the indecision was over anda that a crisis had come in a way which would unite all our people…” (pág. 298).

    Creio que foi a um paralelismo histórico que Ron Paul, no Domingo passado, aludia quando contrapôs à acusação lançada sobre os “Paulianos” segundo a qual, “caso fossem eles, Paulianos, que estivessem no poder Bin Laden não estaria hoje morto”, Paul respondeu: “But you know what I think the answer is? So would the 3000 people [killed] on 9/11, be alive!.

    Uma nota final: a ordem de grandeza das vítimas mortais no “9 de Setembro” [2001] e no “7 de Dezembro” [1941] foi semelhante: 3000 contra 3500.

  11. CN

    o encantamento pelo warfare empire state pela “democracia e o mundo livre”, quanto idealismo…. suponho que foi o que motivou quem seguiu Napoleão.

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