No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o jornal i de hoje.

Neocomunismo

Mais de um ano depois da pesada derrota eleitoral do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã entende estar na hora de se afastar da liderança daquele partido político. Fá-lo, não permitindo que o Bloco vote a sua nova direcção, mas escolhendo ele uma. Ainda por cima bicéfala, quase adivinhando que, sendo preciso dividir para reinar, a confusão gerada o faça regressar em glória.

De acordo com as últimas notícias, há vários militantes do Bloco insatisfeitos com a decisão de Louçã: querem que o assunto da sucessão se discuta e se escolha em conformidade. É espantoso como é que gente adulta ainda se deixa surpreender com a decisão de Louçã. A grande maioria destes militantes do Bloco que contestam o ainda seu líder tornaram-se neocomunistas quando, no fim das suas infâncias, as ditaduras sanguinárias do Leste europeu derrocaram. Deve ter sido duro. Como duro será sentir agora na pele o tipo de partido a que pertencem.

A questão que divide o Bloco dos restantes partidos (excluo o PCP), não é a democracia, mas sim o conceito de liberdade. Para a extrema-esquerda, a escolha de um chefe torna-o magnânimo. Único e supremo. Como Louçã entre os bloquistas. A liberdade de escolha, a liberdade de pensamento diverso do dominante é muito difícil porque contrário à própria concepção de democracia vigente: a vontade da maioria que se impõe às escolhas individuais. Os neocomunistas do Bloco gostam de dar lições de vida. Estão a viver mais uma. Aprenderão de vez?

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16 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. neotonto

    Ola, bom día.
    Era a minha obrigaçao de hoje. Que esta caixinha de comentarios nao ficase vazia para a gente nao pense que…

  2. migspalexpl

    é uma coisa fantástica criar fantoches de papel para depois os amachucar implacavelmente. cria impacto nos escritos, as multidões exaltam-se em certezas indignadas, e o autor sai de cena com uma satisfação de trabalho bem executado – como não concordar com as evidências tão eloquentemente dispostas? o chato é que as vezes a natureza verdadeira das coisas não é bem aquela, mas o que importa mais do que aplicar um murro bem dado naqueles de quem se discorda? O que interessa se na verdade o Louçã não escolheu nenhum sucessor, ou par de sucessores? Se deu apenas uma opinião – que gostaria de ver uma liderança partilhada por um homem e por uma mulher? Uma opinião que conta como qualquer outra, descontando a diferença de ter visibilidade pública. Não interessa muito – porque o que importa é realçar a verdadeira e sinistra natureza totalitária do bloco de esquerda e das gentes que o compõem. Os factos que se acomodem a este dogma.

  3. paam

    “Para a extrema-esquerda, a escolha de um chefe torna-o magnânimo. Único e supremo. Como Louçã entre os bloquistas. ”

    Assenta que nem uma luva:

    “O Bloco de Esquerda é o meu povo e é com ele que combaterei. Sempre” […] “não falharei, a ninguém e em nenhum momento”
    Francisco Louçã

    Entre os elementos comuns aos totalitários está o recurso ao nacionalismo (o meu povo), a linguagem bélica (combaterei) e a termos absolutos (sempre, não falharei, a ninguém e em nenhum momento).

    “The principle of evil in Europe is the enervating spirit of Russian absolutism.”
    Lajos Kossuth

  4. A. R

    Os comunistas odeiam-se visceralmente: basta ver o circo montado em volta do desaparecimento de Andrés Nin durante as chekas madrilenas acalentadas pelo paizinho dos Povos: arrancaram-lhe a pele e ele vivo.

    Camaradas de partido nem sequer apareceram no funeral de João Amaral!

    Esta gente é doente: profundamente doente.

  5. asa

    O Louça poderia, por exemplo ter partilhado a liderança com uma mulher, durante estes anos de reinado, poderia ter escolhido uma rainha.

    Mas não…

    O Louça é modernaço, não quer cá dessas coisas.

  6. “Fá-lo, não permitindo que o Bloco vote a sua nova direcção, mas escolhendo ele uma.”

    Mas o que é que impede os militantes do Bloco de votarem noutra direcção que não a proposta por Louçã?

    Qual é a diferença entre a atitude de Louçã e, p.ex., a de um primeiro-ministro que não se recandidata mas que apoia um candidato nas eleições seguintes?

    “A liberdade de escolha, a liberdade de pensamento diverso do dominante é muito difícil”

    E qual é a dificuldade de ter pensamentos diversos do dominante no Bloco de Esquerda? Penso que é muito mais fácil uma minoria organizar uma lista divergente no BE do que nos outros partidos – para começar, porque para concorrer a um orgãos de, digamos, 20 membros, não é preciso arranjar 20 candidatos; além disso, as eleições no bloco são feitas pelo método proporcional simples, que é mais benéfico às minorias do que o método de Hondt (da única vez em que fui eleito delegado à convenção do BE, não o teria sido se a eleição fosse pelo método de Hondt).

    O AAAmaral pode argumentar que os candidatos da oposição no BE costumam ter menos que 20% dos votos, mas isso é porque há aí um fenomeno de auto-selecção: como grande parte (ou todos…) os militantes do BE aderiram ao partido sob a atual direcção, a amostra é naturalmente enviesada para as pessoas que apoiam a linha atual (se não se identificassem com a linha de atuação do BE em principio nem se filiariam, não é?).

  7. “Para a extrema-esquerda, a escolha de um chefe torna-o magnânimo. Único e supremo.”
    ??? Para a extrema-esquerda? E para os outros? E nem sequer é necessário ir á extrema-direita, basta pensar um pouco em Francisco Sá Carneiro…

  8. O que é o “neocomunismo”? Será o BE a extrema-esquerda? Porquê? E o CDS-PP, é a extrema-direita?

  9. Samuel

    Você é fanático, André Abrantes Amaral… No dia em que o BE não for um partido que luta pela liberdade, perde 90% dos seus militantes. O BE é, dos 5 partidos principais, aquele em que os militantes mais expressam o seu ponto de vista. O BE considera a URSS um regime ditatorial, quer construir o socialismo em democracia, sem um Estado que controle tudo nem que reprima a liberdade de pensamento.
    Custa a digerir? Tome qualquer coisa para a azia.

  10. Samuel

    Spongebob, o diagram de Nolan tem tanto de imparcial como a opinião do Pinto da Costa sobre o Benfica. Se defender as suas opiniões sem levar estas “construções” (ainda por cima tão redutoras como são, não se pode resumir uma coisa tão complexo num desenho de primeira classe, independentemente de ser favorável a outro modelo de sociedade acharia o mesmo) como se fossem um livro sagrado, é capaz de ser mais interessante discutir consigo.

  11. Pisca

    Nada como 500 novos militantes que se acotovelam no quarto de uma prima que mora ali para a Picheleira, com as quotas todas em dia, pagas no multibanco do Lidl ali ao lado, e já temos quorum para fazer uma eleição democrática, se não chegarem o primo de Vila Nova do Assobio tem lá um palheiro e pode também arranjar espaço para mais 2.000, o dinheiro logo se vê, alguém o vai emprestar

    As directas são claras como a água, do tal primo acima citado, água-pé

  12. Pingback: Que os militantes do Bloco não separem o casal que Louçã uniu… « O Insurgente

  13. Pingback: O partifo favorito da comunicação social portuguesa « O Insurgente

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