Verão Chinês

Como para mim denunciar os crimes do comunismo é sempre uma actividade meritória e prazenteira, aqui vos deixo uma sugestão de leitura: Mao´s Great Famine de Frank Dikotter. Quase acabado de sair das maquinetas onde se imprimem os livros, faz uso de muitas fontes originais, sobretudo guardadas nas sedes partidárias provinciais (as centrais estão ainda vedadas a olhos curiosos), para nos dar um retrato já muito aprofundado desse movimento de radical colectivização da agricultura (sempre um grande desígnio comunista) chamado Grande Salto em Frente que inevitavelmente (e como sucede com todos os movimentos de colectivização da agricultura) matou à fome pelo menos 45 milhões de chineses (números de Dikotter).

Apesar do tema pesado, o livro está bem escrito e permite uma leitura fluída. E, sendo um livro de História de um académico reconhecido, é também uma viagem ao absurdo e não se consegue ler sem esboçar uns tantos sorrisos de incredulidade. A adopção de métodos agrícolas não científicos mas ideológicos (porque os adoptados pelos camponeses e testados pelo tempo eram métodos direitistas indignos de um país socialista) que levaram a uma quebra na produção agrícola. As fundições nas traseiras que permitiriam que a China produzisse mais aço do que a Grã-Bretanha em quinze anos (e, depois, em três ou quatro), que consumiu todos os produtos metálicos das zonas rurais, incluindo as ferramentas agrícolas (ooops), desviou milhões de camponeses dos trabalhos nos campos para as fundições e que terminou com quebra abrupta na produção agrícola e produziu toneladas de aço de má qualidade não usável. As colossais obras de irrigação feitas à pressa e em locais errados que findaram abandonadas ou com efeitos contrários aos inicialmente planeados, com destaque para a barragem que iria tirar o lodo ao Rio Amarelo mas levou a que o lodo duplicasse. Um regime comunista a usar os camponeses como trabalho escravo (sem comida, sem horas de descanso, sem acomodações adequadas ao clima, sem cuidados médicos, com espancamentos, com humilhações públicas,…) nas obras de irrigação, nas comunas agrícolas ou nas fundições matando, por esta via, milhões de camponeses. As sucessivas rondas de purgas, que puniram sobretudo os quadros do PCC que tentaram proteger as populações dos efeitos das políticas do Grande Salto em Frente e aqueles que denunciaram a existência de fome generalizada quando o topo do PCC considerava a situação excelente e as mortes ocorridas ‘uma lição com valor’, destacando-se o purgado ministro da defesa Peng Dehuai (que morreria, ainda como castigo por ter falado verdade em 1959, durante a revolução cultural). A protecção da imagem internacional da China, doando toneladas de alimentos a países como a Albânia enquanto nos campos a fome matava a eito. As sempre sábias citações de Mao, ora questionando-se sobre que destino daria aos excedentes que o GSF produziria, ora exortando os camponeses chineses (famintos) a tornarem-se vegetarianos para que se pudesse exportar a carne chinesa, ora afirmando que mais valia que metade da população morresse para que a outra metade tivesse a sua porção de comida. Os elaborados esquemas que levaram à criação de um complexo mercado de sucessivas trocas directas. Etc., etc., etc.. E, claro, as mortes. Está tudo no livro de Dikotter, que recomendo vivamente.

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3 pensamentos sobre “Verão Chinês

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