A Europa de Wilson, ou uma história de Verão

 

Num dos seus contos, ‘The Lotus Eater’, Somerset Maugham conta-nos a história de Thomas Wilson, um inglês que há 16 anos vive feliz e satisfeito na ilha de Capri, usufruindo de uma boa vista para a cidade de Nápoles, gozando o bom tempo, as praias, as esplanadas e o vinho italiano, mais o fluir de uma vida pacata em pleno Mediterrâneo. Apesar de ser um homem entregue ao ócio, Wilson cedo aguça a curiosidade de Maugham porque, como o próprio escritor nos explica, aquele inglês é um bom exemplo de quem vive a escolha que fez, se atreveu a tomar a vida entre as mãos e a conviver bem, sem remorsos, com a sua decisão. Quando os dois se conhecem, decidem subir o Monte Solaro, o mais alto de Capri, e parar num pequeno restaurante situado no caminho de regresso. Aí, numa noite serena e com luar, queijo, figos e um licor a acompanhar, Wilson conta a sua vida e a opção que fez para a mudar. O seu emprego aborrecido e sensaborão num balcão de um banco em Londres, sem família, sem amigos nem conhecidos, num dia-a-dia sempre igual, sem variações nem surpresas. A sua viagem, quinze anos antes, a Capri; a sensação de liberdade e bem estar que sentiu, mais a vontade arrepiante de ali ficar para sempre. A forma como, mesmo assim se conteve, não se deixou ir pelo impulso do momento e regressou a Londres, ao seu trabalho, para ver se o que sentia se mantinha. Manteve-se. Fez as contas à vida, à gratificação a que teria direito pelos seu anos de serviço no banco e o quanto esse montante daria para, de forma regrada, viver sem preocupações durante 25 anos em Capri. Uma eternidade no paraíso.

Thomas Wilson era um homem ponderado que não dava um passo sem contabilizar primeiro os prós e os contras. Pelas contas que fez, 25 anos seria o tempo que, em situações normais e de acordo com a esperança média de vida à época, a história passar-se-ia em 1913, teria ainda pela frente. Findo esse período, o dinheiro acabaria e com nada mais se teria de preocupar. A ironia é que a vida lhe correu melhor que isso. De tal forma que Wilson viveu bem mais que 25 anos e, quando, treze anos mais tarde, Maugham volta a Capri fica a conhecer o resto da história: que Wilson não tinha morrido quando esperava. E não tendo tido coragem para pôr termo à sua existência quando o dinheiro se acabou, foram os amigos de outrora que lhe sustentaram, oferecendo-lhe esmolas até que morreu sozinho, num casebre perdido no meio de uma mata, onde ninguém ia. Wilson tinha um bom plano, mas esqueceu-se da velhice. Julgou bastar-se a ele próprio, não contou com a sobrevivência do corpo, nem com a vontade de viver além dos números. Fazendo os devidos descontos, o que se passa com o Estado social europeu é um pouco parecido.

Quando se fabricou o Estado social também se fizeram contas: se tudo funcionasse como até ali, o fundo de maneio, constituído pelos descontos que cada cidadão iria fazendo para a respectiva caixa geral de aposentações, seria suficiente para, senão umas férias permanentes em Capri, uns bons anos de reforma a gozar a vida. Os cálculos foram feitos com tanto cuidado, o plano foi tão bem sucedido ao princípio, que o tomamos por adquirido: um direito que a todos nos caberia e que ninguém nos poderia tirar. Uma vida sem desafios, aborrecida e planeada até ao ínfimo dos pormenores, teria como fruto, prémio, uma pensão que pagaria, durante anos, jogos de damas debaixo das árvores dos jardins das cidades. Um paraíso para todos menos para os que não viam a vida dessa forma, gostavam de trabalhar, mas eram obrigados a retirar-se quando atingiam a idade certa.

Tal como com Wilson, a vida correu-nos demasiado bem. Tão bem que não nos preocupámos com o futuro. Fomos tendo menos filhos, até porque, assegurando o Estado a reforma, os filhos deixaram de ser uma garantia para o futuro, sendo antes os herdeiros do bem estar. Um peso do qual nos podíamos desenvencilhar. A Europa está agora cheia de Wilsons que padecem de amnésia. Os mais novos, tal como Maugham, poderão daqui a uns anos, continuar esta história explicando o modo como saíram dela e redescobriram o meio de sair da ilha europeia.

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5 thoughts on “A Europa de Wilson, ou uma história de Verão

  1. bloody mary

    Muito bem visto. Lembro-me tão bem de tantos que, há não mais que uma dúzia de anos, ainda nem cinquenta tinham e já estavam em pré-reforma nas manjedouras das empresas públicas, a receber mundos e fundos e a fazer contas à mesada que iam ter na sua reforma, logo ali ao virar da esquina…

  2. Samuel

    Há uma interpretação alternativa. É certo que claro que as pessoas não se podem reformar aos 50 anos se a esperança média de vida é de 80, daí que há uns anos se tenha inserido um factor de sustentabilidade nas contas da Segurança Social. Não podemos dar o que não temos, concordo; se for preciso cobrar mais para a SS sobreviver, concordo.
    Mas o excerto (o livro confesso que não li. Ainda) alerta-nos para outra coisa: a diluição dos riscos colectivos pela população de modo a que todos possam usufruir de uma vida normal sem pensar se vão ter um AVC amanhã e se o poderão pagar (ou se têm de trabalhar até aos 80). É a condição humana, a sua incerteza, que justifica a política de “garantia social”: todos pagamos algo para um fundo, e quando tivermos um problema estaremos assegurados. Se a vida fosse infinita, o modelo económico e social seria irrelevante, porque no “longo prazo” tudo seria igual. Mas não é. Daí que como espécie que vive em sociedade não podemos negar que o que fazemos condiciona os outros determinantemente no seu curso percurso de vida: se somos patrões e lhes pagamos 450 euros, estamos a negar-lhes parte da sua liberdade de serem felizes. Se somos contra um modelo que salvaguardar o direito a uma velhice condigna e a saúde, nas mãos indirectamente temos o suor dos que não puderam descansar depois de uma vida de trabalho e o sangue dos que morreram por incapacidade económica.
    Daí que creio que é uma manobra de diversão, de modo bastante arguto, há que dizer, que muitas das pessoas de direita se descrevem como liberais. O socialismo é muito mais realista na medida em que assume que ainda há exploração de um homem pelo outro, pelo que ainda não alcançámos a liberdade: esta não se alcança por se dizer que todos somos livres mas por criar as condições para o sermos. Os liberais vivem numa utopia que considera que as liberdades individuais não se tocam. Apesar de achar que vêm o mundo de um prisma incorrecto, respeito-os a sua genuinidade. Agora, as pessoas que votam nos partidos que se denominam liberais são, na sua esmagadora maioria, conservadores. Porque senão não percebo como se explica que sejam contra o casamento gay, legalização de drogas leves, etc., se definem que a liberdade individual deve ser total.
    Aos liberais genuínos, direi que só uma sociedade anárquica, em que todos têm uma conduta absolutamente “cidadã” é que é efectivamente capaz de ser livre (talvez daqui a uns séculos se chegue lá). E para lá chegar, tem de ser ir libertando as pessoas da opressão da exploração: o socialismo. Um socialismo não autoritário, que progressivamente elimine a sociedade de lucro e que faça com que as empresas sejam detidas pelos seus trabalhadores. Depois disso, as instituições serão progressivamente abolidas até chegar à liberdade completa que socialistas e liberais ambicionam. No fundo, acho que queremos o mesmo, mas os liberais têm uma visão mais desligada da realidade, sem querer de todo ser ofensivo.
    Aos conservadores, direi que é melhor admitirem que o são do que fazerem passar-se por paladinos da liberdade. Posso ter opiniões diferentes, mas respeito-os (por exemplo o Santana Lopes, esquecendo o mal que fez como primeiro-ministro, é um tipo que se assume como é, menos propenso a mudanças). Tenho mais dificuldade em aceitar os pseudo-liberais que se regozijam quando o Soares dos Santos vem com o discurso moralista e no fundo f*** a vida do povo português (salários ridículos, concorrência desleal, etc.), porque “está usar a sua liberdade” (as pessoas que são f****** é que estão a ver um atropelo à sua, não?). Daí que para mim essas atitudes de defesa dos que usam o povo como objecto sejam um cair de máscara.

  3. Samuel

    *respeito em vez de respeito-os. Como conferi muito ao de leve pode ter mais alguns erros, peço desde já desculpa.

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