Saiba o que os Finlandeses pensam sobre Portugal e o Euro

No Diário Económico:

Mas, afinal, o que leva os finlandeses a oporem-se à ajuda? Mika Palo, professor de finlandês e representante em Portugal do Instituto Ibero-Americano da Finlândia, acredita que a resposta está no passado. No início da II Guerra Mundial, o país enfrentou sozinho a vizinha URSS – perdeu algum território, mas não a independência. No final da guerra, foi a vez de lutar contra os alemães. A paz colocou-o no campo dos vencidos, ficando obrigado a pagar à URSS uma pesada indemnização: “Cumprimos até ao último tostão”. Mais tarde, no começo dos anos 90, sofreu uma forte crise económica: “Recuperámos com muito esforço e dor, mas sem pedir dinheiro a ninguém. Há uma cultura de responsabilidade que nos faz achar injustas estas políticas de resgate“.

Selinda traz a casa impecavelmente em ordem, nem um ‘bibelot’ a atrapalhar o design simples, ares de andar modelo em condomínio à venda. Especialista em direito empresarial, sempre acreditou que os finlandeses acabariam por seguir as decisões de Bruxelas: “Ninguém adivinha as consequências da implosão do euro. A maioria é a favor da ajuda, mas a percentagem contra faz muito barulho”. Filha de um engenheiro e de uma gestora de topo, bem se lembra de a mãe lhe repetir vezes sem conta: “Tens de ganhar o teu próprio dinheiro”.

Independência e poupança vincam a identidade nacional. Até aos 20 anos, data em que rumou à Suécia, nunca se apercebera da existência de classes sociais. A Finlândia orgulha-se de ser uma sociedade igualitária, homens e mulheres, ricos e pobres, todos têm acesso ao mesmo mundo. Atravessa a sala descalça, sapatos e casaco são traje de rua, deixam-se à porta: “A principal característica dos finlandeses é o respeito pelas regras“. Talvez por isso, Selinda, férias na Ericeira a equilibrar-se na prancha de surf e nos costumes lusos, muito se tenha admirado de escutar os portugueses: “As regras são feitas para quebrar“. Vagueia o olhar pelas paredes, pelos móveis brancos: “Aqui, tudo funciona”. Tanto que, às vezes, não se respira improviso. Apanha o cabelo, detém-se na janela. Estão 21 graus, à tarde há-de caminhar até um dos parques que povoam a cidade, gente e cerveja na relva.

Da casa de Selina à redacção do Helsingin Sanomat, jornal com famas de conceituado, são quinze minutos de eléctrico. Pintados de verde e creme, cruzam a cidade sem segundo de atraso nem vestígio de sujidade. Elonen Piia, editora adjunta de política nacional, afirma que os momentos de crise evidenciam as diferenças culturais: “Para o povo finlandês é incompreensível que alguns países não tenham cumprido o limite do défice e que agora não paguem as suas dívidas sozinhos”. Anda entre uma secretária e outra: “Confiamos nos bombeiros, na polícia, nos políticos. Até termos um pequeno escândalo no financiamento de campanhas eleitorais, acreditávamos que não existia a mínima corrupção. E, na verdade, quase não existe”. O Índice de Percepção da Corrupção de 2011, elaborado pela Transparência Internacional, dá-lhe razão – a Finlândia partilha com a Dinamarca o segundo lugar, logo a seguir à Nova Zelândia. Portugal ocupa o 32º posto.

Selinda gosta de café acabado de fazer. Tira a cafeteira do lume, o cheiro caminha até à sala, acomoda-se nas chávenas. Sabor igual ao lanche de casa dos avós. Ajeita-se no sofá, nas recordações. Uma amiga descobriu em casa da avó uma caixa com ‘collants’ rotos e uma nota: “Para um dia de aflição”. A história é um sorriso triste. As provações passadas na II Guerra Mundial aliadas aos princípios da igreja luterana semearam o valor da poupança. Selinda aquece as mãos na chávena. A recessão, que no início da década de 90, deixou os finlandeses nas mãos da austeridade, foi adubo: “Aprendemos muito com essa crise, o crédito não é amigo”. Agora, anda a poupar para a maior das aventuras. Pediu uma licença sem vencimento e matriculou-se no curso Advanced Internacional Business Law da Universidade Católica de Lisboa. Em Setembro, há-de descobrir quanto custa pagar uma escola. “Poder viajar sem visto nem câmbio para Portugal é uma das maravilhas da UE. Os políticos têm de resolver a crise”. 

Responsabilidade? Ganhar o seu dinheiro? Respeito por Regras? Baixa Corrupção? Poupança?

Pois, e depois um país é o único AAA Estável da Zona Euro e o outro é um dos resgatados…

Não admira que estejam cansados e falem tanto em sair e bater com a porta.

6 pensamentos sobre “Saiba o que os Finlandeses pensam sobre Portugal e o Euro

  1. Ramone

    Enquanto a direita aposta num mix de argumentos morais e de esperança na austeridade expansiva o PCP apresenta a melhor proposta para o pagamento do serviço da dívida:

    “O PCP quer que o serviço da dívida portuguesa tenha juros anualmente fixados a uma percentagem das suas exportações anuais previamente fixada.

    A proposta acaba de ser feita por Bernardino Soares que lembra que foi o sistema aplicado à Alemanha a seguir à Segunda Grande Guerra para permitir a recuperação económica do país.

    O líder parlamentar comunista avançou com um pacote de renegociação da dívida pública portuguesa – que será apresentado na AR como proposta de renegociação – onde refere que se actualmente o esforço da dívida para 2011 está estimado em 7,1 mil milhões de euros se se adaptasse a taxa de 5 % sobre as exportações aplicada à Alemanha a seguir à II GG se conseguiria libertar mais 4 mil milhões para investimento.

    Globalmente os comunistas defendem a renegociação imediata da dívida pública com os credores no prazo máximo de 30 dias. Bernardino Soares advoga igualmente a substituição do PEC por um Programa para o Emprego e o Progresso.”

    http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1880913

  2. dervich

    Bom ok, o que o PCP propõe é “desculpem lá qualquer coisita mas pagamos o que pudermos, quando pudermos”…Ora é natural que isto não seja aceitável para quem é credor, pelo menos não é aceitável para a maior parte de nós quando alguém que nos deve dinheiro e responde dessa maneira.

    Mas não é preciso ir tão longe, bastava que nos deixassem pagar a uma taxa fixa razoável, durante um período realista, e na condição de o deficit atual estar sob controlo.

    Uma taxa de juro de 3% parece-me perfeitamente razoável e suportável, para ambas as partes, principalmente se nos lembrarmos que a Alemanha está com taxas de juros de empréstimos negativas, portanto ainda ganha bom dinheiro no caso de pretender continuar a ser o nosso “banco”.

  3. Mariana

    O Ricardo tem razão. O caso da Finlândia mostra que, ao contrário do que certos blogues liberais querem fazer passar, a existência de um estado social forte não é incompatível com uma cultura de responsabilidade e contas em dia.

  4. Ramone

    Dervich, diga da proposta do PCP o que o fizer sentir melhor – mas isso não muda o estado miserável para onde está a caminhar o país com a actual incapacidade do governo aceitar tomar um acto de soberania – também porque é o próprio povo que já não acredita que são possíveis actos de sobrerania, muito graças ao centrão gelatinoso e sempre com o choradinho de mais e sempre mais integração europeia.

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