Aqui somos todos assim

Sicília, Abril de 1787. Johann W. Goethe estava numa rua central de Palermo (imunda, coberta de lixo), falando com um lojista da cidade, quando viu dois homens bem vestidos, com bandejas de prata na mão, pedindo dinheiro a quem passava. Intrigado com a cena que decorria sob o seu olhar de estrangeiro, Goethe perguntou ao comerciante pelo seu significado. O homem respondeu-lhe apontando para uma figura vestida como um cortesão que caminhava atrás dos dois criados com um porte digno e tranquilo. É o príncipe de Palagónia, disse, e está aqui, como em outras ocasiões, a pedir dinheiro ao povo para o resgate de sicilianos que foram capturados e feitos escravos pelos berberes. Goethe, que três dias antes havia visitado a villa Palagónia, mostrou-se perplexo. Como é que alguém que gastou uma fortuna nas loucuras grotescas da villa se atrevia agora a mendigar para sustentar aquela que devia ser uma função primária dos senhores da ilha!? Aqui somos todos assim, disse resignado o comerciante de Palermo, pagamos as nossas loucuras, mas as nossas “virtudes” têm que ser os outros a custear.

Somos todos assim, nesta faixa soalheira. De Lisboa a Atenas, passando por uma Sicília que, em 2012, está a beira do colapso. E andamos pela rua com pose de cortesão, armados com uma putativa superioridade moral que nos permite pedir dinheiro descaradamente como se a ele tivéssemos direito por decreto divino. Tudo isto depois de gastar quantidades obscenas de euros nos vícios privados de alguns e nas obras palagónicas para “todos”.

Um pensamento sobre “Aqui somos todos assim

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