Desamparados

(publicado hoje no Diário Económico)

Já o diziam os Rolling Stones: nem sempre temos o que queremos. É uma ideia a que nos devemos habituar, pois por mais que políticos e cidadãos queiram “defender o Estado Social”, essa será uma vontade difícil de concretizar.

Na Europa, o “Estado Social” foi possibilitado por um feliz acidente histórico: a existência, no pós-II Guerra, de uma população jovem. Nos anos 50 e 60 do século passado, com um número crescente de pessoas a beneficiarem de cada vez maiores rendimentos, era possível garantir que um número relativamente diminuto de pessoas desempregadas, doentes ou reformadas fosse amparado por um Estado-Providência consideravelmente generoso.

Portugal, fazendo jus ao seu estatuto de país atrasado, não gozou de tão propícias circunstâncias, pois só construiu o seu “Estado social” após a sustentabilidade do “modelo” ser posta em causa pela crise do petróleo nos anos 70 e o envelhecimento da população: a primeira interrompeu o crescimento económico das décadas anteriores, diminuindo os recursos à disposição do “Estado Social”; o segundo fez aumentar as suas despesas: à medida que os jovens de 1950, 60 e 70 se reformam, depois de terem trazido ao mundo menos filhos que os seus pais, o Estado precisa de gastar mais dinheiro em pensões. Juntamente com a protecção oferecida ao crescente número de desempregados, isto significa que um número cada vez menor de pessoas precisa de gastar cada vez mais para dar cada vez menos a um número cada vez maior de pessoas.

Durante décadas, a forma favorita dos Estados “ultrapassarem” este problema foi adiar a sua resolução, através do endividamento. E enquanto houve quem estivesse disposto a emprestar dinheiro, foi possível fingir que tudo estava bem. Um dia, no entanto, alguns empréstimos para compra de casa na longínqua Detroit não foram pagos, e logo ruiu todo o edifício de endividamento que mantivera esta ilusão: instituições financeiras em dificuldades ficaram cada vez mais relutantes em emprestar a Estados que, dado o volume das contas para pagar, dificilmente o conseguiriam fazer.

Com cada vez menos recursos à sua disposição, o “Estado Social” oferece cada vez menos protecção às pessoas que precisam dele, sendo na realidade pouco mais que uma máquina burocrática cuja dimensão é inversamente proporcional à sua capacidade para cumprir o propósito para que foi construída. O “Estado Social”, que trazia consigo a promessa de amparar os cidadãos “do berço até à sepultura”, não só deixou de o fazer, como ficou ele próprio desamparado, condenado a uma “sepultura” que ele próprio cavou (os impostos elevados que implica são um sério obstáculo ao “crescimento” que precisa para sobreviver). Das louváveis boas intenções de uma ou duas gerações, pouco mais restou que um lamentável futuro negro para muitas mais

3 pensamentos sobre “Desamparados

  1. Paulo Pereira

    Na UE o estado social está perfeitamente sustentado porque a balança corrente é positiva e o desemprego alto, especialmente jovem.

    A U.E. pode e deve baixar os impostos sobre as empresas de forma a aumentar a competitividade e produtividade e o emprego gerado.

  2. Observador

    Vai lá vai. Pensas que a Europa alguma vez pode competir com a China ou com a Índia? Eles já tem muita massa, mas foi o capital ocidental que se aliou ao comunismo chinês e isto vai de mal a pior. Alguém tem dúvidas? Qualquer dia temos, se tivermos, direito a uma tigela de arroz por dia e já não é mau!

  3. Paulo Pereira

    Se a UE tem uma balança corrente positiva , onde é que existe algum problema económico ?

    Se existem muitos desempregados jovens onde está o problema demográfico ?

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