Rendas e aeroportos

Luís Aguiar-Conraria

Numa altura em que tanto se fala de combater as rendas e a captura do interesse público pelos privados, o anúncio de que os aeroportos vão ser privatizados a apenas um comprador, gerando uma situação de monopólio privado, e as consequentes rendas de monopólio, é uma vergonha. Ainda dizem que este governo é liberal.

Leitura complementar: Lisboa à parte, o resto é decerto paisagem; A privatização da ANA e o fim da autonomia da gestão do aeroporto Sá Carneiro

Ensino público e ensino privado? Tudo na mesma.

Sem discordar do diagnóstico que o Ricardo faz da evolução negativa do ensino público aqui, discordo desta inversão entre a relação de qualidade público versus privado. Para mim, está tudo como sempre foi: o privado com melhor qualidade no ensino que o público. Sucede que o público tinha (e, porventura, ainda tem) notas mais inflaccionadas do que o privado, o que revelava uma aparente supremacia pedagógica do ensino público. Quando se instituíram os exames no 12º ano para todos, e só aí, ficou inteiramente visível o embuste ideológico que era a superioridade do ensino público – algo que, em todo o caso, já se ia percebendo. (Anteriormente no ensino público apenas os melhores e que queriam continuar para o ensino superior faziam testes para acesso à universidade, enquanto no ensino privado eram praticamente a totalidade dos alunos).

Dou também o meu exemplo. Entrei em 1991 para o ano O da Católica de Lisboa (na altura substituto do 12º ano).  Vinha do Colégio de São João de Brito, que está invariavelmente nos primeiros lugares dos rankings dos exames e passa anos a fio no topo da tabela dos exames de matemática. Ora a Católica era, nessa altura, a única universidade que avaliava os candidatos apenas por exames da própria universidade a que estes se submetiam (começava a haver, pela mão de Manuela Ferreira Leite e com grande contestação – incluindo do actual pm -, as provas gerais de acesso ao ensino superior a algumas disciplinas). As médias do secundário era ignoradas. Comigo entraram alunos provenientes do privado e do público. Quando as aulas começaram e nos fomos conhecendo, notei um padrão: os alunos provenientes das escolas públicas tinham quase sempre médias de 11º ano mais elevadas do que a minha, mas tinham médias de entrada (obtidas pelos exames da Católica) mais baixas do que a minha (e, sobretudo, médias dos dois exames de matemática realizados pelos candidatos muito mais baixas do que a minha). O melhor aluno do curso de Economia do meu ano foi uma aluna e veio também da minha turma no SJB (minha amiga desde os 12 anos e até agora).

Não tenho dúvida, no entanto, de que a diferença entre público e privado era há 15 ou 20 anos bem mais reduzida do que actualmente. Os colégios privados têm agora uma panóplia de actividades para oferecer aos seus alunos que no meu tempo não tinham, uma catrefada de psicólogos para cada nível de escolaridade, e mais umas coisas além dos projectos educativos consistentes de sempre. Parece-me ainda que actualmente os privados dão uma prioridade à excelência académica que não davam nos meus tempos; do que me recordo, o SJB atribuía maior importância à formação como pessoa do que às proezas académicas, encarava-se com benevolência aqueles casos de alunos que repetidamente chumbavam de ano enquanto não se toleravam infracções disciplinares graves, a insistência no desporto (tão grande como a minha insistência em fugir ao desporto) era superior ao investimento no ensino de líguas estrangeiras e por aí adiante; hoje, está tudo diferente. O ensino público, pelo contrário, é cada vez mais um albergue espanhol ao sabor dos devaneios pedagógicos que mudam com frequência e palco de batalha entre os sindicatos de professores e os ministros da educação. As boas escolas públicas, tradicionalmente bem reputadas, pouco menos que desapareceram. Enfim, o ensino público actualmente é um forte mecanismo de imobilismo social – algo que agrada tanto à esquerda snob (que se repugna ainda mais do que a direita snob com a mobilidade social) como à esquerda estatista (perdão pela redundância), que gosta de futuros eleitores convencidos que não conseguem sobreviver sem as inevitáveis prestações sociais. Ou seja: no ensino público, objectivo cumprido.
Correcção: Não foi Manuela Ferreira Leite que introduziu a PGA, mas Couto dos Santos.

Para entender o tamanho do problema político-económico do Brasil e a desgraça que está por vir

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No Podcast do Instituto Mises Brasil de hoje uma entrevista que fiz com o brasileiro Adolfo Sachsida, mestre e doutor em economia pela Universidade de Brasília, pós-doutor em economia pela Universidade do Alabama e pesquisador da Diretoria de Macroeconomia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Sachsida cita quais são os erros da equipe económica do governo Dilma Rousseff, a insistência do governo em utilizar políticas de demanda, a manipulação do índice de preços e a bolha imobiliária que está a ser criada no país.

O economista mostra que o Brasil que a Europa vê com otimismo é irreal.

Parceria Insurgente/Diário Económico: lista de artigos (completa)

Para quem esteve de férias, aqui fica a lista dos artigos publicados no Diário Económico, no âmbito de parceria durante o mês de Agosto:

Aproveitem a leitura!

Parceria Insurgente/Diário Económico: Bruno Alves

Com a ‘troika’ de visita a Portugal esta semana, com o propósito de avaliar o cumprimento do programa de resgate, não falta quem insista na necessidade de se rever o “memorando de entendimento”, de desistir da “insistência” na “austeridade”, e de “apostar” no “crescimento”. Falta-lhes o juízo para perceber que perderiam a aposta.

“Normalidade”, artigo de Bruno Alves.

a ler (2)

“(…) Os próximos cinco anos serão de discórdia sem precedentes entre as mais altas hierarquias do Estado, uma vez que o facto de Eduardo dos Santos ter conseguido impor Manuel Vicente como a sua escolha para vice-presidente significa que ele continua a manter o partido preso pela garganta”, Justin Pearce (especialista em Estudos Africanos) no Diário Económico (página 21).

Portanto, para aqueles que para África rapidamente e em força vão, escolham bem os parceiros…

O que mudou nos últimos 15 anos?

Estudei em uma Escola Secundária pública e em uma Universidade pública, Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

Em 1994, quando entrei na faculdade, quem entrou vindo de escolas privadas pertencia a uma minoria. A Faculdade de Economia pedia apenas a específica de matemática e tinha a média mais alta para entrar. Na altura as escolas com notas mais altas nas específicas eram escolas públicas. Nesse ano foi a Escola secundária nº 2 dos Olivais a que teve notas mais altas na específica de matemática.

Em 2009, 15 anos depois, a minha irmã entrou na mesma faculdade. Continua a ser a faculdade com a média mais alta de entrada. O que mudou? Agora a grande maioria dos alunos vêm de escolas secundárias privadas. Nos ranks de melhores notas nas provas nacionais não se encontram escolas públicas de Lisboa. A minha irmã fez o ensino secundário em uma escola privada.

O que mudou esta relação de qualidade entre o ensino privado e o ensino público? Foi a falta de investimento na educação? A falta de apoio público. Factores objectivos como a quantidade de recursos empregues e e factores qualitativos como as bandeiras dos governos no poder neste período dizem que não é essa a razão.

Nas discussões sobre o tema é normal que se ponha na mesa o facto de que as estatísticas melhoraram muito neste período. Acredito que seja exactamente esse o problema. O Estado apostou nas estatísticas, que são indicadores da realidade mas não são a realidade. Qualquer indicador deixa de servir quando passa a ser um objectivo em si. O número de licenciados é um indicador que assume que os critérios para que esta certificação seja atribuída não sejam alterados com o objectivo de facilitar esta certificação. A certificação deveria indiciar mais conhecimento  adquirido e por isso a quantidade de certificações é, à partida, um bom indicador. Ao alterarem-se os critérios de exigência para obter-se mais certificações e logo um melhor indicador temos o efeito contrário na realidade, menos conhecimento.

Nas escolas secundárias temos um fenómeno semelhante. O indicador mais usado é o abandono escolar, um indicador cuja evolução pode servir desde que a exigência e os factores que levam ao abandono escolar não sejam alterados. O que foi feito foi exactamente alterarem-se estes critérios. Os alunos que antes abandonariam ou seriam expulsos das escolas são obrigados a ficar ou impedidos de ser expulsos. Ficam na escola sem aprender, porque podem obrigá-los a manter a matrícula, os professores podem ser obrigados a passá-los mas o ministérios da educação ainda não os consegue obrigar a adquirirem os conhecimentos dados pela Escola. Pelo caminho, aqueles que queriam aprender são prejudicados pela falta de disciplina na escola e pela falta de motivação de professores. Um professor que tem como objectivo dado pela sua hierarquia fazer passar alunos pode ser um bom professor? Sim pode, mas quantos o deixaram de ser por esta razão? Esta filosofia de ensino combinada com a orientação para a forma em vez do conteúdo e de uma crescente centralização ajudam a explicar a degradação da qualidade da educação pública em Portugal.

Falo hoje com amigos que andaram na sua maioria na escola pública. Não só por razões financeiras mas também por razões ideológicas gostariam que os seus filhos fossem para a Escola pública. Para sorte deles ainda têm a opção de os colocarem em escolas privadas, que é o que vão fazer. A aceitação da derrota é o primeiro passo para aceitarmos a necessidade de mudança de rumo.

 

a ler

“(…) Se as projecções do FMI não falharem, no período 2009-2017, o crescimento médio anual de Angola rondará os 4,7%. Muito longe, portanto, dos 15,3% do período 2002-2008, os setes anos de ouro que se seguiram ao fim de guerra em 2002 (…) A substituição de importações é uma das consequências naturais de uma diversificação económica bem sucedida. Sendo Portugal o principal fornecedor de bens de consumo do mercado angolano, as suas empresas terão de se acautelar e preparar para um novo ciclo nas relações com Angola que passa por produzir localmente muitos dos produtos actualmente exportados. Uma das bandeiras do provável vencedor das eleições, o MPLA, na companha eleitoral foi a promessa de privilegiar os empresários angolanos no processo de diversificação da economia tendo para o efeito lançado este ano um vasto programa de empreendedorismo nacional. Goste-se ou não, este proteccionismo, que reúne o apoio de toda a oposição, veio para ficar. O que quer dizer que o passaporte para as empresas portuguesas entrarem no mercado angolano são as parcerias com as congéneres locais”, Carlos Rosado de Carvalho, hoje no Jornal de Negócios (página 9).

Goste-se ou não da conclusão, aconselho vivamente a leitura deste artigo, muito bem estruturado, muito bem fundamentado.