Sem discordar do diagnóstico que o Ricardo faz da evolução negativa do ensino público aqui, discordo desta inversão entre a relação de qualidade público versus privado. Para mim, está tudo como sempre foi: o privado com melhor qualidade no ensino que o público. Sucede que o público tinha (e, porventura, ainda tem) notas mais inflaccionadas do que o privado, o que revelava uma aparente supremacia pedagógica do ensino público. Quando se instituíram os exames no 12º ano para todos, e só aí, ficou inteiramente visível o embuste ideológico que era a superioridade do ensino público – algo que, em todo o caso, já se ia percebendo. (Anteriormente no ensino público apenas os melhores e que queriam continuar para o ensino superior faziam testes para acesso à universidade, enquanto no ensino privado eram praticamente a totalidade dos alunos).
Dou também o meu exemplo. Entrei em 1991 para o ano O da Católica de Lisboa (na altura substituto do 12º ano). Vinha do Colégio de São João de Brito, que está invariavelmente nos primeiros lugares dos rankings dos exames e passa anos a fio no topo da tabela dos exames de matemática. Ora a Católica era, nessa altura, a única universidade que avaliava os candidatos apenas por exames da própria universidade a que estes se submetiam (começava a haver, pela mão de Manuela Ferreira Leite e com grande contestação – incluindo do actual pm -, as provas gerais de acesso ao ensino superior a algumas disciplinas). As médias do secundário era ignoradas. Comigo entraram alunos provenientes do privado e do público. Quando as aulas começaram e nos fomos conhecendo, notei um padrão: os alunos provenientes das escolas públicas tinham quase sempre médias de 11º ano mais elevadas do que a minha, mas tinham médias de entrada (obtidas pelos exames da Católica) mais baixas do que a minha (e, sobretudo, médias dos dois exames de matemática realizados pelos candidatos muito mais baixas do que a minha). O melhor aluno do curso de Economia do meu ano foi uma aluna e veio também da minha turma no SJB (minha amiga desde os 12 anos e até agora).
Não tenho dúvida, no entanto, de que a diferença entre público e privado era há 15 ou 20 anos bem mais reduzida do que actualmente. Os colégios privados têm agora uma panóplia de actividades para oferecer aos seus alunos que no meu tempo não tinham, uma catrefada de psicólogos para cada nível de escolaridade, e mais umas coisas além dos projectos educativos consistentes de sempre. Parece-me ainda que actualmente os privados dão uma prioridade à excelência académica que não davam nos meus tempos; do que me recordo, o SJB atribuía maior importância à formação como pessoa do que às proezas académicas, encarava-se com benevolência aqueles casos de alunos que repetidamente chumbavam de ano enquanto não se toleravam infracções disciplinares graves, a insistência no desporto (tão grande como a minha insistência em fugir ao desporto) era superior ao investimento no ensino de líguas estrangeiras e por aí adiante; hoje, está tudo diferente. O ensino público, pelo contrário, é cada vez mais um albergue espanhol ao sabor dos devaneios pedagógicos que mudam com frequência e palco de batalha entre os sindicatos de professores e os ministros da educação. As boas escolas públicas, tradicionalmente bem reputadas, pouco menos que desapareceram. Enfim, o ensino público actualmente é um forte mecanismo de imobilismo social – algo que agrada tanto à esquerda snob (que se repugna ainda mais do que a direita snob com a mobilidade social) como à esquerda estatista (perdão pela redundância), que gosta de futuros eleitores convencidos que não conseguem sobreviver sem as inevitáveis prestações sociais. Ou seja: no ensino público, objectivo cumprido.
Correcção: Não foi Manuela Ferreira Leite que introduziu a PGA, mas Couto dos Santos.