Ponto de ordem

Discordando do Ricardo, quero aqui marcar, positivamente, os 94 anos de Nelson Mandela, que quis o destino fizesse anos no mesmo dia que o meu sobrinho Alex, que faz 6. Se hoje em dia o meu sobrinho pode viver numa África do Sul que contrasta pela positiva com a maioria esmagadora dos seus vizinhos de continente, isso é um feito (quase individual) de Mandela. Ter conseguido controlar os impulsos de todos os que o rodeavam – aliados e adversários – para o conflito, ajuste de contas e violência, foi uma tarefa hercúlea. A África do Sul tem problemas; graves e que podem mesmo acabar por resultar na mesma desgraça de outros países africanos que sucumbiram à cleptocracia e ao totalitarismo. Mas isso não será nunca responsabilidade de Mandela. Ele cumpriu o seu papel, não ficou agarrado ao poder e mais não se lhe pode exigir ou cobrar.

Dar demasiado ênfase ao passado de Mandela, ainda por cima com enorme exagero, é injusto e tem o efeito contraproducente de banalizar o verdadeiro mal. Primeiro, porque de uma forma quase calvinista nega a possibilidade de redenção. Segundo, porque comparar as acções do braço armado do ANC (a maior parte das quais ainda por cima muito depois de Mandela ter sido preso) aos «grupos terroristas que aprendemos a temer neste século XXI» é tão desproporcional que relativiza atrocidades como o 11 de Setembro ou os atentados no Iraque; também corre o risco de branquear estes, na medida em que no caso do ANC é possível argumentar a existência de casus belli (excluindo os ataques com vítimas civis, a que o próprio Mandela sempre se opôs).

Uma nota final relativamente ao marxismo: Não faço ideia se Mandela era um acérrimo marxista. Admito que na década de 50 pudesse ser. Era algo corriqueiro. Mas, mais uma vez, as pessoas podem mudar. Tenho a certeza que há alguns ex-marxistas convertidos em liberais (clássicos, libertários ou outros). Noutras formas light de socialismo (em que o actual ANC se encaixa) então nem se fala. O marxismo não é um defeito de carácter; é um erro de análise, ou, quanto muito, ignorância.

11 pensamentos sobre “Ponto de ordem

  1. Miguel Noronha

    De acordo Migas, Convém não santificar o homem mas é também necessário recordar que a luta contra o aparheid propriamente dita era completamente justicada e que ele teve um papel exemplar e fundamental na transição pacifica. É pena que este processo já o tenha “apanhado” demasiado tarde na vida. O seus sucessores foram incomparavelmente piores.

  2. Começo por registar o bom senso deste post, que permite alguma discussão, ao contrário do anterior. No entanto, e considerando positivamente a figura de Mandela, até que ponto o excesso de destaque dado ao papel dele na transição não ignora um conjunto de outros aspectos, nomeadamente o fim da guerra-fria, o facto de a África do Sul ter uma população branca muito superior a qualquer outra settler colony (penso que ultrapassa mesmo em relação à Argélia, apesar deste ser um bom exemplo que negaria o que estou a dizer), etc, etc… Talvez seja fruto do facto de Mandela ser provavelmente a figura mais transversalmente unânime no espectro político (e deve ter sido isso que incomodou o seu colega de blog, e deu azo à provocação).
    Já agora, ao dizer “O marxismo não é um defeito de carácter; é um erro de análise, ou, quanto muito, ignorância.” está simplesmente a fazer exactamente a mesma coisa que os marxistas faziam ha 60 anos atrás quando todos os que não se ancorassem no materialismo dialéctico estariam a ignorar as leis históricas deste. É porventura muito mais uma opção do que um erro de análise e ignorância. E aproveito para lhe dizer que não sou marxista, por isso estou relativamente à-vontade.

  3. JPM, o marxismo tem montes de juízos “positivos” e não apenas “normativos” (de certa forma o que distingue o marxismo do resto do socialismo é exactamente a a tremenda importância que dá aos juízos “positivos”).

    Assim, se esses juízos estiverem errados, um marxista não será apenas alguém que faz determinadas opções – é alguém que subscreve juízos de facto errados; ou seja, alguém que está errado.

    (isto é um bocado off-topic, mas…)

  4. Miguel Madeira, eu sei muito menos de marxismo do que o Miguel. Mas parece-me esquisito partir do princípio que há o marxismo. O Althousser era marxista e o Plekhanov também. Mas passando para a distinção que faz entre “positivo” e “normativo”, um marxista acredita na lei da queda tendencial da taxa de lucro. Ora, até hoje ainda ninguém conseguiu provar que esta está errada ou certa (acho eu, mas posso estar a achar mal). Não sei ate que ponto a distinção entre normativo e positivo faz algum sentido. Se disser que o marxismo ao invocar leis científicas a ser descobertas se põe a jeito para que acusem os seus defensores de terem errado a análise, tudo bem. Acreditar na sobredeterminação da infra-estrutura economica também será “positivo”. Mas nunca ninguém vai provar que está errado ou certo. Ou vão provar as duas coisas.

  5. lucklucky

    Também de acordo no geral. Note-se que Mandela não tolerou a independência de uma parte da Africa do Sul.
    O que demonstra que liberdade é só até certo nível…

  6. Ser marxista nos anos 50 não era “algo corriqueiro”. Era ser antifascista e anticapitalista, nada fácil para quem tenha um vaga ideia do que isso representava e representou para muitos, em Portugal. Ok, o senhor não seria nascido nesse tempo e quem não vê não peca – é simplesmente cego.

  7. APC

    Caro António Marques Pinto, até compreendo que tenham sido tempos conturbados e difíceis, mas substituir o fascismo pelo marxismo é trocar Hitler por Stalin, não é fácil, ok, mas não está certo.

  8. «Ser marxista nos anos 50 não era “algo corriqueiro”. Era ser antifascista e anticapitalista, nada fácil para quem tenha um vaga ideia do que isso representava e representou para muitos, em Portugal. Ok, o senhor não seria nascido nesse tempo e quem não vê não peca – é simplesmente cego.»

    O significado de “corriqueiro” é comum, habitual, vulgar. Ou seja, que existiam muitos marxistas na altura, e assumidos. Além disso era o que faltava sugerir que ser antifascista e marxista eram sinónimos. A oposição à ditadura de Salazar não era coutada privada dos marxistas. (Apesar de haver muitos porque, lá está, era corriqueiro.)

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