grupos de pressão

“Um bastonário que é mais sindicalista que os sindicalistas era tudo o que os médicos não precisavam numa conjuntura social de fragilidade”, hoje, Helena Garrido no Jornal de Negócios (página 2).

Sem prejuízo da falta de ética na gestão da coisa pública que “moraliza” todos os protestos a que temos assistido, o caminho não pode ser a cedência ilegítima aos interesses dos grupos de pressão. O caminho deve antes ser a correcção dessa falta de ética, incluindo aquela que emana dos tais grupos de pressão.

No caso dos médicos, durante muitos anos – e aqui me penitencio – aceitei como bons os dados da OCDE e afins, segundo os quais existem em Portugal 3,7 médicos por cada 1.000 habitantes. Infelizmente, concluí há tempos, trata-se de uma estatística mentirosa, que parte de números facultados pela Ordem às instâncias internacionais e que, de acordo com esta excelente peça do Negócios (seria necessário ler a peça completa que saiu no papel, mas que não guardei), inclui médicos já aposentados e médicos (incluindo estrangeiros) que não exercem a profissão – só falta incluir médicos já falecidos! Tudo somado, dos mais de 40 mil médicos registados na Ordem, no SNS apenas trabalham cerca de 26 mil (dos quais, 7 mil são ainda aprendizes, ou seja, internos). E como o SNS representa o maior empregador – no privado, os três maiores grupos privados, representarão 70% da facturação e empregarão cerca de 1.000 médicos a tempo inteiro -, rapidamente, se conclui que aquele número de 3,7 médicos por cada 1.000 habitantes é um embuste promovido pelos interesses da corporação, perdão, do sindicato.

Ora, a nossa tradição corporativa reserva um lugar às corporações, sobretudo no domínio da acreditação profissional e dos códigos de conduta. Porém, aquelas não podem ser centrais de interesses, como aquelas em que lamentavelmente estão transformadas. A Ordem dos Médicos, cuja actual direcção revela uma falta de honestidade intelectual (e até científica, como se pôde ver num recente Prós-e-Contras, aquele do bacalhau à brás da Hortense…) de bradar aos céus, é um (mau) exemplo. Eu entendo que, a exemplo de todos os outros, também os médicos andem aborrecidos com os cortes salariais e com os aumentos dos impostos. E também entendo que os jovens especialistas que agora se formam, depois de 12 anos de formação altamente especializada, se sintam melindrados por lhes ser proposto um salário próximo do salário do motorista do Viegas e que lhes é proposto para as zonas periféricas do País onde, de facto, há falta de médicos. Porém, ao mesmo tempo, vejo o Bastonário muito aborrecido com a subida da quota de mercado dos genéricos (no espaço de 3 anos, passou de 16% para 24%, apesar de ainda longe dos 40% registados na Alemanha) e com os malefícios (económicos) da prescrição por DCI. E também o vejo muito enfatuado com os concursos para as horas extraordinárias dos tarefeiros onde, pelo menos, existe agora um critério objectivo (o preço, mediante o qual todos os médicos acreditados pela Ordem são livres, ou não, de concorrer) em oposição à opacidade que antes existia e através da qual, sem critério, se pagavam preços milionários.

O SNS e toda a administração pública está sob aperto orçamental. Há muita coisa que está mal por responsabilidade dos seus dirigentes e disso tenho dado conta em alguns dos meus textos mais recentes. Mas também há muita coisa que está mal, principalmente, por causa de todos os interesses corporativos que corroem a administração pública, sendo que é neste domínio que o Estado (forte) tem uma palavra decisiva a dizer. E é por isso que, mais do que nunca, é essencial que o Estado, a fim de disciplinar os abusos, dê antes, ele próprio, o exemplo.

7 pensamentos sobre “grupos de pressão

  1. Miguel Noronha

    “inclui médicos já aposentados e médicos (incluindo estrangeiros) que não exercem a profissão – só falta incluir médicos já falecidos!”
    Humm… Esta são os mesmos senhores que supostamente devem policiar a conduta dos médicos?

  2. Carlos Duarte

    Caro Ricardo Arroja,

    Concordo, em geral, com o seu post e em absoluto com a falta de qualidade dos Bastonários da OM nos últimos anos.

    No entanto, e em relação à discussão sobre existerem médicos a mais ou a menos, a principal restrição prende-se com vagas de internato e não tanto com o número de cursos. Actualmente as vagas de internatos (no ano geral e mesmo em algumas especialidades) estão saturadas pelo que criar mais cursos ou abrir mais vagas de medicina apenas pioraria a situação.

  3. Carlos Duarte

    Caro Ricardo Arroja,

    Só uma nota (e não estou a desculpabilizar a Ordem): os números que a Ordem referencia são sobre médicos existentes no País ou médicos no SNS? É que para o primeiro contam os aposentados (que podem continuar a exercer Medicina) e os estrangeiros (desde que inscritos).

  4. Mário Amorim Lopes

    A UFP, que termina este ano o seu hospital em Gaia, está ainda à espera de autorização dos burocratas, dos lobbies e dos corporativistas que lhe seja dada autorização para inaugurar a unidade de formação e poderem oferecer um curso de Medicina.

    Estes lobbies são hediondos. Juntam causas por vezes justas (algumas das queixas justificam-se) às manifestações populistas. Hoje é dia M para Paulo Macedo. Esperemos que também ele esteja ciente disso.

  5. André

    Grande mensagem. E note-se que é independente de qualquer ideologia ou filiação partidária. Independente de que lado do hemiciclo torcem, é do interesse de todos que este tipo de organizações corporativas elitistas deixem de sufocar o país com exigências de mordomias que põem em causa o bom funcionamento do nosso estado e do nosso país. Acabe-se com estrangulamento e toda a gente, da esquerda à direita, beneficia largamente.

  6. contabilista

    O grande problema não está nestes grupos de pressão … mas sim naqueles ocultos e como tal desconhecidos e assim muito mais perigosos . Como diz o povo , cão que ladra não morde …
    E não haverá outros duvidosos dados (que V. Exa. utiliza…) da OCDE e outras Instituições internacionais e nacionais , que são fornecidos
    pelos interessados , nomeadamente o Governo ?
    Será que um vosso vizinho , médico aposentado ou não , nacional ou
    estrangeiro , interno ou não , aprendiz (de feiticeiro) ou não , em caso de urgência não o ajudará ?
    Lamento tanto o doente , pobre , que em Portugal , note-se , é obrigado , por um Estado falido e sem vergonha , a tomar genéricos ,
    como também V. Exa. defender os genéricos que com fundamentos científicos e outros , não prestam . E por favor não me venha falar no Infarmed , pois desde o supracitado prós e contras , melhor confirmei a péssima opinião que dele tinha . Para que se saiba, não sou médico nem algo parecido . Pessoalmente , não tenho nada a ver com os genéricos e também porque não os utilizo . E comparar Portugal com a Alemanha é misturar alhos com bogalhos . Será que os “milionários” não pagam IRS para sustentar o vosso SNS ? E também não entendo
    a vossa defesa deste desastrado Ministro da Saúde que tão má memória deixou nas Finanças já para não falar da falência técnica do Millennium e o que a precedeu !… Há muitos mais mentirosos e muito mais perigosos .
    E será que a linguagem do “bacalhau” não será a mais adequada perante um Povo que padece de diversas iliteracias ?
    O Bastonário da Ordem dos Médicos é sindicalista ou é solidário ?
    Concluindo , será que não gosta do Bastonário ?

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