Krugman e Pinochet

Apesar do embaraço em admitir em público estar a ler o autor em causa, não consigo evitar partilhar esta passagem de um dos mais recentes livros de Paul Krugman:

“(…)But by the late 1980s it seemed that Latin America had finally learned its lesson. Few Latins admired the brutality of Augusto Pinochet; but the economic reforms he launched in Chile proved highly successful and were preserved intact when Chile finally returned to democracy in 1989
(“The return of depression economics”, Edição 2009, Paul Krugman)

Três comentários a esta citação. Primeiro, o facto de um economista de esquerda elogiar as reformas económicas de Pinochet, sem que tenha causado grande escândalo. Cada vez que o fizemos aqui neste blog caíram imediatamente acusações de fascismo. Segundo, a capacidade de Krugman em separar o regime político sangrento das reformas económicas que impulsionaram o país. Essa mesma capacidade que falta a muitos comentadores que não hesitam em citar Krugman noutras ocasiões. Em terceiro lugar, a referência importante ao facto de essas reformas terem sido continuadas em democracia. Muitas das pessoas que não hesitam em disparar o epíteto de fascista a quem elogia as reformas económicas de Pinochet defendem um sistema económico que, esse sim, nunca sobreviveu à democracia: o comunismo.

27 pensamentos sobre “Krugman e Pinochet

  1. “Muitas das pessoas que não hesitam em disparar o epíteto de fascista a quem elogia as reformas económicas de Pinochet…”, mais que isso, muitas usam esse epíteto para pessoas que simplesmente aludem a ter alguma admiração por Friedman, por supostamente Friedman ter elogiado a política de Pinochet. Quantas vezes já não vi malta a dizer que Vítor Gaspar está a aplicar a mesma política que Pinochet aplicou!

  2. Este post seria muito bonito se neste blogue não tivesse já aparecido um post a desculpar as perseguições políticas e os assassinatos ordenados por Pinochet. Ainda por cima nenhum dos insurgentes se insurgiu contra esse post. Agora, falta-vos autoridade moral para se queixarem dos que vos acusam de simpatias com o regime. Lamento.

  3. Paulo Pereira

    Krugman é um líberal , ao contrário de alguns insurgentes que promovem o anti-capitalismo.
    .
    Sem capitalismo nao é possível haver liberalismo .
    Os pobres nao são livres !

  4. Guillaume Tell

    “Krugman é um líberal , ao contrário de alguns insurgentes que promovem o anti-capitalismo.”
    Gostaria ver em quê Krugman é liberal (segundo a definição europeia, toda a gente sabe que liberal nos EUA é igual a socialista, social democrata na Europa), em quê alguns insurgentes promovem o anti-capitalismo.

    “Os pobres nao são livres !”
    Não o são porque sempre houve pobres de espiríto que os tramaram.

  5. Miguel Noronha

    “Este post seria muito bonito se neste blogue…”
    Bpa! Voltamos a ser um blogue.

  6. PiErre

    A democracia também não passa de mais uma utopia que só tem servido, desde há milénios, para enganar os cidadãos e favorecer os políticos profissionais.
    Não funciona nem sequer ao nível de uma simples assembleia de condóminos, muito menos ao de um estado!…
    Toda a gente sabe que os actos políticos são sempre ditatoriais., mas não se quer pensar nisso…

  7. António Costa Amaral (AA)

    É giro que é preciso “autoridade moral” para uma pessoa se queixar da desonestidade intelectual de terceiros.

  8. Guillaume Tell

    “Não funciona nem sequer ao nível de uma simples assembleia de condóminos, muito menos ao de um estado!…”
    Ah bom, e a Suiça? Num Estado é bem capaz de não funcionar, num país eu acho que ainda há hipotese.

  9. Jaques Towakí

    Os pobres não são livres…mas a pobreza está na mente e não no bolso. A título de exemplo dou os meus próprios avós (os 4) que viveram em tempos difíceis e dificílimos. Eram pessoas humildes à antiga. Não morreram com grandes fortunas, mas tiveram uma velhice bem melhor do que o auge das suas vidas. Os seus filhos, que nasceram nesses tempos “de fome” como nos contam já puderam ter um auge de vida inifinitamente melhor e uma velhice incomparávelmente mais cómoda. Os seus netos estão TODOS confortavelmente na classe média. Os seus bisnetos até têm coisas a mais no meu ver, mas cada um lá sabe.

    Onde quero chegar com isto? Os meus avós eram pobres de carteira mas não de espírito. De espírito já eram de classe média, o que os levou a fazer com que os seus filhos estudassem um pouco mais. Contudo, foi a minha geração a primeira a chegar ao ensino superior. Porquê? Porque já os nossos pais tinham incutido em nós o que os pais deles incutiram neles e assim sucessivamente! Esta história é tudo menos invulgar…será a história mais ou menos típica das ultimas 3 ou 4 gerações em Portugal.

    Contraste isso com aqueles que se encontram na pobreza e não encontram uma saída…esses sim são os pobres que não são livres mas a sua pobreza não se irá resolver nem com euros, nem com escudos, nem com coisa nenhuma. Só eles se podem libertar da prisão das suas mentes. E quando se decidirem estaremos cá para os receber. É de pouco a pouco…duas gerações, três gerações, quatro…o que for preciso…As correntes são pesadas e fortes mas não são inquebráveis e chave está dentro de cada um!

  10. “Bpa! Voltamos a ser um blogue.”

    “É giro que é preciso “autoridade moral” para uma pessoa se queixar da desonestidade intelectual de terceiros.”

    Podem desconversar à vontade, mas, confesso, esperava um pouco mais. Mea culpa, ninguém me manda esperar o quer que seja,

  11. A. R

    Brutalidade? Brutalidade foram as torturas de La Cabaña, os fuzilamentos simulados depois de dias e dias de interrogatórios, os fuzilamentos de seguida (“estamos fuzilando e continuaremos fuzilando”), são três gerações de cubanos na miséria absoluta, são três gerações de presos políticos em masmorras com altura do tecto de 1 palmo acima da cabeça, são rapazes fuzilados por roubar um barco, são militares sacrificados por Castro quando se desvendou o envolvimento do regime no tráfico de droga, brutalidade é um sistema de saúde racista e miserável onde nem sabão existe, é um comandante a comer à lista e as gineteras a dar o corpo para o turismo de sexo em que se tornou cuba, brutalidade são as dezenas de milhares de mortos da guerrilha da FARC (crianças soldado, populações envenenadas, tráfico de droga, etc). Brutalidade foi Izmail Gusman e a sua guerrilha, brutalidade é a de Evo Morales, brutalidade é a chacina dos protegidos de Lugo, brutalidade foi a morte de Elena Moyano, brutalidade são os 200 000 mortos pela criminalidade em Venezuela, ..

  12. 1- Não deixa de ser engraçado que sinta a necessidade de se penitenciar por ler livros proscritos. Não vá alguém censurá-lo por falta de pureza. Quantas semelhanças com as sessões de auto-crítica de tempos idos.
    2- Deixe ver se percebi, o Krugman diz que a economia chilena cresceu (não me parece que alguem alguma vez o tenha posto em causa), daí segue que toda a gente de esquerda por “coerência” tem de dizer amén ao que disse o Krugman?
    3- Eu acho que se pode perfeitamente gostar das reformas económicas sem gostar do regime (e não estou a ser irónico). Já me parece mais difícil falar das reformas económicas do regime sem ter em conta as condições em que estas foram implementadas. Depois de eliminar politicamente (homícidio, prisão ou exílio) a parte da população que se lhes podia opor, era relativamente fácil aplicar estas medidas. Não percebo se, na verdade, o que acha é que os sucessos económicos justificam este conjunto de políticas. De qualquer das formas, a possibilidade de as obter foi feita a partir de muito sangue. Já não sou capaz de dar o mesmo benefício da dúvida ao seu companheiro de blog que simplesmente legitimou a posteriori todo um conceito de terror preventivo fundado em lucubrações imaginadas ou possíveis da realidade política chilena em 1973 (https://oinsurgente.org/2012/06/04/chove-em-santiago-e-em-atenas-2/).
    4- Só uma última achega em relação a esta discussão. Dizer que as reformas económicas prosseguiram em democracia assim simplesmente ignora dois aspectos. O primeiro, tem a ver com um factor cumulativo. Ou seja, os efeitos da ditadura ao nível da participação política fizeram-se sentir durante muito tempo. O segundo, tem a ver com as características da transição da ditadura no ínicio da década de 90. Se para vocês a Venezuela é uma qualquer forma de totalitarismo, o que dizer do Chile pelo menos até 2005? Certamente não era uma democracia saudável (ver sistema eleitoral binominal, composição e poderes do Conselho de Segurança Nacional ou condições de imunidade apenas).

  13. José Carlos

    Então e porque não eliminar os tais 50 ou 100 mil funcionários públicos e resolver o problema da massa salarial pública de uma vez por todas? ( convem não escolher só tarefeiros, se é que ainda existe a categoria profissional)
    Fico sempre fascinado quando me dizem que prezam a democracia e a liberdade, mas gostam é dos efeitos dos “ismos”, como se fossem indissociáveis.

  14. Carlos Guimarães Pinto

    “1- Não deixa de ser engraçado que sinta a necessidade de se penitenciar por ler livros proscritos”

    Pensei que fosse óbvio que aquela primeira frase era uma piada.

  15. Pelos vistos a “opinião divergente” em “Pinochet, uma opinião divergente” é “divergente”… (por alguma razão o post deve ter esse título)

  16. Carlos Guimarães Pinto

    Miguel Madeira, pois, vale a pena ler os comentários e respostas no blog a esse post, para ver que de “divergente” tem muito pouco. Mas, admito, o discurso básico é, digamos, mais fácil e conveniente.

  17. António Costa Amaral (AA)

    Transcrição de uma resposta minha no Facebook ao LA-C:

    « Meu caro, numa análise “dos males o menor”, o resultado é sempre um mal. Pode-se objectar contra a análise, ou contra o resultado do raciocínio. Agora descontextualizar e sair-se com essa do “legitimar ditaduras” e ainda por cima numa onda de “pensam todos da mesma forma” é falta de sofisticação e falta de honestidade intelectual – que não aceitarias seguramente nos trabalhos que coordenas, nem se observa nos textos que produzes para uso público. Sei que o FB não é platarforma [sic] para grandes pensamentos, mas não é justificação para tudo. »

  18. António Costa Amaral (AA)

    Considerar que o resultado no Chile podia ter sido “pior” — tal como considerar que Portugal estaria pior se o PREC sucedesse — são análises que (valendo o que valem) são perfeitamente legítimas, e nada legitimam as iliberalidades que sucederam, como princípio ou como modo de acção. Dito de outra forma, sim um bom comunista é um comunista morto, mas isso não quer dizer que eu — e, não falando eu pelos meus camaradas, julgo que o sentimento é partilhado — advogue que o Estado assassine pessoas.

  19. neotonto

    Vamor ver , Guillaume Tell , caral*** Global:

    Que se Krugman dize, que se a democracia liberal pensa , que sim a Suiça faz…
    Ja é tempo de menos tematica estrangeirada e menos nomes estrangeiros e até armados de um nick local tipo assim como “Viriato” (e nao esse Guillaume Tell que quer enganar papalvos) començamos a debater porque as melhores armas lusitanas deijaram alguma vez de florescer há tempo (os tomates).
    A bom seguro a miscigenia da era global deixou de produzir bons tomates para importar marroquinos e subsaharianos de bom ver mais de sabor escaso ou nulo.

  20. neotonto

    Krugman economista americano?

    .

    Vamos ver senhores, aprendam de quem sabe e que dize e demostra que assim é.
    Krugman é em primeiro lugar judeu, em segundo nivel amaricano e só em ultimo lugar economista global.
    Paresceria que nao tem valor nem faz sentido esses calificativos mais tem e faze todo, todinho o sentido.
    Copyright para o seu autor. Um tal professor Arroja…

  21. Miguel Noronha

    “Pelos vistos a “opinião divergente” em “Pinochet, uma opinião divergente” é “divergente”
    Divergente relativamente a outro post. E interessa saber em que pontos.

  22. sousa

    diferenças entre pinochet e castro:
    1. pinochet foi ditador uma dúzia de anos ; castro mais de 50 anos
    2. pinochet matou entre 3 mil a 5 mil opositores ( mais de metade deste nº durante o golpe de estado ); castro matou mais de 40 mil opositores
    3. pinochet permitiu a transição democratica e deixou um país economicamente e socialmente viável; castro nunca abandonou o poder e transformou cuba numa prisão miserável
    4. o chile é pouco atraente para férias; já cuba é o paraiso na terra para milhares de portugueses ( já dizia Saramago) que adoram gastar em mojitos numa tarde o que um cubano ganha em 3 meses…viva o socialismo.
    Conclusão: a atração por regimes execráveis como o cubano é o calcanhar de aquiles da esquerdalhada portuguesa que anda sempre aos gritinhos por direitos e liberdade com as bandeiras do che nas manifs….

  23. lucklucky

    “Bem vindo ao estalinismo!”

    Um escravo que se defende do esclavagismo comunista ?. Um comunista é totalitário por definição quer obrigar os outros a seguirem a sua cartilha em tudo. Por isso é que os Comunistas se acabam a matar uns aos outros tal como os Islâmicos.

    Se os Comunistas quisessem fazer um Comuna onde só lá está quem está de acordo com as regras que quiserem então eu não teria problemas nenhuns com Comunistas. Queria dizer que respeitavam a liberdade dos outros e eu respeito a deles.
    Mas os Comunistas querem o Estado Totalitário. O povo deve ser escravo do Estado. E matam sempre que não está de acordo.

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