Há destruição que é mesmo só destruição

A propósito da mania que agora corre generalizada em certos meios de afirmar que, em resultado das políticas fiscais do actual governo (que não diferem tanto quanto deviam e quanto era necessário das do anterior), se está a assistir a uma reestruturação do tecido empresarial que é muito benéfica para o país, há que levar as mãos à cabeça e depois explicar uns factos elementares sobre coisas bonitas como a destruição criativa. Há uma semana ou duas li num jornal económico um artigo de opinião afirmando, nesta linha, que no sector da restauração se estava a assistir a uma limpeza, visto que os restaurantes que fechavam devido ao aumento da taxa de IVA para a restauração eram restaurantes condenados a não sobreviver.

Ora bem, pegando neste exemplo dos restaurantes (que facilmente se alarga a todas as empresas) há que explicar que um restaurante se avalia como merecedor de persistir ou de encerrar se consegue ou não prestar um serviço aos seus clientes que estes considerem valer o preço que pagam pelo serviço e se consegue ou não ser mais agressivo do que a sua concorrência na captação e serviço aos seus clientes. Que um restaurante feche porque abriu na porta ao lado outro com decoração bem mais agradável, serviço bem mais simpático e comida mais apetitosa e tudo pelo mesmo preço ou ainda mais barato é um caso de restaurante que fechou por deixar de ter espaço no mercado onde actua e é bom que feche para libertar recursos para actividades com maior capacidade de criar riqueza; que um restaurante feche porque passe de moda ir jantar fora e os consumidores de determinado restaurante prefiram juntar os amigos em jantares na própria casa é outro. Que um restaurante feche porque a taxa de desemprego, também graças à política fiscal seguida, está a 15% (e os desempregados provavelmente almoçam e jantam fora menos vezes), porque o estado obrigou a um aumento dos preços líquidos dos bens vendidos pelo restaurante que nada têm a ver com a estrutura de custos do restaurante ou com as suas margens comerciais, porque o estado na última década se tem apropriado com voracidade crescente de recursos das empresas e famílias que não lhes permitem ter a estrutura de despesas que teriam se o estado não se apropriasse de uma quantidade imoral e injusta (como é a actual) dos seus recursos isso, lamenta-se, mas nada tem a ver com uma destruição shumpeteriana dos mercados. Que um restaurante ou qualquer outra empresa não sobreviva porque os consumidores assim o decidem ou porque os seus concorrentes são melhores é uma limpeza proveitosa do tecido empresarial. Que um restaurante ou qualquer outra empresa não sobreviva ao estado ou à bancarrota nacional inteiramente criada pelo estado, isso pode ser muita coisa mas não é nada que se relacione com higiene ou com algum tipo de criação.

E nem refiro o que me passa pela cabeça quando é insinuado ou mesmo explicitamente declarado que a política fiscal actual tem o benefício de ensinar os agentes económicos a preferirem poupança ao consumo. É que ser bem educada e dizer apenas que quem sabe qual o destino que deve ter o meu dinheiro sou eu e só eu ou que um estado falido não deve dar lições a ninguém ou que a melhor lição é o exemplo, todas estas respostas ficam aquém do merecido por quem profere tais disparates.

5 pensamentos sobre “Há destruição que é mesmo só destruição

  1. Ricardo C.

    Se alguns desses “opinion makers” fossem obrigados a ser Trabalhadores Independentes ou pequenos empresários durante 2 aninhos certamente não diriam baboseiras como esta. Aliás, pensando bem não serão propriamante baboseiras, mas sim a transmissão acéfala e obediente de um ideal darwinista exacerbado que, pelo inverso, fará tanto sentido como a filosofia Juche de Kim il Sung.

    No caso dos restaurantes, já se esqueceram todos que devido a implementação de regras inúteis concebidas nos anos 50 ou 60 pela multinacional do ramo alimentar Pillsbury para os voos espaciais da NASA, foram levados à falência centenas de restaurantes e foram forçados a investimentos colossais os que sobreviveram – investimentos esses que têm que ser absorvidos ao longo de (pelo menos) 4 anos de actividade. Se a meio do jogo impõem mais exigências – como o aumento do IVA – não é possível aguentar.

    E esperem até entrar em vigor a parte do código contributivo que irá tributar em sede de segurança social as sociedades unipessoais pelos “lucros”… um caso único no mundo liberal e capitalista (ou lá que sistema é este em que vivemos) que encerrará, em definitivo, a actividade a dezenas de milhar de pequenos empresários, entre os quais um enorme número deles ligados ao ramo da restauração.

    Isto corresponde a uma brutal dose de desconhecimento (ou irresponsabilidade) de quem decide ou a uma “vendetta” organisada para servir as grandes empresas. Cada um de nós que faça o seu julgamento.

  2. Euro2cent

    > se consegue ou não ser mais agressivo

    Esta de agressivo=bom é uma daquelas tretas importadas dos anglo-saxónicos que me dá vontade de desatar à chapada. Fico agressivo.

  3. Pingback: “Pérolas” « marketrendnews

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