A origem da dívida pública

Avelino de Jesus no Jornal de Negócios
Entre 1995 e 2000, Portugal manteve uma dívida pública, em percentagem do PIB, substancialmente inferior à média da Europa. O grande salto para o endividamento faz-se no período 2000 a 2008, antes da crise internacional. Em 1995, só 4 países tinham dívidas mais baixas do que o nosso país. Em 2000, Portugal tinha das dívidas mais baixas; só 3 países (Irlanda, Reino Unido e Finlândia) tinham valores inferiores. Em 2008, só 3 países (Grécia, Itália e Bélgica) tinham valores superiores. Nenhum país conheceu neste período maior acréscimo do peso da dívida. Neste período, metade dos países conheceram decréscimos. Tivemos um acréscimo de 42,1% contra uma média de apenas 0,5% em média na Europa. Já no período pós-crise, embora Portugal esteja entre os países que mais viu crescer a dívida, a diferença é menos marcante; tivemos um acréscimo de 50,6% contra uma média de 39% e 3 países (Irlanda, Espanha e Reino Unido) conheceram um crescimento maior.

A narrativa que atribui à crise o insuportável endividamento publico português não é apenas uma atrevida e errónea interpretação do passado. Ela serve o desígnio de alimentar a insistência nos mesmos erros de política económica que nos trouxeram à desgraçada situação de falência: sempre mais dívida, agora trasvestida de euro-obrigações, obrigações de projecto, acréscimo de créditos e de massa monetária do BCE e o mais que por aí circula loucamente. Justifica-se, assim, duplamente a sua refutação.

21 pensamentos sobre “A origem da dívida pública

  1. migspalexpl

    referência para os dados?

    o google está cada vez melhor e se escrevo “dívida pública” aparece-me um gráfico com a evolução da dividia publica portuguesa. ( http://www.google.pt/publicdata/explore?ds=ds22a34krhq5p_&met_y=gd_pc_gdp&idim=country:pt&dl=pt-PT&hl=pt-PT&q=divida+publica )

    (antes da crise)

    1995 -> 60% do PIB
    2000 -> 50,4%
    2003 -> 59.2%
    2005 -> 67,7%
    2007 -> 68 %

    (depois da crise)

    2008 -> 71.5%
    2009 -> 83.1%
    2010 -> 93.3%
    2011 ->107.8%

    Facto: entre 95 e 2007 a nossa dívida pública cresceu 8% do PIB (com uma descida pelo meio). Entre 2007 e 2011 ela cresceu 40% do PIB.

  2. Miguel Noronha

    Fantástico. É assim que você cálcula diferênciais de percentagens?
    Entre 2000 e 2007 a dívida pública (em % do PIB) cresceu 35%. Entre 2008 e 2011 cresceu 51%.
    Se acha que o primeiro valor se deve à crise financeira então o primeiro deve-se a quê?

    Verifique melhor o que o Avelino de Jesus escreveu e depois olhe para os seus números. Diga-me onde é que eles são contraditórios.

    Vou colocar um gráfico com a evolução da dívida pública para que não restem dúvidas.

  3. migspalexpl

    pa a questão é que agora, depois da crise, a nossa dívida tem estado a crescer duma maneira descontrolada, mais de 10% do PIB por ano, desde 2008.

    de 2000 a 2008, em 8 anos ela cresceu 21% do PIB, uma média de 21/8 = 2.625% do PIB por ano. Existe uma grande diferença.

    E a verdade é que valores de divida publica entre 60% e 70% do PIB não são relativamente muito elevados, e houve certamente uma percepção durante esses anos (decada de 2000) que seriam valores controláveis. (eg. em 5 anos, de 95 a 2000, a dívida pública desceu 10% do PIB).

  4. Miguel Noronha

    “de 2000 a 2008, em 8 anos ela cresceu 21% do PIB, uma média de 21/8 = 2.625% do PIB por ano. Existe uma grande diferença”
    A “grande diferença” é não há grande justificação para o aumento da dívida (cujo peso no PIB aumento mais de 40%). Se agora por razões exógenas até existe alguma justificação para tal no primeiro periodo isto significa que os governantes gastaram sem se preocupar com o futuro. Seria substâncialment diferente se em vez do 71.5% tivessemos chegado a 2008 com a nível de dívida de 2000.

    Quando os anteriores governantes procuram justificar o mau estado em deixaram as contas públicas com a crise financeira estão a mentir descaradamente.

  5. migspalexpl

    Mas porque é que uma dívida de 70% não é aceitável, e uma de 50% já é? E de 60% é aceitável?

    Se o problema é dívida pública, então a Alemanha deve ter mantido uma dívida pública bem baixa, não?

    ( http://www.google.pt/publicdata/explore?ds=ds22a34krhq5p_&met_y=gd_pc_gdp&idim=country:pt&dl=pt-PT&hl=pt-PT&q=divida+publica#!ctype=l&strail=false&bcs=d&nselm=h&met_y=gd_pc_gdp&scale_y=lin&ind_y=false&rdim=country_group&idim=country:pt:de&ifdim=country_group&hl=pt_PT&dl=pt_PT&ind=false )

    Comparando Alemanha com Portugal, vemos que tinham a mesma dívida pública em 2005 (67%), em 2007 Portugal 68% Alemanha 65%. Então?

  6. VM

    “O grande salto para o endividamento faz-se no período 2000 a 2008, antes da crise internacional”
    Eu que sou um completo ignorante em termos económicos consigo ler a porcaria de um gráfico. Como é que se explica que uma pessoa com formação em economia (penso eu) nao consiga ?
    O maior crescimento, efectivamente, verifica-se no período pós-crise: 2009, 2010 (e em 2011 a tendência continua, com a dívida em 108% do PIB a que corresponde a uma variação de 15%!!!)
    – Claro que a culpa toda é do Sócrates. A crise internacional não existe. Tudo imaginação.
    ANO – VAR % PIB – %PIB
    2000 -2.18 % 48.50%
    2001 5.61 % 51.20%
    2002 5.17 % 53.80%
    2003 3.78 % 55.90%
    2004 3.17 % 57.60%
    2005 8.86 % 62.80%
    2006 1.85 % 63.90%
    2007 6.81 % 68.30%
    2008 4.86 % 71.60%
    2009 15.96 % 83.00%
    2010 11.94 % 93.30%

    49.60%
    50.40%

    Mas o problema propriamente dito não é este, é quanto se paga, em juros, por esta dívida.

  7. Miguel Noronha

    “Mas porque é que uma dívida de 70% não é aceitável, e uma de 50% já é? E de 60% é aceitável?”
    No estudo que Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart fizeram sobre as crises econónicas e a dívida pública detectaram que a partir dos 70%-80% a dívida pública por si só começa a por em causa o crescimento económico.

    Mas falando em termos genéricos, a dívida pública representa encargos que a geração actual está a “chutar” para o futuro. Em que é que nós andamos a gastar o dinheiro que justifique apresentarmos a conta aos nossos filhos e netos?

    O problema maior é que durante o mesmo periodo a Alemanha tem crescimento económico e nós estagnamos. Por outro lado, o saldo primário do estado (a despesas menos as receitas sem juros) é recorrentemente negativo. Existe uma coisa bastante importante chamada sustentabilidade da dívida pública. E nós falhamos no teste em grande.

  8. Miguel Noronha

    “O maior crescimento, efectivamente, verifica-se no período pós-crise: 2009, 2010 (e em 2011 a tendência continua, com a dívida em 108% do PIB a que corresponde a uma variação de 15%!!!)”
    Esta dúvida já se encontra respondida. Verifique os comentários anteriores.

    “Mas o problema propriamente dito não é este, é quanto se paga, em juros, por esta dívida”
    Eu que percebo algumas coisita de economia e finanças sei que a taxa de juro exigida não é independete do risco de default que é positivamente correlacionado com o endividamente e capacidade de pagamento.

  9. migspalexpl

    pa mais ou menos, se a nossa dívida pública for detida por nacionais, no fundo é dinheiro que devemos a nós mesmos, e que vai ser paga aos nossos filhos e netos, pelos nossos filhos e netos. mas não faço ideia da percentagem de dívida que está detida por internacionais.

    e olhando para o caso da espanha? antes da crise, dívida pública bastante baixa e saldo do estado positivo durante, mais de 20 anos consecutivos? passaria no teste da sustentabilidade da divida publica, nao?

  10. lucklucky

    “Entre 1995 e 2000, Portugal manteve uma dívida pública, em percentagem do PIB, substancialmente inferior à média da Europa.”

    Só possível com aumentos de impostos.

    “Claro que a culpa toda é do Sócrates. A crise internacional não existe.”

    Deve estar a gozar, Sócrates e todos os outros que como ele apostam em aumentar o Estado são a “Crise Internacional”.

    “Mas o problema propriamente dito não é este, é quanto se paga, em juros, por esta dívida.”

    Quanto mais dívida mais paga, tudo o resto igual, não é? os juros que pagamos ano são cerca de 800 euros por português. Incluí crianças e velhos. Se considerarmos só os que trabalham fazendo as contas a 50% que trabalham dá obviamente 1600 euros /ano por quem trabalha, É o que dá o Socialismo. Seja Socialismo da Esquerda ou da Direita.

  11. Miguel Noronha

    “se a nossa dívida pública for detida por nacionais, no fundo é dinheiro que devemos a nós mesmos, e que vai ser paga aos nossos filhos e netos, pelos nossos filhos e netos. mas não faço ideia da percentagem de dívida que está detida por internacionais”
    Dado o que se conhece acerca do endividamento externo a situação não é famosa. Mas o que diz supõe que a economia privada gera fundos permanentemente para acomodar os défices orçamentais. Ora com o crescente aumento do peso do estado na economia, as miseráveis taxas de crescimento e poupança e balnaças de capital negativas não estou a ver que pudessemos fazer isso.

    “e olhando para o caso da espanha? antes da crise, dívida pública bastante baixa e saldo do estado positivo durante, mais de 20 anos consecutivos? passaria no teste da sustentabilidade da divida publica, nao?”
    O problema da Espanha não foram propriamente as contas públicas mas o endividamente dos bancos. Em particular das “cajas de ahorros”. O problema tal como na Irlanda é que o governo assumiu a dívida destas. Quando saiu do governo Aznar deixou as contas públicas em óptimo estado. Tinham inclusivamente superavits orçamentais. Mesmo com o dano que lhe causou Zapatero tinha partido de um nível bem mais baixo que nós.

  12. lucklucky

    “e olhando para o caso da espanha? antes da crise, dívida pública bastante baixa e saldo do estado positivo durante, mais de 20 anos consecutivos? passaria no teste da sustentabilidade da divida publica, nao?”

    Está a esquecer-se das receitas da bolha imobiliária devido aos desejos dos Governos terem crescimento a qualquer custos para verem as receitas de impostos aumentarem, aliados aos bancos que querem sempre mais negócios. Sem bolha imobiliária o Governo Espanhol teria superavites? Não porque a bolha imobiliária já foi o primeiro estímulo com os Bancos Centrais a colocarem os juros a 1-2%.
    A que se juntam os problemas regionais escondidos como as Cajas. O Bankia que teve de ser ajudado pelo Governo não é mais do que várias Cajas – sendo a Caja do Governo da região de Madrid a maior- que se juntaram pois estavam com problemas. Não resolveu. http://en.wikipedia.org/wiki/Bankia

  13. ricardo saramago

    Alguém reparou que as mudanças de regime político se deram sempre em fases de contracção do peso da dívida pública?

  14. Economista

    Entre 2000 e 2008 . duas(2) para o PS , uma(1) para o PSD !!!
    Faz recordar Brito Camacho : a M…. é a mesma , as moscas é que mudam …

  15. Bom, até 2001 a dívida pública portuguesa (em relação ao PIB) era muito mais baixa do que a média europeia. Mais baixa, por exemplo do que a sueca, alemã, espanhola, grega, francesa, etc.(ver http://www.google.pt/publicdata/explore?ds=ds22a34krhq5p_&met_y=gd_pc_gdp&idim=country:pt&dl=pt-PT&hl=pt-PT&q=divida+publica#!ctype=l&strail=false&bcs=d&nselm=h&met_y=gd_pc_gdp&scale_y=lin&ind_y=false&rdim=country_group&idim=country:pt:de:es:el:se:fr:nl&ifdim=country_group&hl=pt_PT&dl=pt_PT&ind=false)

    Arrancou numa subida imparável a partir de 2001, curiosamente coincidindo com o arranque do Euro. Aliás, Prof. Ferreira do Amaral previu isso num livro que escreveu na altura (http://www.wook.pt/ficha/contra-o-centralismo-europeu/a/id/106381).

    Isto de mandar as culpas para o Sócrates, esquecendo que de 20’01 para cá embora o governo do Sócrates tenha sido o mais duradouro, houve também governos do Durão Barroso e do Santana, é muito desonesto.

    Aliás, desde 2001 a dívida (em relação ao PIB) só desceu em 2007 quando o Sócrates era governante.

    Sócrates foi um mau governante e fez uma data de disparates, o Tratado de Lisboa, o Espanha, Espanha, Espanha, etc. De nenhum forma necessita que lhe atribuam culpas que não tem!

    A dívida disparou como o Prof. Ferreira do Amaral previa devido à adesão ao Euro, nada mais.

  16. Miguel Noronha

    ” dívida disparou como o Prof. Ferreira do Amaral previa devido à adesão ao Euro, nada mais”
    Exacto. Foi o euro que obrigou o governo a endividar-se. Devem ter sido os tipos do BCE que nos apontaram uma pistola à cabeça.

  17. Pingback: Em pouca palavras « O Insurgente

  18. Ze Povinho

    Este exercicio e uma falacia. O Jornal de negocios ate devia de ter vergonha na cara. A divida e cumulativa. Exemplo:

    Ano 1: 10%
    Ano 2: 40%
    Ano 3: 70%
    Ano 4: 100%

    Ns quatro anos houve exactamente um aumento de 30% do PIB. No primeiro ano houve uma progressao de 300% em relacao ao ano anterior, no segundo 75% e no terceiro 43%. E isto quer dizer o que? Nada… nao se pode concluir nada daqui. E logico que qualquer aumento tem menor impacto quanto maior for a divida, mesmo que o endividamento fosse superior.

  19. roger

    Sócrates: sem “colossais” aumentos de impostos deminuiu em 3 anos (2005 a 2007) o defice de 6,8 para 2,8. Em 2008 a divida estava mais ou menos controlada. Que se passou a seguir? crise nternacional? não senhor… foi o maluco do Sócrates, deu-lhe na telha o ,que é que se há-de fazer? Façam um esforço para sair do estágio de “cerebros de ervilhas”!

  20. miguel

    Roger, em época de crise internacional [hiper tardiamente reconhecida pelo Engenhoso], o Engenhoso apostou em obras públicas. Foi uma boa aposta, como se vê. Aliás, as ppp’s dele ainda as vamos pagar por muitos anos.

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