is paper dead?

“(…) O Expresso sabe, igualmente, que a publicação insistente de determinados assuntos – do crime e do sexo às baixezas da vida política e económica – poderia aumentar a venda de exemplares, mas recusa-se a alimentar qualquer tipo de sensacionalismo que ponha em perigo o jornalismo de qualidade que sempre pretendeu fazer (…) Se e quando, um dia, se tornar impossível manter essa coerência, o Expresso acabará, porque – como sempre afirmou o seu fundador – prefere, nessas circunstâncias, morrer de pé”, no Estatuto editorial do Expresso (página 38).

É mais do que sabido que, um pouco por todo o mundo, o universo da comunicação social, em particular a imprensa escrita, atravessa uma grave crise económica e financeira. Em Portugal, os dados oficiais da APCT indicam que o Correio da Manhã – aquele que, curiosamente, é o mais representativo da incoerência editorial que o Expresso para si não pretende – é o único título cujas vendas impressionam (116 mil vendas em banca por dia), exibindo uma quota de mercado de 52%. Já o Público, na minha opinião o diário generalista de melhor qualidade, tem uma quota de mercado que não chega a 10% (21 mil vendas em banca por dia).

A publicação do Estatuto editorial do Expresso, ac0mpanhado (na secção de Economia) do R&C da Impresa Publishing, é um sinal dos tempos e todos os players do sector o sentem – uns de forma mais desabrida (em certo sentido, admirável), outros fazendo de conta. Eu não sei se o papel está morto. Há quem diga que sim; eu quero acreditar que não, porque uma imprensa forte é condição essencial à existência de uma sociedade civil mais forte ainda. É através da imprensa, nomeadamente daquela que é escrita, menos efémera, que se exerce parte importante do escrutínio à vida pública de um país. E sem escrutínio…

Mas regressando ao “business plan” do papel, a pequena notícia está cada vez mais ultrapassada e também sinto que as pessoas estão cansadas de tudólogos. Por isso, continuo a acreditar no modelo alternativo, suportado num misto de grandes artigos de alcance estratégico e de muita opinião especializada, tipo International Herald Tribune, que desde há uns anos tenho vindo a defender e que, eventualmente, poderia funcionar economicamente numa lógica de nicho. É certo que, recentemente, alguns dos principais títulos têm avançado naquele sentido, lançando novos formatos (e.g., o Primeira Linha do Negócios) e novos cronistas (e.g., muitos bloggers tornados colunistas), mas de um modo geral os jornais continuam muito grossos, nomeadamente na quantidade de papel e suplementos que quase ninguém lê e que vão directos para o lixo. Não sei, talvez o papel esteja mesmo condenado…enfim, seguirei tentando, enquanto colaborador de duas publicações e ávido leitor de toda a imprensa escrita, contribuir para que assim não seja.

8 pensamentos sobre “is paper dead?

  1. lucklucky

    “diário generalista de melhor qualidade”

    Inacreditável. Um jornal de esquerdistas dhimmis é um jornal de qualidade?

  2. Ricardo Arroja

    Lucky e Alexandre Gonçalves,

    É isso – sou um perigoso socialista. Um esquerdista dhimmis!!!

  3. josé manuel moreira

    Talvez o Ricardo tivesse querido dizer o jornal de melhor qualidade literária
    e por isso com mais aspirantes a mini saramagos, jmm

  4. João Neto

    Ricardo: penso que os jornais de “grandes artigos de alcance estratégico e de muita opinião especializada” serão serão sempre um nicho. Em PT nem sequer temos nenhum (podemos ter outras coisas, mas não um jornal).

    Para mim – felizmente existem outros gostos, viva o pluralismo – deveriam servir para dar notícias (verdadeiras, não enviezadas, etc) e cada um encarregar-se-ía de formar as suas opiniões.

    Fico contente por jornais como o Expresso e o Público venderem cada vez menos e espero que fechem rapidamente “a loja”. Também não gosto do CM, mas antevejo um encerramento mais distante no tempo, infelizmente.

  5. ruicarmo

    Ricardo,
    só uma nota: os suplementos de jornais e revistas poderão ou não ser lidos mas constituirão uma fonte de receitas que nenhuma empresa queira ou possa descartar.

  6. Pingback: A morte indigna do Expresso « O Insurgente

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