A irrelevância de chegar ao topo da torre de “Pisa”

Na passada terça-feira defendi que a obsessão pelas notas e pelo ingresso num qualquer curso do ensino superior apenas beneficia os melhores alunos. No dia seguinte, o Daniel Oliveira, no seu blog do Expresso, escreveu – surpreende-me dizê-lo – o que penso ser excelente complemento ao meu post (destaque do autor):

A nossa escola promove duas coisas: a completa ausência de sentido crítico e a capacidade de memorização. Não desprezo a segunda, muitíssimo longe disso. Mas, se não me levarem a mal, não chega.

Vão lá ler na íntegra o post do Daniel Oliveira e depois continuamos aqui abaixo!

Para mim, o único erro do Daniel Oliveira foi a seguinte argumentação (mais uma vez, destaques são do autor):

Lamentavelmente, como poderemos ver comparando o nosso sistema educativo com os melhores da Europa – o finlandês, por exemplo, que tem os melhores resultados no mundo apenas tem, que eu saiba, um exame no fim do ensino secundário -, este sistema não prepara profissionais competentes, pessoas interessadas e cidadãos conscientes. Este sistema burocrático, pensado por burocratas, apenas forma excelentes burocratas.

Tal como o Daniel Oliveira, eu também não conhecia o sistema de avaliação da Finlândia, apesar de estar ciente do enorme interesse do ex-primeiro ministro José Sócrates pelo sistema de ensino daquele país. Sendo assim, consultei o Wikipedia (pode não ser a fonte mais exacta, mas é – ao contrário de outras – bastante acessível). Vamos então ver que informação relevante dali podemos retirar (meus destaques, links do Wikipedia):

Schools up to university level are almost exclusively funded and administered by municipalities of Finland (local government).

Teachers, who are fully unionized, follow state curriculum guidelines but are accorded a great deal of autonomy as to methods of instruction and are even allowed to choose their own textbooks.

During the first years of comprehensive school, grading may be limited to verbal assessments rather than formal grades. The start of numerical grading is decided locally. Most commonly, pupils are issued a report card twice a year: at the ends of the autumn and spring terms. There are no high-stakes tests.

Grades are given on scale from 4 to 10. (…) If a comprehensive school pupil receives the grade 4 in one subject at the end of the spring term, they must show by a separate examination at the end of summer term that they have improved in the subject. If the pupil receives multiple failing grades, they may have to retake the year, though it is considered far preferable to provide a struggling student with extra help and tutoring. In the rare cases where a student is retained, the decision is made by the teachers and the headmaster after interviewing the pupil and the parents.

Upper secondary education begins at 16 or 17 and lasts three to four years (…). Finnish upper secondary students may choose whether to undergo occupational training to develop vocational competence and/or to prepare them for a polytechnic institute or to enter an academic upper school focusing on preparation for university studies and post-graduate professional degrees in fields such as law, medicine, science, education, and the humanities. Admissions to academic upper schools are based on GPA, and in some cases academic tests and interviews.

Upon graduation, vocational school graduates receive a vocational school certificate. Academic upper secondary school graduates receive both secondary school certification and undergo a nationally graded matriculation examination. This was originally the entrance examination to the University of Helsinki, and its high prestige survives to this day.

In mathematics, the advanced level is in practice a pre-requisite for the more competitive university science programs, such as those of the universities of technology, other university mathematical science programs, and medicine.

Admissions [to universities and polytechnics] are based on gymnasium final GPA, the national matriculation examination and entrance examinations. The selection process is fully transparent, merit-based and objective; there are no application essays, no human factor in selection, no underrepresented minority support, and no weight on extracurricular activities. Moreover, the entrance examinations are rarely long lists of multiple-answer questions, but smaller amount of longer and more complicated questions that are supposed to test more than memorization and quick mechanical problem solving.

Então o que Daniel Oliveira pensava ser apenas “um exame no fim do ensino secundário” afinal começa com um exame de admissão às citadas “academic upper schools”, 3 a 4 anos de estudo específico para ingresso na universidade ou politécnico, finalizando em exame nacional e outros exames específicos? É o que dá escrever sem conhecimento de facto…

Mas então que dizer da afirmação do Daniel Oliveira que o sistema educativo finlandês “tem os melhores resultados no mundo”? O Daniel Oliveira não apresenta fontes mas suponho que se estava a referir ao Education Index da ONU e/ou ao PISA (Programme for International Student Assessment) da OCDE, rankings em que a Finlândia, correspondentemente lidera e está colocada no top 5.

Ora, o Education Index é calculado em dois terços pelo nível de literacia adulta e em um terço pela combinação das taxas de ingresso dos alunos nos diversos graus de ensino. Portanto, é natural que o ranking seja liderado por sociedades industrializadas e/ou países que descuram os custos de oportunidade dos gastos em educação. Quanto ao PISA, trata-se de um teste de literacia, matemática e ciências, realizado a uma grande amostra de estudantes de 15 anos de idade (em 2009 foram 470.000). Estranho que Daniel Oliveira classifique Nuno Crato como “ministro contabilista” mas, depois, use como contra-argumento dados obtidos através de avaliação equivalente à que o ministro da Educação deseja implementar. Enfim!

Mas, retomando o texto do Daniel Oliveira acima citado, gostaria de focar estes últimos parágrafos na seguinte afirmação (meu destaque): “este sistema não prepara profissionais competentes.

Tendo em conta a admiração do Daniel Oliveira pelo sistema finlandês, que dizer então da taxa de desemprego jovem daquele país entre 2002 e 2009 (19,5% vs 21,6%) relativamente à portuguesa (11,6% vs 20%)? E comparando a evolução do PIB per capita da Alemanha, Bélgica, Estados Unidos, Finlândia e Portugal verifica-se alguma vantagem competitiva do sistema educativo finlandês? Aparentemente, NENHUMA.

Pessoalmente, gostei do diagnóstico de Daniel Oliveira. A solução é que precisa de bastante mais trabalho! Entretanto, continuo a defender que os alunos com classificações mais baixas devem procurar melhores alternativas ao ensino superior.

12 pensamentos sobre “A irrelevância de chegar ao topo da torre de “Pisa”

  1. Luís Lavoura

    Não sei bem o que designa Daniel Oliveira com a expressão “a nossa escola” quando ele tem a sua própria filha (primogénita) numa escola privada das mais seletas que há. “A nossa escola” será a escola que a filha dele frequenta? A escola pública que ela evitou frequentar? As escolas portuguesas todas em geral, incluindo tanto as públicas como as super-seletas? Interrogo-me.

  2. Miguel Noronha

    Já lhe tinha dito que era de muito mau gosto trazer os filhos dos outros para estas discussões. Deixe lá a filha do Daniel em paz e concentre-se no assunto do post.

  3. Joaquim Amado Lopes

    BZ,
    Acho piada à frase “Na passada terça-feira defendi que a obsessão pelas notas e pelo ingresso num qualquer curso do ensino superior apenas beneficia os melhores alunos.” É um pouco como dizer que, “nas competições de tiro ao alvo, a obsessão pelo número de vezes que se acerta no alvo apenas beneficia os melhores atiradores”.

    .
    Miguel Noronha (2),
    O Luis Lavoura não trouxe a filha do Daniel Oliveira para esta discussão. Trouxe, isso sim, a decisão do Daniel Oliveira de matricular a sua filha numa escola privada, questionando a que escola ele se refere quando escreve “a nossa escola”.

  4. Miguel Noronha

    Acho que é excusada a referência. Se o post fosse meu o comentário teria sido apagado.

  5. ricardo saramago

    Quem os ouve fica com a ideia que os bons alunos, os tais que são pretensamente beneficiados, são bons alunos porque sim – Os resultados que obtêm não resultam de trabalho, disciplina e mérito.
    Partindo desta extraordinária premissa percebemos como a escola pública se transformou numa fábrica de matarruanos onde a vida dos tais bons alunos se torna cada vez mais difícil e onde a última coisa que se pretende é ensinar e acarinhar o saber.
    A méritocracia não pode ser nem democrática, nem igualitária nos resultados.

  6. Vasco

    Miguel, a questão é a escola que a filha frequenta. Concerteza não foi ela que a escolheu, foram os pais, logo é este critério que está em observação!

  7. Aladin

    A questão da filha do Daniel Oliveira, embora desagradável, é relevante. Porque revela a má-fé do argumento do Daniel. Se uma pessoa defende a bondade de um sistema, é natural, é óbvio que não o desdenha e o acha preferível a outros.
    E isso plasma-se nas escolhas que faz, na vida real.
    É, mutatis mutandis, como aqueles que enchem a boca com o SNS mas, ao primeiro sinal de doença, vão a correr tratar-se num bom hospital ou médico privados ( Jorge Coelho, por exemplo).

    Este tipo de dissociação entre o pensamento esquemático e a realidade, é muito típico dos chamados “intelectuais de esquerda” e é até daí que surge a designação “esquerda caviar”.

    Defendem para os outros aquilo que não escolhem para eles.
    Essa simples contradição, deita por terra toda a sua construção retórica.
    É por isso que é relevante e não apenas, como o M Noronha dá a entender, uma argumentação baixa e imprópria.
    Prende-se directamente com a argumentação e, como diz o povo, contra factos não há argumentos.

  8. João

    Aladin, é precisamente isso o que eu acho daqueles que enaltecem a iniciativa privada estando firmemente ancorados em entidades publicas em cargos que nunca cheirarão a “flexibilidade” que preconizam aos outros…

  9. Aladin

    “acho daqueles que enaltecem a iniciativa privada estando firmemente ancorados em entidades publicas”

    Erro. As leis são feitas pelas entidades públicas. É à entidade pública, em abstracto, que compete criar espaço para a iniciativa privada. Os indivíduos que têm convicções liberais, mas trabalham para o sector público, são completamente coerentes: trabalham no público, não por estarem ideologicamente comprometidos, mas porque é do seu interesse.
    E nada há de mais liberal do que a possibilidade de fazer as próprias escolhas.
    Um liberal irá tratar-se ao hospital que mais lhe convier, seja público ou privado.
    Um estatista, que defende a limitação dessa liberdade de escolha, não pode, não deve, fazer uso dela.

  10. João

    Acho que o Daniel não falou sobre a liberdade de escolha de ninguém. Em relação ao restante do seu arazoado, ficamos conversados quanto ao seu “liberalismo.”

    “Os indivíduos que têm convicções liberais, mas trabalham para o sector público, são completamente coerentes: trabalham no público, não por estarem ideologicamente comprometidos, mas porque é do seu interesse.” “Defendem para os outros aquilo que não escolhem para eles.”

    O mesmo não poderia ser dito de quem defendendo a escola pública coloca os filhos numa escola privada? O que nuns é incoerência noutros é interesse pessoal? Ridiculo.

  11. Aladin

    “O mesmo não poderia ser dito de quem defendendo a escola pública coloca os filhos numa escola privada”

    Não.

    Quem defende a escola pública, tem um preconceito contra a escola privada. Acha que a escola pública é melhor, mais igual, mais justa, etc.
    Se depois escolhe a privada para os seus filhos, revela a dissonância. Prova que não acredita naquilo que diz.
    Quem defende a excelência, escolhe a excelência, se puder faze-lo. Esteja ela na pública ou na privada.

    As escolhas de um liberal não relevam de uma visão ideológica, mas do seu interesse individual. É por isso que é liberal.
    Se um socialista faz escolhas ancoradas no seu interesse individual, então não é socialista, mas liberal.
    E sofre de má-fé: é aquilo que não acredita ser ( liberal) e não é aquilo que acredita ser ( socialista).
    Sartre explicou bem este problema psicológico…

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