“Que Governo é este?”

Num editorial na sua edição de ontem, o Público espantava-se com a actuação do Ministério da Agricultura. Segundo o dito editorial, Assunção Cristas fez com que o Ministério se tenha “transformado” numa “contracorrente ao pensamento liberalizante que orienta o Governo”. Não só a Ministra “admite a posse compulsiva de propriedades em situações de abstencionismo dos proprietários” e é a “responsável pela cobrança de taxas aos supermercados para financiar a qualidade e segurança alimentar”, como o seu Secretário de Estado Daniel Campelo (essa extraordinária referência) decidiu “reforçar o poder do Estado no instituto que gere o sector do vinho do Porto”. Indignado, o editorialista pergunta-se: “Mas que Governo é este? O de Passos e Gaspar, ou de Assunção e Daniel?”

Duas coisas são evidentes: no Público não se escreve português decente, nem se percebe o carácter (sejamos benevolentes) deste Governo. Pois não há qualquer incompatibilidade entre essas aparentes duas faces do Governo. Na realidade, este não é nem “liberal” nem “estatista”. É um governo fortemente empenhado em conciliar o cumprimento das exigências dos nosso credores com a satisfação dos seus interesses clientelares, e que por isso tão depressa “corta” no “Estado Social” como aumenta o poder do Estado sobre os cidadãos, mantendo certos sectores convenientemente abrigados da tempestade. Entre “Passos e Gaspar” e “Assunção e Daniel” não há uma diferença de acção. Apenas de função.

Criou-se a ideia de que este era um Governo liberal, em parte porque Passos Coelho (admito que com ingénua genuinidade) disse várias vezes que o queria ser, em parte porque tem “cortado” algumas despesas públicas. Mas esses “cortes” pouco ou nada têm a ver com uma concepção “liberal” das funções do Estado e da sociedade. Têm a ver com a necessidade de limitar o défice público de forma a obter empréstimos dos “mercados”. O mesmo propósito que leva o “liberal” Vitor Gaspar a aumentar os impostos e (bem mais grave) a aumentar a discricionaridade das Finanças no saque de receitas.

Mas quando falamos da RTP, não há “cortes” e a tão badalada privatização ficou muito provavelmente na gaveta. Como Miguel Relvas certamente terá explicado aos bem intencionados, há que manter o instrumento de propaganda, porque os tempos estão difíceis e sem manipulação é difícil sobreviver. O mesmo Miguel Relvas terá também certamente explicado que, com tanto “corte” a provocar tanta contestação, talvez fosse prudente garantir que a “reforma” das autarquias não fosse excessivamente ofensiva para os olhos do poder autárquico do PSD. E no Ministério da Agricultura, Cristas entretém-se a defender os interesses da “lavoura” tão cara ao dr. Portas, e especialmente, que sai cara a todos os portugueses.

É este o nosso Governo. Vítor Gaspar esforça-se por sacar dinheiro onde for possível, e não hesita em “cortar” onde há margem de manobra para o fazer. Assunção Cristas e Miguel Relvas asseguram-se de que o pouco que sobra chega às mãos das pessoas “certas”. Passos Coelho assiste impávido e sereno, enquanto nenhuma das reformas de que efectivamente o país necessita é realizada.

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9 pensamentos sobre ““Que Governo é este?”

  1. Guillaume Tell

    Muito bom de facto.

    No entanto mesmo que a estructura básica da nossa organização não mude assim tanto, se o clima geral começar a melhorar (e em princípio deverá amelhorar-se) nem tudo estará perdido: os portugueses terão conhecido pela primeira vez um Primeiro-Ministro que se terá proclamado liberal e que lhes terá feito experimentar alguns aspectos do liberalismo (por enquanto claramente insuficentes sem dúvida) e ajudará a “desdemonizar” aquela doctrina (o socialismo caiu sozinho por isso não será tão necessário explicar que aquilo não funciona, e os seus adeptos já não serão mais vistos como “gente de bem” só porque o defendem). Só por isso caso Portugal não estiver tão mudado como seria necessário daqui 10 anos, ao menos já não haverá (espero eu) tantas barreiras para impedir as reformas necessárias.

    Não esqueçamos que a I República tornou a democracia indesejável para muitos portugueses até pelo menos os anos 1960 e que Salazarismo tornou o liberalismo económico inaceitável até recentemente.

  2. ricardo saramago

    Em Portugal não há ideologia, nem convicções. O que há são vaidades, interesses, protecções, parentelas e maçonarias.
    A disputa política e a governação reflectem os grupos que se degladiam pelo orçamente e pelas posições conquistadas.
    Os regimes, os governos e os tempos mudam mas os portugueses continuam activamente empenhados em manter o único modo de vida que conhecem:
    Não vão em tretas e preferem um sistema corrupto e parasitário onde sabem sobreviver.

  3. “Em Portugal não há ideologia, nem convicções. O que há são vaidades, interesses, protecções, parentelas e maçonarias.”
    .
    Pois claro, nem outra coisa devemos esperar de uma sociedade socialista. No socialismo não há espaço para o mérito, pois o benefício próprio só se atinge por decisão favorável de quem dirige e planifica a nível central e raramente graças ao esforço e dedicações individuais. Depois dizem que em Portugal não reconhecemos o mérito. Mérito de quem??? Se a nossa sorte não depende de nós mesmos???

  4. lucklucky

    “…lhes terá feito experimentar alguns aspectos do liberalismo…”

    Deve estar a brincar. Onde é que os Portugueses têm mais Liberdade hoje com o Governo PSD+CDS do que no Governos anteriores? Não têm. Têm menos Liberdade pois têm mais impostos. têm mais regras e regulamentos.

    Não há Liberalismo sem mais Liberdade.

  5. Guillaume Tell

    lucklucky,

    não seja tão “”extremista””, você sabe bem que as coisas demoram tempo. E de toda maneira já ouve alguns avanços (privatizações, reduções de certas despesas “sociais”, reformas na Educação). É timído? É. Arrisca-se ao não avançar o suficiente (como a criar mais constrangimentos à liberdade)? Arrisca-se. Mas de nada serve exigir tudo em um só ano (você acha que a liberdade avançou muito nos primeiros anos da Thatcher? Ou na Irlanda do início dos anos 90?)

    Agora você tem razão, isto não desculpa nada se é para não mudar nada.

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