Uma evidência inultrapassável

Aos pretensos reformadores da Educação, um facto a ter em conta:

Metade dos alunos está (e sempre estará!) abaixo da média mediana.

Partindo desta evidência, cada pai terá de perceber que os seus filhos aumentam as probabilidades de futuro sucesso profissional se promoverem as diferenças, não tentando que eles façam o mesmo que todos os outros. Ou seja, se, por exemplo, o seu filho tem poucas aptidões naturais para a Matemática, não o force a intensificar o estudo desta disciplina. Pelo contrário, aceite que a maioria das profissões não exige mais do que um conhecimento rudimentar de matemática e descubra sobre que área ou actividade recai a curiosidade/talento da criança. O mesmo raciocínio aplica-se às restantes disciplinas do programa curricular.

O actual sistema de ensino está implementado para promover os alunos com elevada capacidade de memória (essencialmente memória primária, i.e. de curto prazo). São eles que têm as melhores notas nos exames e, consequentemente, são os primeiros a escolher o percurso académico superior. Para os restantes ficam os cursos com baixo valor de mercado!

Vivemos numa sociedade em que a grande maioria acredita que um curso superior é o ÚNICO caminho para atingir melhor nível de qualidade de vida. Face a esta crença, universidades e classe política criam vagas no ensino superior para cada vez mais alunos, em cursos cada vez mais medíocres.

Ora, se és um jovem situado na metade inferior da média curricular então sistema de ensino e sociedade estão contra ti. Podes continuar a fazer o que muito outros fazem: escolher, no próximo mês de Julho, um desses cursos com desemprego quase garantido… Ou podes ver isso como desafio potencialmente enriquecedor e aceitar que um curso superior não é necessariamente o melhor percurso. Se o fizeres, tens pelo menos 3 anos de avanço sobre a “concorrência”.

Para te ajudar, aqui deixo sugestão de passos a seguir.

Primeiro passo: selecciona as áreas/actividades de interesse nas quais acreditas ter maiores probabilidades de sucesso. Ao contrário do que acontece nas escolas e universidades, o programa curricular do resto da tua vida será definido exclusivamente por ti e pela forma como te adaptas ao mercado de trabalho.

Segundo passo: define as capacidades necessárias desenvolver para que empresas te vejam, a médio prazo, como uma mais-valia.

Terceiro passo: encontra empresas onde possas aprender tais capacidades e oferece o teu trabalho. Como, infelizmente, a lei laboral não permite trabalho gratuito (apesar de, neste período inicial, aprendizagem poder ser mais importante para ti que remuneração), terás de ser criativo na procura de trabalho.

Quarto passo: dedica-te a 100% a qualquer tarefa que te atribuam. À medida que fores apresentando resultados visíveis vais criando vantagens competitivas sobre aqueles que, daqui a três anos, apenas terão umas folhas de papel com classificações explicitando quão bons são a memorizar factos, fórmulas e teorias…

E lembra-te: tens 3 anos de avanço sobre muitos dos teus colegas de liceu!

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21 thoughts on “Uma evidência inultrapassável

  1. Carlos Duarte

    É a mediana, pois, e depende do número de alunos… Se o número for par, é verdade, se for impar, é um pouco menos que metade dos alunos.

  2. ElPibe

    “se o seu filho tem poucas aptidões naturais para a Matemática, não o force a intensificar o estudo desta disciplina”

    Isto é das coisas mais parvas que já li. Se calhar era a gozar e eu não percebi…

  3. dervich

    Na realidade, “se o seu filho tem poucas aptidões naturais para a matemática” não há outro remédio para fazê-lo atingir um nível mínimo nesta área (que corresponde mais ou menos ao 9º ano, mas bem sabido)senão forçá-lo a intensificar o estudo desta disciplina…

  4. André

    Parece que o autor do artigo foi aluno desse ensino público que critica. Afinal só se verifica que metade dos alunos são abaixo da média se a sua distribuição estatística for equivalente à distribuição Gaussiana e a população for uniforme. No contexto do ensino, considerando os efeitos de diferenças socio-económicas, esse pressuposto é falso e descabido.

    Mas lá está: o que se esperaria de alguém que incita pessoas a não apostarem na sua educação e formação?

  5. BZ

    Ora aqui está um post provocador mas que vende bem a ideia, sobretudo aquela dos “3 anos de avanço”.
    3 pontos polémicos: “metade dos alunos está (e sempre estará) abaixo da média”; o exemplo da Matemática; as empresas como único local de formação.

    1º – é verdade que a média implica metade abaixo e metade acima, mas a questão está na referência que produziu a média. Pode ser a classificação numa disciplina, em várias, num exame, etc. O percurso de um aluno pode ser no sentido de melhorar a classificação ou pode estacionar num determinado valor, é verdade. Esta informação é útil para os alunos se situarem, na auto-avaliação, e perceberem o que precisam trabalhar mais.

    2º – A Matemática é fundamental, a meu ver, para a maioria das actividades a considerar hoje em dia. Não me parece viável demonizar esta disciplina como era frequente fazer-se há uma décadas atrás. Os alunos de Letras verbalizavam mesmo terem “fugido à Matemática”. Quantos escolheram cursos que não seriam os mais interessantes precisamente por isso? Seria óptimo encarar-se este desafio com alguma audácia e criatividade. A Matemática está presente em tudo à nossa volta. Porque há-de ser um obstáculo em vez de um apoio essencial no conhecimento do que nos rodeia?

    3º – Por melhor que funcione uma empresa, não pode ser encarada como único local de formação, a não ser que tenha criado um espaço próprio para o efeito. A aprendizagem hoje exige um tempo próprio, etapas, definição de tarefas, utilização de técnicas, não pode ser deixada à simples imitação ou “ver fazer”. É o passaporte garantido para “não sair da cepa torta”.

    De qualquer modo, parabéns pela organização do texto, em crescendo, e pela dinâmica do argumento que vende sempre: “tens 3 anos de avanço”.
    Ana

  6. “o que se esperaria de alguém que incita pessoas a não apostarem na sua educação e formação?”

    André, releia o post com um pouco mais de atenção. O que aqui se defende é precisamente uma aposta na educação e formação! Só que em local diferente ao que os piores alunos normalmente escolhem.

  7. .

    Em vez de vir para o espaço público para se armar aos cucos, devia era estudar a sua matemática. É a mediana e não a média.

  8. Ana (agfernandesa), respondendo a cada ponto:

    1. Os comentários acima estão correctos no que respeita ao uso do termo “mediana” e não “média” (é o que dá escrever posts com insónia!). Mesmo que todos os alunos “trabalhem mais”, metade deles estará sempre abaixo da mediana! Ou seja, por exemplo, mesmo que o esforço de todos conseguisse subir consideravelmente a média nacional, continuaria a haver a mesma porção de alunos com prioridade nas escolhas de curso superior. O Estado até podia, depois, aumentar as vagas dos melhores cursos mas, se não houver suficiente procura no mercado de trabalho, isso significaria descida dos salários e/ou aumento do desemprego nessa área de actividade.

    2. A Matemática está, sim, “presente em tudo à nossa volta”. Mas, como afirmei no post, a maioria das profissões não necessita mais do que um conhecimento de matemática rudimentar.

    3. Para muitas profissões a aprendizagem nas empresas é mais importante que qualquer curso. Na Alemanha reconhecem isso e os piores alunos podem seguir o que designam de “treino vocacional”. Exemplo: um bom vendedor, além de ter de conhecer bem o produto/serviço vendido, precisa mais de aptidões sociais do que teóricas, capacidades que são melhor desenvolvidas num ambiente empresarial.

    Nota final: não sei se o meu argumento “vende sempre”! Se assim fosse, não existiriam tantos recém-licenciados em cursos inúteis…

  9. ricardo saramago

    Quem não usou e treinou a memória não consegue raciocinar.
    Áo contrário do que diz o autor do texto não podem existir “capacidades” sem ser com base na memória, no trabalho e no esforço, na disciplina mental e no conhecimento adquirido.
    Quem não teve que decorar, ler, resolver problemas, aprender factos e ideias, expor o que o aprendeu, não fica com “capacidades”- fica ignorante e incapaz.
    Poderá ficar na moda, mas certamente abaixo da média e da mediana e ficará com capacidade apenas para tarefas elementares ou para desempregado.

  10. agfernandes

    BZ

    Obrigada pela resposta.
    Mantenho, no entanto, reservas relativamente a:
    2. Aceitarmos que existem actividades que requerem apenas conhecimentos de “matemática rudimentar”. Não nos deveríamos contentar com essa noção.
    3. Há muitos miúdos que até prefeririam estudar no ambiente empresarial, não duvido, mas são necessárias algumas condições que nem todas as empresas portuguesas poderão providenciar. Não conheço as empresas alemãs, a não ser de um dois documentários.
    Ana

  11. “Áo contrário do que diz o autor do texto não podem existir “capacidades” sem ser com base na memória, no trabalho e no esforço, na disciplina mental e no conhecimento adquirido.”

    ricardo saramago, desculpas se não entendeu o que escrevi mas peço-lhe para reler o post: as escolas testam a memória primária e apenas factos que, na sua maioria, não são relevantes para o sucesso profissional.

    Como complemento, pondere o seguinte: quando alguém finaliza a sua carreira académica deixa de conseguir aprender??!

  12. Ana (agfernandes): ” Não nos deveríamos contentar com essa noção.”

    Porque não? Há muitas profissões em que o conhecimento de matemática mais complexa nada aumenta às competências necessárias para o sucesso.

  13. ricardo saramago

    Caro BZ
    Não sei o que é memória primária, mas lembro-me da minha infância em que os professores me obrigavam a decorar poesias e a reproduzir textos de memória. Com 6 e 7 anos achava “uma seca” desnecessária, hoje acho que me ajudou muito.
    Quanto à matemática digo o mesmo. O raciocínio abstracto organizado e estruturado a que obriga não tem substituto como ferramenta para a vida real.

  14. “Não sei o que é memória primária”

    ricardo saramago, memória primária é, como escrevi no post, de curto prazo. É a que usamos para guardar temporariamente informação.

    Tenho amigos que odiaram (é mesmo este o termo!) a disciplina de Português e os livros que nela foram obrigados a ler. Agora, já em idade adulta, são vorazes leitores porque, anos atrás, leram Harry Potter…

    Quanto à matemática, o “raciocínio abstracto organizado e estruturado” pode ser útil para quem, por exemplo, segue uma carreira na engenharia. Para profissões mais criativas e/ou sociais essa “ferramenta” não é essencial.

  15. ricardo saramago

    Com efeito não sabemos quantificar o custo da ignorância para os individuos e a sociedade.
    Mas duvido que a falta de preparação e conhecimento possam permitir trabalho com qualidade e com o valor necessário para ser bem remunerado.
    Mesmo a mítica criatividade, sem uma bagagem de conhecimento e cultura só resulta em mediocridade.

  16. “Mesmo a mítica criatividade, sem uma bagagem de conhecimento e cultura só resulta em mediocridade.”

    E nada no que aqui escrevi nega essa realidade. A questão essencial é que o actual sistema de ensino não é o único caminho para o sucesso. Existem outras alternativas que podem/devem ser aproveitadas pelos jovens classificados, por esse sistema, numa escala inferior.

  17. PedroS

    André disse:

    “Afinal só se verifica que metade dos alunos são abaixo da média se a sua distribuição estatística for equivalente à distribuição Gaussiana e a população for uniforme.”

    Por definição, uma distribuição uniforme é diferente de uma distribuição gaussiana. Metade dos alunos está abaixo da média se a distribuição fôr Gaussiana e, pelo teorema do limite central, uma variável aleatória que seja o resultado de muitos efeitos independentes de igual variância segue uma distribuição gaussiana.

  18. ricardo saramago

    Se a população é uniforme a distribuição de frequência tem variancia zero, se há variancia então não é uniforme.
    O teorema do limite central diz que quando retiramos uma amostra aleatóriamente de uma população, à medida que aumentamos a dimensão da amostra a distribuição de frequência tende para uma distribuição normal, com média e variância igual à da população.
    O teorema não se aplica à população mas às amostras aleatórias.

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