A roupa nova do imperador

Há três meses, depois de assistir a uma datada e bolorenta récita de La Clemenza de Tito de Mozart, prometi a mim mesmo não voltar a entrar no Teatro Real de Madrid enquanto à sua frente estiver Gerard Mortier. Depois dos estragos feitos em Paris e em Nova Iorque, Mortier parece empenhado em deixar a sala de ópera da capital espanhola sem uma gota de credibilidade. Entre produções que há muito deveriam estar arquivadas, como o já citado Tito do casal Herman, e encomendas que resultam num ultraje à reputação do teatro, como a gracinha de Alain Platel de Março passado, quando levou os indignados do 15-M para o palco do Real e recebeu, em troca, uma real pateada, o panorama é mais do que desolador. Talvez por isso, o público, no sábado, não ocupava dois terços da lotação (e caiu para metade após o intervalo). E eu, rompendo a minha promessa porque dois ou três assuntos trouxeram-me mais uma vez a Madrid, ali estava no meio de tão incauto público, para assistir a uma nova versão de L’incoronazione de Poppea de Monteverdi, da autoria de Philippe Boesmans. Mas o desastre não foi a música.

O encenador Krzysztof Warlikowski apresentou em 2008 em Paris a sua visão do Parsifal de Wagner. For me, the return of the prodigal son in Act II of Parsifal recalls a character in Rossellini’s Germany Year Zero: the demobilised SS who live hidden in the Berlin ruins to avoid being taken prisoner by the Occupation authorities, disse o encenador polaco numa entrevista. Vai daí, recorreu ao filme de Rosselini e projectou no palco uma sequência de imagens da II Guerra Mundial. Muito bem, Wagner, anti-semitismo, Hitler, nazismo, Furtwangler e o diabo a quatro. Podíamos fingir que é tudo muito original e aceitar o que Warlikowski nos oferece. É aborrecido e pouco criativo mas não insulta (muito) a inteligência dos espectadores. O problema é que Krzysztof Warlikowski repete a dose com L’incoronazione de Poppea. E, para o caso de algum espectador mais distraído não perceber a mensagem do cenário e do prólogo (uma sequência de lugares-comuns com a caução intelectual de Hobbes, Wittgenstein e outros pesos-pesados da artilharia filosófica), espeta-nos com imagens do Olímpico de Berlim em plena ascensão do nazismo, e vai enchendo o palco, enquanto a trama se desenvolve, com o mais óbvio imaginário neonazi. Resultado: somos obrigados a assistir a duas obras que correm em sentidos paralelos, inconciliáveis. Uma, é a extraordinária ópera de Monteverdi, com um libreto complexo, rico, belo, shakespeariano. A outra é apenas um insuportável arroubo de um artista sofrível que viu a luz e que agora julga ter como missão doutrinar a audiência.

Isto nem seria muito grave se não se desse o caso de ser uma prática comum nos teatros europeus. Há uma certa classe de criadores progressistas que, sem cultura, sem uma ideia do passado, insistem em destruir as obras clássicas só porque julgam ter uma mensagem importantíssima que deve ser transmitida aos pobres incréus. E com o dinheiro dos outros, de preferência. Também por aqui passa a decadência europeia.

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