Borbulha

Dizer que o actual problema económico espanhol é sobretudo bancário e não tem que ver com contas públicas ou opções políticas é um pouco falacioso. O problema bancário da Espanha resulta sobretudo das práticas das caixas regionais, com inevitáveis consequências sobre o resto do sistema. Ora, é consabido que as caixas regionais foram usadas como instrumento de uma política de habitação das regiões autónomas, consistindo basicamente no fornecimento de casas ao povo com crédito abundante e barato. Esquerda e direita não se distinguiram nesta espécie de “desorçamentação” épica (ou “falsificação das contas”, à grega).

E depois há as contas públicas propriamente ditas. O Estado central espanhol pôde vangloriar-se estes anos todos de apresentar orçamentos equilibrados porque na realidade estava a varrer para debaixo do tapete das contas regionais o lixo do desequilíbrio. Não deve haver hoje uma autonomia solvente em Espanha. Ora aqui é que está o problema: na hora de assumir a responsabilidade, terá de ser o Estado central a fazê-lo, ou a Catalunha e a Andaluzia vão assinar directamente com a Troika um memorando de entendimento?

O mesmo se passa com os bancos, de resto: apesar da ficção do “resgate exclusivamente bancário”, estamos na verdade perante um resgate ao país. Se esta “linha de crédito” (acho que foi assim que o Governo espanhol lhe chamou) de 100 mil milhões de euros não tivesse sido aberta pela Troika, abri-la-ia o Estado central. O valor seria de aproximadamente 10% do PIB. Se juntarmos a isto os actuais 8.5% do défice actual, o défice orçamental de Espanha atingiria as proximidades dos 20%.

8 pensamentos sobre “Borbulha

  1. Miguel Noronha

    Nem de propósito, Estava a ler um artigo de um espanhol que fala disso

    Una cosa es importante mencionar: no está podrido todo el sistema financiero español. Hay ciertos bancos españoles que están entre las entidades más solventes y más rentables del mundo. Son bancos que han apostado por la internacionalización, por la diversificación y por una estrategia relativamente conservadora. Para estos bancos, el rescate público supone una suerte de competencia desleal que penaliza la mejor gestión de sus riesgos. Sin embargo, por otro lado queda una constelación de entidades, principalmente cajas de ahorros, que funcionan con respiración asistida. Son entidades que han servido, en la mayoría de los casos, de brazo financiero del poder político regional. Y no se ha encontrado mejor solución para tratar de esconder las vergüenzas políticas de estas cajas, que proceder a fusionarlas sin mucho análisis para terminar creando unas manzanas podridas demasiado grandes para quebrar. El problema financiero que vivimos es otra demostración más, en definitiva, de que no hay peor gestor que un político español.

    El asunto de fondo es que la intervención financiera europea en España no es otra cosa que dos rescates en uno. Es un rescate por parte del contribuyente a esas entidades politizadas incapaces de permanecer solventes por sí mismas. Pero también es un rescate al propio Gobierno. El hecho de que tenga que intervenir la Unión Europea inyectando dinero al FROB es la manifestación palmaria de que el Estado español, tras cuatro años de estricta política keynesiana y déficit desbocado, está al borde de la bancarrota. La no intervención de Bruselas es probable que hubiera obligado al Gobierno español a rescatar a la banca, y, acto seguido, a pedir ayuda a Europa.

  2. JS

    Apenas mais uma consequência preversa das permanentes núpcias entre a banqueiros e políticos
    -não confundir com casamento gay- que explica, muito bem, o presente, permanente, “road-show” em curso que é a política.
    E ai de uma Merkel qualquer que queira impor alguma disciplina nisto!.
    PS- Têm-se visto muitas bolhas na Alemanha ?

  3. António

    Acho sempre curioso observar que os (pseudo) “liberais”, que supostamente colocam o individuo à frente do grupo, e o privado à frente do “publico”, que acham que o individuo, e o “privado”, é que devem ser os actores principais e preponderantes na sociedade, acabam sempre por desresponsabilizar completamente esse mesmo individuo e privado.

    Só falam do Estado e dos políticos, especialmente dos que veiculam ideologias esquerdistas, keynesianas e conservadoras, que são a causa de tudo (mesmo que nem tenham passado muito tempo no poder!).

    Se o individuo, o “privado”, deve ser o actor principal, não o deve ser por mérito próprio? E se não o é, não deve ser responsabilidade pelos seus deméritos?

    Se o capitalista privado se afoga em empréstimos e subsídios a culpa é toda dos políticos do Estado? Se o individuo se afoga em empréstimos que não pode pagar não terá uma parte grande, principal mesmo, nesse erro? Se os bancos “privados” emprestam dinheiro em péssimas condições não têm responsabilidade nisso? Se os financeiros “privados” jogam triliões em fundos de investimento que fabricaram e que são, em parte, “bolhas de ar” não têm responsabilidade nenhuma?

    Para estes liberais teóricos não. O Estado é que é sempre o culpado de tudo. E até quando o Estado entra a salvar privados é tudo culpa do Estado…

    Para liberais parecem-me muito obcecados com o Estado. E estão desertinhos para ir para o Estado…para “destatizar”, dizem-nos…

    (e que tal um pouquinho de auto-crítica?)

  4. dervich

    Curioso de facto…Lembro também aqui quando se deram as primeiras grandes privatizações, há cerca de 16 anos, os bancos estimulavam os clientes a pedir uma quantidade de acções 10x acima da quantidade do rateio esperado (ou usavam dinheiro à ordem dos clientes para comprar acções sem o avisar!), indicando que, caso lhes fosse atribuído um nº de acções superior, ficariam com essas acções para si…

    Deve ter sido assim que ficaram com quotas enormes de empresas que agora, depois de uma década de “gestão” privada, não valem um chavo…

    “Dizer que o actual problema económico espanhol é sobretudo bancário e não tem que ver com contas públicas ou opções políticas é um pouco falacioso”.

    É um pouco é, muito pouco mesmo!…

  5. António

    A obsessão dos “liberais” em culpar o “Estado-público” de tudo, é igualzinha aos esquerdistas que, dê por onde der, vão sempre chegar à conclusão de que a culpa de tudo é dos “capitalistas privados liberais”!

    E pronto, o “outro” é mau, burro, e culpado de tudo. Fixe pá!

  6. lucklucky

    “(e que tal um pouquinho de auto-crítica?)”

    Que tal o António ler mais o que se escreve por aqui?
    Não sabe que os “liberais” defendem a bancarrota dos Bancos ? Ou seja haver punição para a asneira. Um sistema sem medo ou seja sem dúvida e com suposta segurança total é insustentável.

    Ora como todos acreditaram na regulação e não é permitido os bancos falirem não há dúvida. Todos continuam no mesmo caminho. E todos continuam no mesmo caminho porque quem define a política financeira são os Governos. Os Juros a quase zero são definidos por quem?

    O Antonio sabe que o Bankia recentemente “salvo” da bancarrota é um conjunto de Cajas que estavam mais ou menos falidas. E que as Cajas são propriedade dos Governos Regionais? Que a Caja Madrid que dissolvida no Bankia é propriedade da região ou comunidade de Madrid e como era a maior tem metade do Bankia?

    Para o Dervich os “clientes” já não são privados pelos vistos.

  7. Dervich

    “Para o Dervich os “clientes” já não são privados pelos vistos” ??!…. Não atingi.

    Tinha acabado de dar mais um exemplo em como o endividamento dos bancos pouco tem a ver com “contas públicas ou opções políticas “, naquele caso concreto, convidando outros privados para a bebedeira da especulação…É o que estava aqui em causa, ou não era!?…

  8. António

    Lucklucky,

    Se aqui venho é porque o que aqui se escreve tem interesse para mim. Gosto e concordo com parte. Mas desalinho com o sectarismo e cegueira de quem só vêm para um lado, se acha iluminado, e nunca vê falhas em si mesmos, nem no seu lado. Já para não falar do que são puras contradições, com conservadores puros a dizerem-se liberais, por exemplo.

    Sei que alguns até advogam que os bancos deviam ter-se deixado ir à falência. Mas dizem-no pouco e baixinho, e também não dizem o que isso acarretaria (provavelmente o desmoronar temporário do sistema financeiro, com todas as consequências a seguir).

    E muito menos dizem que foi a “direita”, nomeadamente a estado-unidense (Republicanos-Bush), que deixou isto chegar a este ponto, deixou o sistema implodir, e começou com intervenções nacional-socialistas na economia (na realidade começou antes, através das compras e contratos para as guerras). Logo depois do Bush o Brown segui-lhe o exemplo. Quando os buracos começaram a sentir-se na Europa continental, de repente já era tudo culpa da “esquerda”. Vê-se agora o PP Coelho, vê-se o Rajoy, vê-se o Berlusconi e o Sarkozy…

    Também acho piada a culpar os políticos-Estado pela loucura prestamista dos bancos. Sim, foi um americano Républicano – o Greenspan – que liderou esta tendência suicida. Mas os bancos privados, e empresas, e particulares embebedaram-se logo e desmesuradamente, ainda mais que os Estados. Não se vai culpar alguém de ser bêbado porque há muitas lojas a vender álcool barato, certo? O que é feito da responsabilidade individual-privada?

    Se os bancos e outras empresas privados se embebedam em crédito barato, fabricam pseudo dinheiro por engenharias financeiras, fazem jogos lobbies corporativos juntos dos Estados (e os administradores transitam de um lado para o outro a toda a hora), vão à falência pondo em risco o mundo ocidental inteiro, e depois ainda aceitam intervenções socialistas…o que dizer destes “privados”?

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