Ainda o proteccionismo

É verdade que a concorrência internacional é responsável pela perda de empregos e lucros em indústrias nacionais menos competitivas, mas já não é verdade que tenha o mesmo impacto na economia como um todo. A defesa do proteccionismo é um dos mais elaborados exemplos de falácia da composição: assumir que o que é bom para uma indústria isolada, será bom para toda a economia. Como liberal, rejeito o proteccionismo apenas pelo simples princípio de que ataca a liberdade individual. Mas mesmo numa perspectiva utilitarista, o proteccionismo é um erro. É um erro porque afecta directamente os consumidores, atacando directamente o seu poder de compra. É um erro, porque mesmo empresas que beneficiam da ausência de concorrência no seu sector, arriscam-se a ser prejudicadas a nascente se os seus fornecedores não forem portugueses. É um erro, porque se permite que sobrevivam empresas ineficientes, adiando o necessário ajustamento económico. É também um erro pensar que alguma vez políticas proteccionistas são temporárias: a verdade é que, na maioria dos casos, acabam por se prolongar no tempo porque as indústrias protegidas não têm qualquer estímulo a tornarem-se competitivas, sabendo que, enquanto não o forem, terão sempre a protecção do estado.
Como escreveu o João Miranda no Twitter, defender o proteccionismo é querer alargar o sector não transacionável a toda a economia. O que Portugal dispensa neste momento é mais políticas que criem distorções semelhantes às criadas pelo crescimento do sector não transacionável.

19 pensamentos sobre “Ainda o proteccionismo

  1. Nogueira da Costa

    Tem toda a lógica quando se na economia como um todo, e apenas e só na economia mas no mundo real não faz sentido uma posição tão radical… ou melhor, naif, pois há outros factores a considerar… Estou a pensar nomeadamente no caso da china. Aceitar a livre transacção de bens significa aceitar o que se faz lá em termos humanos para conseguir preços tão baixos.

  2. Miguel Noronha

    “Aceitar a livre transacção de bens significa aceitar o que se faz lá em termos humanos para conseguir preços tão baixos.”
    É conhecido que a China manipula a sua divisa por forma a manter a competitividade externa. No fundo anda subsidiar os consumidores externos ao mesmo tempo que desincetiva que a competição se faça por outro tipo de factores. Por outro lado não sei se faz ideia da pobreza da China da era Mao antes de se inicar a abertura ao exterior. Ou mesmo, actualmente, nas zonas rurais ou fora das “zonas económicas especiais”.

  3. Ricciardi

    Meu caro Carlos,

    A teoria ou a escola liberal, assim como a comunista, não entra em linha de conta com as desvirtudes humanas. Não entra em linha de conta com a avidez, corrupção, trapaça, velhaquice, com a batota… enfim, com as coisas comezinhas e sempre presentes da vida.
    .
    … igualmente não entra em linha de conta com o comercio com os desvirtuosos. Quer dizer, será justo abrirmos fronteiras à importação de produtos oriundos de países que impedem que os nossos produtos lá entrem livremente?
    .
    Será justo que os nossos empresários tenham que suportar custos em investimentos ambientais (etars etc) e sociais dos trabalhadores (doença, velhice, maternidade, segurança no trabalho etc) para produzir e vender no mercado interno e ao mesmo tempo entrarem em concorrencia com importações de produtos aonde não existe qualquer preocupação em destruir o ambiente ou qualquer protecção do trabalho? Será justo?
    .
    O Liberalismo, tal como Comunismo, são uma espécie de religião: ambas têm objectivos fantásticos, mas sempre irrealizaveis… derivado às desvirtudes humanas.
    .
    Rb

  4. Ricciardi

    Como vivemos neste mundo concreto, cheio de gentes com ideias diferentes umas das outras, educação e cultura, felizmente, a única e eficaz medida justa é a aplicação da RECIPROCIDADE. Reciprocidade nas diferentes abordagens do comercio. Reciprocidade legal, ambiental, social, que são os factores que formam parte do preço. Ora, se não existe reciprocidade, se a concorencia não se estabelece pelos mesmos principios de base, aa bem de uma livre concorrencia saudavel, única forma de se poder comercializar com outrem é descriminar negativamente o preço na fronteira.
    .
    No mercado interno isto é pacifico. Quer dizer, ao apresentarmo-nos a concurso para uma qualquer obra, temos de garantir que somos pessoas cumpridoras das leis gerais e idoneas e que pagamos os nossos impostos e que temos técnicos formados competentes. E porquê? porque não seria justo, nem ético, nem meritoso elaborarmos um preço para obra sabendo que os concorrentes não tinham que cumprir requisito algum de idoneidade. Seria um concurso perdido à partida.
    .
    Ora, se cá dentro temos regras que promovem uma sã concorrencia (embora desvirtuada pela corrupção politica), o que é que justifica que não ajamos da mesma forma no comercio internacional.?

    Rb

  5. Miguel Noronha

    “A teoria ou a escola liberal, (…), não entra em linha de conta com as desvirtudes humanas.”
    Não sei bem o que é a “escola liberal” no entanto está errado. Precisamente por reconhecer que “os homens não são anjos” (Hume) é que não devemos concentrar poderes arbitrarios e devemos dar aos individuos o máximo de autonomia e poder sobre os seus recuros. Precisamente o contrário do comunismo.

    “O Liberalismo, tal como Comunismo, são uma espécie de religião: ambas têm objectivos fantásticos, mas sempre irrealizaveis”
    Podia-me esclarecer qual o objectivo final do Liberalismo. Segundo julgo saber, e novamente ao contrário do comunismo, o liberalismo distingue-se por não pretender impor aos individuos um qualquer plano superiormente delineado por um líder iluminado.

  6. Miguel Noronha

    “Ora, se cá dentro temos regras que promovem uma sã concorrencia (embora desvirtuada pela corrupção politica), o que é que justifica que não ajamos da mesma forma no comercio internacional.?”
    Não é só a corrupção política que desvirtua a “sã concorrência” internamente. Temos todo o tipo de políticas estatais que tentam condicionar ex-ante um determinada resultado.

    Ao nível do comércio externo é melhor deixarmos as descisões de consumo aos consumidores.

  7. Luís Lavoura

    indústrias protegidas não têm qualquer estímulo a tornarem-se competitivas

    Há múltiplos exemplos históricos que desmentem esta conclusão.

    Os EUA no século 19 desenvolveram-se à sombra de enormes barreiras alfandegárias. As indústrias americanas concorriam – pelo mercado interno – e tinham todo o estímulo para se tornarem competitivas. Estavam, apenas, protegidas dos concorrentes internacionais, nomeadamente ingleses.

    Os próprios têxteis ingleses progrediram à custa do protecionismo – protegidos da concorrência dos têxteis bengalis, que eram de melhor qualidade mas cuja exportação para fora da Bengala foi proibida pelo Império.

    O protecionismo, de facto, não implica ausência de competição. Pode, ainda assim, haver suficiente variedade de empresas, a fornecer um mercado interno suficientemente vasto, ou um mercado externo suficientemente tolerante, para que haja efetiva competição.

  8. Miguel Noronha

    Caro Ricciardi. Se quer comentar use palavreado apropriado. Volta a repetir a gracinha e é banido.

  9. APC

    “Ora, se eu, na minha liberdade ajo desta forma, é expectavel que os filipinos ajam da mesma forma. O liberalismo pretende impor-me e restringir a minha liberdade de achar que devo beneficiar os portugueses e prejudicar os filipinos.”

    No mercado livre, que eu saiba, circulando produtos filipinos e portugueses, pode-se sempre optar pelos Portugueses, a diferença é deixar isso ao critério do individuo ou impor barreiras legais à importação de produtos filipinos.

    Luis Lavoura;

    Ainda há uns dias atrás li num comentário seu qualquer que as empresas portuguesas estão muito dinâmicas, que o aumento de exportações era prova disso mesmo, agora diz aqui que o melhor é apostar no mercado interno e que o proteccionismo é uma ferramenta fantástica que faz toda a gente crescer. Afinal em que ficamos? É que começa a parecer a Grécia, sol na eira, chuva no nabal…

    Pessoalmente acho que países terceiros que tenham interesses em Portugal e outros onde Portugal tem interesses, tomadas medidas proteccionistas, fiquem a observar de forma passiva, falando do passado, no inicio da década de 30 aquando da grande depressão, uma das medidas mais rapidamente implementadas foi a do proteccionismo, que por sua vez resultou num sentimento anti-americano e em medidas legislativas de retaliação por parte de diversos países (Canadá e México, p.ex.) que ainda aprofundaram os problemas americanos… Pesando os prós e contras da coisa, não creio que o proteccionismo resolva o que quer que seja.

    Cada vez menos entendo este suposto social-“liberalismo”, mais valia dizer socialista, ponto final.

  10. O Luís Lavoura tem um ponto. Se o mercado interno for suficientemente vasto, então fechá-lo à concorrência externa não é sinónimo de dizer que não há concorrência.
    O argumento das indústria nascentes (ou infantes), que de certa forma o Luís Lavoura defende, é o único que em termos teóricos me parece consistente 8afinal de contas é uma mera aplicação do ‘learning by doing’, que todos experenciamos nas nossas vidas. No entanto, a evidência empírica não me parece que seja muito favorável a esta tese. Tanto quanto estudei, a maioria destes apoios temporários a indústrias nascentes tendem a eternizar-se, O caso dos EUA é disso um bom exemplo. Ainda hoje a indústria do aço nos EUA é protegida como se a indústria fosse nascente.

  11. “diz aqui que o melhor é apostar no mercado interno e que o proteccionismo é uma ferramenta fantástica que faz toda a gente crescer.”

    APC, onde é que o Luís Lavoura disse isso?

  12. Nogueira da Costa

    Não duvidei disso, apenas pretendo apontar que tendo em consideração as limitações impostas a nível humano e social nas civilizações ocidentais, não é possível haver um… mercado perfeito. Nesse sentido penso que sejam justificáveis certo tipo de proteccionismos. Claro que na realidade a maior parte dos proteccionismos não existem por razões tão nobres, mas antes para favorecer o amigo X ou Y…

  13. Carlos Guimarães Pinto

    LA-C, o melhor mesmo é dizer que quanto maior for o mercado protegido, menor será o impacto do proteccionismo, e aí concordo. Mercados grandes são menos afectados pelo proteccionismo. Claro que Portugal está muito longe de ser um grande mercado.

  14. Fernando S

    O proteccionismo economico tem bem mais inconvenientes do que vantagens.

    Mesmo a protecção do mercado interno para as chamadas “industrias nascentes”. Esta politica representa normalmente um enorme desperdicio de recursos. Os consumidores e os produtores nacionais pagam mais pelos bens “protegidos”. A protecção reduz a concorrencia (se não reduz então para que serve ?) e é factor de ineficiencia. Afecta negativamente a produtividade da economia. Os exemplos de sucesso desta politica que são normalmente invocados são enganadores.
    Nos paises em que existiam condições economicas para arrancar e desenvolver estas industrias, o proteccionismo foi inutil. Ou melhor, foi util apenas para alguns. Favoreceu sobretudo os lucros das empresas protegidas à custa do resto da economia. Mesmo sem proteccionismo, estas industrias ter-se-iam criado e desenvolvido. E, sujeitas à concorrencia, ter-se-iam desenvolvido com maior eficiencia e sustentabilidade. De resto, foi o que sempre aconteceu quando o proteccionismo diminuiu ou desapareceu.
    Nos paises onde não existiam condições, a criação e o desenvolvimento artificial destas industrias representou um enorme desvio de recursos que podiam ter sido melhor utilizados noutras actividades, mesmo que mais tradicionais, menos industriais e com tecnologias menos avançadas. De resto, nos casos em que o proteccionismo diminuiu ou desapareceu, o que acaba por acontecer mais cedo ou mais tarde, a maior parte destas actividades entrou em crise e decadencia e muitas delas acabaram mesmo por desaparecer. Para além de recursos perderam-se décadas e décadas de falso desenvolvimento.

  15. Luís Lavoura

    APC,
    eu não disse nada daquilo que me atribui.
    Por favor leia as minhas mensagens nas linhas, jamais nas entrelinhas. Eu sou físico de profissão e estou habituado, por deformação profissional, a exprimir-me de forma exata.

  16. Filipe Silva

    não sou favorável há existencia de proteccionismo, devido a que este tipo de politica leva a uma diminuição do bem estar da população, dado que reduz a liberdade de escolha do consumidor.
    E é outra forma de o Estado atribuir beneficios a uns em deterimento de outros, o que moralmente é reprovável.

    Agora se determinado país tem uma pauta aduaneira em que tributa os produtos portugueses, então nesse caso é diferente, devemos responder se for o mais conveniente para nós.
    Por exemplo o Brasil aumentou as taxas sobre produtos nacionais (vinho, azeite, etc..) e nós continuamos com uma taxa sobre esse país muito baixa (4%se memória não me falha) então devemos responder.

    Já sei que foi isso que foi feito na decada de 30, e que com as respostas o proteccionismo se tornou mundial.

  17. Fernando S

    Filipe Silva : “Agora se determinado país tem uma pauta aduaneira em que tributa os produtos portugueses, então nesse caso é diferente, devemos responder se for o mais conveniente para nós.”

    Sendo nos um pequeno pais com um pequeno mercado e com uma economia fragil … “o mais conveniente para nós.” é as mais das vezes não “responder” !…
    O principio de reciprocidade não é sempre e necessariamente eficaz do ponto de vista comercial.

  18. Paulo Pereira

    Como todos os grandes paises praticam alguma forma de protecionismo ou de politicas industriais , Portugal ao não fazer o mesmo condena as suas empresas de transacionaveis à estagnação ou à falência.

    O nivel de IRC e TSU actuais tornam muito dificil a vida às empresas de transacionaveis sediadas em Portugal.

  19. Lucas Galuxo

    É um erro proteger as empresas ineficientes nacionais do mercado livre. E é um erro ainda maior sujeitar as empresas eficientes nacionais a mercados distorcidos pelo engenho e arte dos países que sabem defender as suas empresas e os seus mercados melhor do que nós. É um erro e é fazer figura de parvo.

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