O Incompreensível Peso da Voz dos Incapazes

Ouço falar de crise desde que nasci. Ouço falar em défice desde que me recordo de assistir a notícias políticas. Austeridade e consolidação não me são palavras estranhas já há um tempo significativo. Para grande parte das pessoas que leio, a crise começou com Sócrates. Para outros, com Guterres. Como se o Cavaquismo, que aparentamente apadrinhou mais criminosos que D. Corleone, tivesse sido um mar de rosas. Como se Durão Barroso não tivesse chegado ao poder mentindo e como se não tivesse fugido – ou, como as prostitutas de Bruxelas chamam a esse infeliz acto, promovido. Para muitos o consulado de Santana Lopes não existiu e a única memória que resta do mesmo é um cover homicida de um clássico do brasileiro Gonzaguinha, acompanhado do vídeo de campanha mais assombroso de que tenho memória. Mas esses períodos existiram, não foram simplesmente episódios da Twilight Zone com os elementos da Quadratura do Círculo impersonando Rod Serling . No entanto, o país, o regime e o Estado permaneceram intocáveis.

Ainda existe quem, por este rectângulo, dê ouvidos a Ferreira Leite e a Bagão Felix. São sérios e competentes, afirmam alguns.  Bem, Fernando Teixeira dos Santos também era, supostamente, sério e competente e, no entanto, hoje todos podem observar onde é que tanta seriedade e competência nos trouxeram. É deveras curta a memória de quem venera estes senadores, sempre com um conselho ou uma crítica nos labios mas que, estranhamente, não se encontravam munidos de tais ideias quando o poder lhes estava nas mãos. Bagão e Ferreira Leite, ambos ex-Ministros das Finanças de um Governo Maioritário de Direita. Ambos cúmplices da situação a que o país chegou. Ou Soares, o arauto da austeridade hoje convertido em líder da oposição. Que, ironicamente, se gabava há uns tempos de ter convencido Sócrates a chamar o FMI. E que dizer de Marcelo Rebelo de Sousa, comentador-Mor do situacionismo, cujo único feito que se lhe conhece é uma candidatura falhada à CM de Lisboa ?

A maior parte destas figuras, a cumprir-se o que os seus afilhados políticos pregam, estaria na cadeira ou em vias de estar. A fazer-se justiça aos seus feitos teriam tanta importância como uma disputa de hockey feminino numa tarde de feriado em que joga a Selecção. Mas os media insistem em alimentar estas vozes. Incómodas para os governos, mas, no seu todo, de uma tamanha insignificância que nem destas minhas palavras são merecedoras. Mas Portugal é isto. Portugal é uma sessão de espiritismo de cadáveres políticos.

17 pensamentos sobre “O Incompreensível Peso da Voz dos Incapazes

  1. Grande posta.
    Somos o povo da saudade, daí esta dificuldade enorme em olhar para o futuro e aprender com os erros do passado.
    E haverá, certamente, uma patologia qualquer que explique o fabuloso fenómeno do povo português depressa perdoar quem saiu do poder julgando que quem lá está é muito pior. Ainda não perdi a esperança de perceber isto…

  2. Paulo Pereira

    O facto de no passado se terem cometido erros, não valida os erros que se cometem agora pelo governo.

    O aumento do IVA e do IRC pelo governo foi um erro porque está a fundar a economia.

    A redução do deficit deve ser apenas do lado da despesa mesmo que isso acarrete um deficit um pouco maior ou que exija mais rapidez no desmantelamento do Estado Anti-Social.

  3. Rui

    Gostei. Na mouche.

    Mas lá está,não é por acaso que se apelidam os media do “quarto poder” pois eles de facto têm uma importância brutal na percepção do votante comum do que se passa neste país.

    A análise apenas falha quando se diz que este problema é um problema português, não é, ele existe na maioria dos países ocidentais (talvez a Grécia seja a honrosa excepção, mas vejam o extremo a que tiveram que chegar para se libertarem dos políticos ditos “tradicionais”)

  4. JS

    Infelizmente, mt. bom Post.
    Só se podem vangloriar pelo facto de “terem sido” …
    Apesar de tantas facilidades, via Europa, poucos, quiçá nenhum, se pode orgulhar de realmente “ter feito, e bem” ao País.
    Mas para eles -e para os amigos- até resultou, mais que não seja, a usual ego-trip.

  5. lucklucky

    “Mas os media insistem em alimentar estas vozes.”

    Os media fazem parte do mesmo grupo. Porque é que ninguém pergunta ao Dr.Soares pelos massacres feitos por Partidos da Internacional Socialista no último ano?

  6. tric

    Passos Coelho andou praticamente dois anos em campanha eleitoral pago pela fomentinvest…perdão, pela banca portuguesa, dai o seu carinho para com esta! Liberais…

  7. Ricardo Arroja

    Ricardo,

    Um artigo forte e corajoso. Há, contudo, um ponto no qual discordo: os media insistem nos mesmos de sempre porque, como não existe em Portugal uma opinião pública como deve ser, as pessoas acabam por apenas reconhecer poder de intervenção àqueles que exerceram funções políticas. E enquanto não existirem hábitos de debate público, no sentido do exercício activo da cidadania, a ascensão de novos participantes na vida pública do País será lenta. É também por isto que reitero a defesa da democracia participativa/(semi) directa; retiraria poder aos partidos e reforçaria o poder (de intervenção e de influência) dos indivíduos, facilitando a ascensão daqueles que querem contribuir para o debate público.

  8. tric

    “Um artigo forte e corajoso.”
    .
    os liberais são muito fortes e corajosos, excepto para a banca…aos subsideos estatais à banca!

  9. Coronel Z

    “Um Polvo lusitano”
    «Cadastro é currículo: Armando Vara ou Dias Loureiro concluem as suas carreiras políticas como empresários de sucesso. E ricos»
    «AR é o centro da corrupção em Portugal» – Paulo Morais, Associação Transparência e Integridade.
    Substituído o regime do “Canto do Fantoche Lusitano”* pelo “Canto do Fantoche Democrático” nos ministérios, parlamento & autarquias, um misto de Ali Babá-Al Capone-Al BPN- Al Belém S. Bento, invadiu e tomou conta do país.
    A bem da oligarquia político empresarial do regime.
    * O professor de alemão, na Academia Militar dos anos 60, espumava contra o compatriota autor da peça sobre Salazar e a guerra em África.

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