Chove em Santiago e em Atenas (2)

Sem morrer de amor pelos Coronéis, entre eles e a Syriza, venha o exército inteiro. E agora sobre Pinochet:

Quanto ao general Pinochet, ele ao menos merece ser lembrado como o homem que impediu que seu país se tornasse o segundo satélite soviético no Ocidente, após a Cuba de Fidel Castro.  E, assim como Cuba e a União Soviética, uma ditadura totalitária com uma população empobrecida e faminta.

O general certamente não era nenhum anjo.  Nenhum soldado pode ser.  Ele foi repetidamente denunciado pela morte ou desaparecimento de mais de 3.000 cidadãos chilenos, além de acusado pela tortura de outros milhares.  É bem provável que um número substancial de chilenos inocentes tenha morrido ou desaparecido ou sofrido tratamentos brutais como resultado das ações de Pinochet.  Porém, em uma batalha para se evitar a imposição de uma ditadura comunista, é algo incontestável que a maioria daqueles que morreram ou sofreram torturas estava preparada para infligir um número excepcionalmente maior de mortes e uma escala avassaladoramente maior de sofrimento aos seus conterrâneos.

A morte e o sofrimento desses propensos totalitários não deve ser lamentada, assim como não se deve lamentar as mortes de Lênin, Stálin, Hitler e seus respectivos auxiliares.  Tivesse havido um general Pinochet na Rússia em 1918 ou na Alemanha em 1933, as pessoas daqueles países, assim como o resto do mundo, estariam incomparavelmente melhores, exatamente em virtude da morte, desaparecimento e concomitante sofrimento de um vasto número de comunistas e nazistas.  A vida e a liberdade são positivamente auxiliadas pela morte e o desaparecimento desses seus inimigos mortais.  A ausência destas pessoas significa a ausência de coisas como campos de concentração e genocídios, e isso obviamente é algo que deve ser ardentemente desejado.

Quanto a todas as pessoas inocentes que morreram no Chile, seu destino deveria ser imputado principalmente aos conspiradores comunistas que queriam impor sua ditadura totalitária.  Como dito, as pessoas têm o absoluto direito de reagir e defender suas vidas, liberdade e propriedade contra um levante comunista.  Nesse processo, não se pode esperar que elas façam as distinções presentes em um processo judicial.  Elas precisam agir rapidamente e decisivamente para remover as ameaças.  Essa é a natureza de uma guerra de reação.  O cruel destino de inocentes, em sua grande maioria pessoas que não puderam ser distinguidas do inimigo, é responsabilidade dos comunistas.  Caso eles não tivessem tentado impor sua ditadura totalitária, não haveria qualquer necessidade de uso de força e violência para impedi-los.  Consequentemente, os inocentes não teriam sofrido.

Por fim, vale lembrar que o general Pinochet voluntariamente renunciou à sua ditadura.  Ele fez isso após ter logrado dois êxitos: impedir uma tomada comunista e impor vastas reformas pró-livre mercado na então completamente combalida economia chilena.  O efeito dessas reformas foi o transformar o Chile na mais próspera economia da América Latina.  De acordo com as palavras do hostil obituário do The New York Times, o ditador utilizou seu poder para “determinar limites, por exemplo, nos debates sobre políticas econômicas, frequentemente alertando que não toleraria um retorno a medidas estatizantes”.

(…)

Não obstante o fato de que o general Pinochet utilizou seus poderes de ditador para implementar grandes reformas pró-livre mercado, a ditadura jamais deve ser vista como um meio justificável para a implantação de tais reformas, por mais necessárias e desejáveis que elas sejam.  A ditadura é a mais perigosa das instituições políticas e facilmente produz resultados catastróficos.  Isso porque um ditador não está restringido por nenhuma discussão ou debate público, o que facilmente o permite levar o país a desastres que poderiam ter sido evitados caso houvesse a liberdade de se criticar suas ações e de se fazer oposição a elas.  E mesmo quando suas políticas parecem estar certas, o fato de que elas são impostas contrariamente à opinião pública apenas faz aumentar a impopularidade delas, dificultando ainda mais qualquer necessidade de mudança permanente.

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20 pensamentos sobre “Chove em Santiago e em Atenas (2)

  1. vivendipt

    bom texto meu caro!

    A lei do superavit estrutural
    O Chile adotou, a partir de 2001, uma medida que é considerada a chave para sua estabilidade atual: a lei do superavit estrutural, de 1% do PIB – um mecanismo anticíclico, através do qual o governo economiza receita nos anos bons para poder gastar mais nos anos de vacas magras.

  2. vivendipt

    E uma sugestão, não tenham medo de escrever sobre Salazar aqui:

    um post de hoje:http://vivendi-pt.blogspot.com/2012/06/o-fantasma-economico-de-salazar.html

    O fantasma económico de Salazar

    Com o passar do tempo, marcados fortemente pela crise, temos cada vez mais pessoas a ultrapassar a espuma dos dias, a querer perceber de fato porque se entrou em derrocada económica-social e as comparações com o regime passado passaram a ser inevitáveis.

    Um assunto que inflama muitos pois existe quase uma desmontagem de um conjunto de dados adquiridos que se julgavam arrumados ao passado com a queda do velho regime que agora caiem como um castelo de cartas.

    Para melhor contribuir para este debate e ajudar a desmistificar a problemática exponho aqui um excelente comentário.

    Comentário retirado daqui: As comparações são inevitáveis… (blog Porta da Loja)

    Por Filipe Silva (nosso estimado e assíduo leitor)

    O modelo de desenvolvimento de Salazar tinha excelentes resultados, taxas de crescimento acima de 6% ao ano, sem recurso a divida, isto é, o verdadeiro crescimento sustentável.

    Hoje temos um PIB inflacionado pela divida, sem esta o PIB real seria muito mas muito mais baixo.

    Vamos penar devido a este peso brutal da divida.

    Era uma ditadura em que o peso do estado na economia era apenas de 15%, sendo hoje 51%
    Hoje nada é feito sem que o Estado autorize, com as PPP e companhia vê-se bem a qualidade da democracia, esta Vaca sagrada

    Interessante que se diga que era uma miséria, se utilizarmos o IDH no tempo da ditadura estávamos na posição 22 hoje na 44, em termos relativos (comparando com os outros países do mundo) estamos muito piores hoje.

    Temos de ver que quando Salazar toma o poder, o atraso português que vinha da monarquia era avassalador, pedir mais naquela altura era difícil.

    Não tenho qualquer afinidade com o sistema do estado novo, mas também não tenho por este sistema que hoje temos.

  3. vivendipt

    Pela verdade económica, sempre!. Essa é a verdeira justiça e liberdade que um cidadão deve aspirar.

  4. Ricardo, os meus agradecimentos por comprovar a minha tese. Já agora um detalhe: o governo do Chile tinha sido democraticamente eleito e tinha tantas semelhanças com o regime cubano como o Pinochet com um democrata. Ah, e falta um zero no número de mortos.

  5. Diga-se que havia montes de Pinochets em 1918 – Kornilov, Denikin, Wrangler, Koltchak, etc. (ok, o que Reisman quer provavelmente dizer é um Pinochet vencedor).

  6. Já agora, onde é que, no essencial, o programa do Syriza difere do programa dos Trabalhistas britãnicos nos anos 40, ou da frente da esquerda francesa de Mitterrand em 1981? A única diferença significativa que vejo é a “introduction of direct democracy and institutions of self-management under workers’ and social control at all levels”.

  7. Ricardo Lima

    Miguel, nunca li o programa, na integra, de Mitterrand. Quanto ao Labour nos anos 40, está certo. Apesar do contexto ser bastante diferente.

  8. A. R

    3 000? Isso foram ajustes de contas entre o colonizador cubano e os idiotas úteis chilenos que vendiam o seu país como Chavez vendeu a Venezuela.

  9. th

    Ricardo Lima, bem vindo ao universo do branqueamento de ditadores. Parece aqueles da esquerda que dizem coisas como “Aquilo de Cuba até tem as suas vantagens.”

    Gostei especialmente de:
    – “É bem provável que um número substancial de chilenos inocentes tenha morrido ou desaparecido ou sofrido tratamentos brutais como resultado das ações de Pinochet. ” Provável, não é certo, se calhar até eram todos culpados.

    – “Porém, em uma batalha para se evitar a imposição de uma ditadura comunista, é algo incontestável que a maioria daqueles que morreram ou sofreram torturas estava preparada para infligir um número excepcionalmente maior de mortes e uma escala avassaladoramente maior de sofrimento aos seus conterrâneos.” O Pinochet era tipo aqueles putos divinitórios do Relatório Minoritário. Suspeitava que fossem fazer crimes, matou-os logo. Pergunto-me porque não implementamos cá esse tipo de justiça.

    – “Por fim, vale lembrar que o general Pinochet voluntariamente renunciou à sua ditadura.” Façam já uma estátua ao rapaz.

    Em suma, quando chegamos ao ponto de estar a defender um ditador desta maneira, é altura de parar para pensar um pouco. 3 anos de socialismo não justificam 15 anos de ditadura para “limpar” o país.

    Asco, Ricardo Lima. Asco.

  10. migspalexpl

    “Porém, em uma batalha para se evitar a imposição de uma ditadura comunista, é algo incontestável que a maioria daqueles que morreram ou sofreram torturas estava preparada para infligir um número excepcionalmente maior de mortes e uma escala avassaladoramente maior de sofrimento aos seus conterrâneos.

    A morte e o sofrimento desses propensos totalitários não deve ser lamentada, assim como não se deve lamentar as mortes de Lênin, Stálin, Hitler e seus respectivos auxiliares. ”

    Tenho que agradecer ao Ricardo Lima – nunca tinha passado pelo Mises.org e ainda tinha uma esperança que fosse um sítio minimamente frequentável. Agora já sei o que pensam os austríacos sobre a matança de simpatizantes comunistas.

  11. Parece os comunistas imbecis que justificam Cuba com Batista ou a URSS com os Czares. No outro post perguntei se isto era a gozar, agora vi que não e tenho pena. Tenho pena porque podia fazer a defesa do modelo económico sem esta desculpabilização ridícula, como se pode fazer do de Salazar sem fazer a apologia ou relativizar a parte negra do regime. Pode-se fazer uma defesa igual do regime de Salazar com “ah, se não fosse o Salazar os comunistas chegavam ao poder e matariam um porradão de gente, por isso até foi bom haver o Salazar”, um ditador é um ditador, o facto de um Liberal defender um deles só me afasta mais da causa liberal.

  12. neotonto

    Bom; parece que a Historia ja se pronunciou oficialmente.
    Se gosta de generais que pretendem armarse em Chicagoboys dá no que deu.
    Enquanto sao coroneis dá o que dá para uma mini-dictadura.
    Se a armada completa só consiste em capitaes entao dá o que dá. Assim uma pagina escrita daquela forma.

    So resta esperar. Mais que reescrever a Historia e amanhás que cantam contar o que foi na próxima página que ainda está em blanco e por escrever…

  13. Pingback: Ditaduras e Ditaduras! | Os Cafeínicos

  14. Ricardo Lima

    Se os “simpatizantes comunistas” tentarem tomar o poder, o direito de auto-defesa do indivíduo e da sua propriedade fala por si….

  15. vivendipt

    Ver a esquerdalha preocupada e horrorizadas com as ditaduras de direitas mete piada. Então e as ditaduras de esquerdas pá! Não foram milhares mas sim muitos milhões de mortos. Acordem para a vida! Tem a mania que tem o registo moral e o bom senso mas nem os vossos erros reconhecem.

    E quem dera a Portugal ter os indicadores de hoje do Chile.

    Estudem mais!

  16. th

    Há quem abdique os seus ideais e se venda à barbárie por pouco. São estes os liberais que temos?

  17. Pingback: O direito ao esclavagismo e à ignorância – Aventar

  18. Pingback: Ao cuidado do insurgente mental Miguel Botelho – Aventar

  19. lb

    http://www.breitbart.com/system/wire/DA4KIM883

    Newly published U.S. documents indicate that Chilean dictator Gen. Augusto Pinochet planned to use violence to annul the referendum portrayed in the Oscar-nominated film “NO” that ended his brutal regime.

    The formerly top-secret documents posted by the independent U.S. National Security Archive on Friday also show U.S. officials warning Chilean leaders against violence if Pinochet tried to use force to stay in power.

    But Pinochet, “planned to do whatever was necessary to stay in power,” just a day before the Oct. 5, 1988, referendum, according to a Defense Intelligence Agency document based on information from a Chilean Air Force officer.

    “Pinochet reportedly told advisors: `I’m not leaving, no matter what,'” the document said

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