Já percebi!

Hoje é, sem dúvida, um grande dia: percebi finalmente a razão – e que avassaladora esta é – de tanto se dizer que temos um governo liberal que segue uma política também ela impenitentemente liberal ou até mesmo ultra-liberal. Como porventura haja mais quem me tenha acompanhado nesta perplexidade de teimar em não ver liberalismo num governo apelidado de liberal, eu vou partilhar convosco o meu processo de raciocínio que me guiou até à iluminação.

Ora já havia eu reparado há uns anos que a gente de esquerda não precisava de seguir qualquer política que melhorasse o nível de vida da população (em especial da população mais pobre) para ser considerada de esquerda. De facto, inúmeras vezes (ou, melhor, todas as vezes) decidiram-se por políticas que provocavam a curto, médio ou longo prazo mais pobreza (a situação actual de bancarrota é um exemplo de entre muitos). A gente de esquerda não necessita de resultados eficazes na melhoria do nível de vida ou na diminuição da pobreza para ser gente inegavelmente de esquerda. Na realidade, a gente de esquerda só precisa de dizer que se preocupa com os pobres (essa categoria abstracta com a qual nunca se cruzaram se não nos livros de Manuel da Fonseca ou de Dickens), com a redistribuição de riqueza, com as prestações sociais, praticar uma diatribe ou duas contra os ricos ou os bancos para ser apelidada de esquerda. De seguida pode aumentar a carga fiscal, o que leva a contracções que levam à falência empresas e fazem explodir o desemprego e a pobreza, que não faz mal: a profissão de fé já havia sido feita. Carlos Magno – o senhor que agora vai decidir sobre o caso Relvas-Público – resumiu muito bem isto num comentário televisivo ao debate entre Sócrates e Pedro Santana Lopes (cito de memória): comentou o senhor que durante a apresentação de ideias dos dois candidatos não se percebia quem era o candidato da esquerda (i.e., o bom candidato), até que Sócrates disse algo como ‘alguém de esquerda nunca deixa de olhar para a pobreza’ e aí Magno decidiu-se a entregar o prémio ‘ser de esquerda’ a Sócrates; em suma, pelas políticas propostas, Magno não percebia o esquerdismo, mas não fazia mal, o que interessam as políticas?, o importante fora a profissão de fé das palavras de Sócrates. O que contam não são os actos, mas as intenções (declaradas).

Com a ajuda deste post do André, percebi que, afinal, para a direita liberal se passa algo simétrico. Um governo pode aumentar a apropriação pelo estado de recursos das empresas e de particulares (vulgo, aumento de impostos), pode patrocinar regimes fiscais totalitários (um exemplo, e nem é necessário relembrar as pretensões de Teixeira da Cruz com o enriquecimento ilícito), pode aumentar a despesa pública, pode criar leis higienistas que condicionem os comportamentos dos fumadores dentro dos seus carros, pode reduzir a liberdade contratual dos agentes económicos, pode tudo, que, novamente, as políticas efectivas não interessam. Desde que o governo diga que quer diminuir os impostos, que quer privatizar isto e mais aquilo, pode à vontade aumentar impostos e não privatizar nada, que será sempre um governo liberal. O que conta não são os actos, mas as intenções (declaradas).

10 pensamentos sobre “Já percebi!

  1. Ricardo Monteiro

    Até agora só houve governos de centro ou centro direita em Portugal ( com alguma estabilidade, entenda-se). Não há grandes diferenças entre o PSD e o PS, daí a deslocação de votos entre um e outro. Quem votou no PS antes, vota no PSD agora sem grandes problemas e vice versa.

  2. tric

    “Não há grandes diferenças entre o PSD e o PS, daí a deslocação de votos entre um e outro. ”
    .
    isso era antigamente, actualmente a deslocação faz-se tanto do PS como do PSD para a abstenção…é provavel que exista alguma transferencia de voto do Bloco de Esquerda para o “CDS”, dada a sua nova politica de roubar as bandeiras do Bloco…no entanto, essa transferência vai ter impacto ou mesmo negativo, visto que o “CDS” irá perder alguns votos tambem para abstenção devido ter abraçado as causas fracturantes do bloco de esquerda…com a próxima e mais que provavel abstenção histórica o partido comunista mais a seu eleitorado fiel é o que terá maior subida eleitoral em termos de percentagens

  3. Paulo Pereira

    O PSD e o PS não tem qualquer ideia sobre o país. Por isso são de esquerda , do centro e de direita ao mesmo tempo ou sequencialmente.

    Esses dois partidos são inuteis e até prejudiciais ao país, pelo menos desde 1990.

  4. agfernandes

    Maria João

    Acertou em cheio em mais um nervo essencial da gestão política caseira: a desinformação calculada.

    Desde ontem que andava incomodada com um comentário que ouvi na TVI24 sobre como este governo tinha medidas ultra-liberais, etc. e tal, quando afinal apenas tem acolhido sem reservas todas as orientações dos avaliadores externos, desde que não toquem nas suas estimadas excepções.
    Esta definição utilizada por quem sabe o significado de liberal não é nada inocente.
    Um abraço!
    Ana

  5. Maria João Marques

    Pois, Ana, dá-se uma imagem de governo nos antípodas do anterior para melhor se lhe poder seguir a política – que, como bem refere, é a da troika e negociada pelo governo anterior – excepto num ou noutro pequeno pormenor (apenas para melhorar a caracterização informativa).
    Beijinho.

  6. Maria José

    Perceba isto então:

    O regime praticado em Portugal é, no campo económico o Capitalismo de Estado ou o Liberal Socialismo, e é sustentado politicamente por uma Partidocracia.

    Portugal é, um zigue-zague tanto à direita como à esquerda, de uma corrupção liberalizada e de um despesismo socializado, e não me acuse de ser Pinóquio, pois estará a abusar.

    vivendi-pt.blogspot.com

  7. O ícone liberal.

    vivendi-pt.blogspot.com/2012/02/icone-liberal.html (publicado em Fevereiro)

    Foi anunciado em campanha que se ia cortar na gordura do estado e até agora (+ de 8 meses de governo) só foram ainda à carne dos portugueses.

    Não aja assim confusão de rótulos.

    Não dá para ter como ícone liberal alguém que eleva impostos e não corta nos gastos e protege os interesses dos grandes grupos económicos…

    Continua a ser o estado (ou o monstro) quem mais ordena e isso chama-se intervencionismo.

  8. António Ferreira

    De intenções está o governo (ou devo dizer o inferno?) cheio. Excluindo uma privatização ou duas, este governo é tão liberal como o Karl Marx. Portugal não vai mudar nos próximos anos, a não ser que apareça um partido tipo UKIP, com figuras com carisma do género do Nigel Farage e do Godfrey Bloom. Até lá vamos andar nesta pasmaceira do diz que disse que fez pressões e que ameaçou revelar pormenores da vida privada de alguém. Enfim, é isto que distingue os países verdadeiramente civilizados e os países ditos civilizados.

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