No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o i deste sábado.

A força da Irracionalidade

Perante o desastre, a irracionalidade dos homens levará à desagregação da Europa ou à sua unificação numa entidade ainda mais artificial e explosiva.

Se a eleição de François Hollande para o Eliseu teve algum efeito, foi a convicção de que a crise se resolve com um pouco de boa vontade. Que se não formos tão austeros, tão exigentes, se facilitarmos um bocadinho, o problema desaparece. Os adeptos desta teoria partem do pressuposto que a crise se acentuou com a quebra da despesa dos estados, como se ela não fosse fruto da dívida pública que estrangula as economias. Vêem a Europa como um projecto que prometia uma sociedade justa, sem diferenças para atenuar, sem necessidades por satisfazer, a cair que nem um baralho de cartas, devido aos efeitos nefastos da globalização que os actuais dirigentes europeus, por não serem do calibre de Mitterrand, Delors e de Monnet, não conseguem controlar. A vontade de que tudo volte ao que era, está na génese da irracionalidade com que se analisa as causas da crise e se procuram soluções. Ou talvez seja pior ainda. Talvez a irracionalidade não seja de agora, mas de quando se acreditou piamente numa instituição supranacional, não eleita, com o fito de criar, de cima para baixo, uma união política que fizesse frente aos EUA.

O projecto europeu, que se iniciou para evitar que a Alemanha controlasse o carvão e o aço e mais tarde se estendeu à liberalização dos mercados, acabou por dar lugar a uma entidade política acima dos estados. A par disso, a crença na capacidade dos estados criarem e distribuírem riqueza, explica a existência de autênticos monstros que consomem os esforços dos cidadãos. Actualmente, não há parte da nossa vida em que o Estado não esteja presente como receptor de receitas. A irracionalidade também deu nisto: os governos, porque se considera que criam riqueza, precisam das receitas dos privados para produzir riqueza. Daí o aumento contínuo da carga fiscal, mesmo quando a economia crescia; daí os défices públicos que já existiam muito antes da crise de hoje. A mesma irracionalidade que permitiu que o dinheiro fosse mais barato que o valor de mercado, que levou os políticos a condicionar os bancos a emprestar dinheiro aos cidadãos, não para produzirem mas para gastarem e os convenceu a comprarem casa em vez de a arrendar, é a mesma que se prepara para agir nos meses mais próximos e hipotecar o que resta das nossas vidas.

Nos últimos meses os europeus tentaram ser racionais e assustaram-se. Intimidaram-se com a dimensão do desastre, decidiram fechar novamente os olhos e estão prontos a saltar de cabeça. A França tem a sua economia estagnada e uma dívida fortíssima, pelo que um braço-de-ferro com a Alemanha de Merkel será complicado. Sucede que, para muita boa gente o dinheiro vale o que os governos quiserem que ele valha. Não é difícil que os estados se continuem a endividar se o dinheiro valer menos e, dessa forma, também a dívida. A acontecer, não será a primeira vez que a um estado deixa de pagar o que deve. A pouca força negocial de Hollande pode fazê-lo procurar o apoio na instabilidade social que faz os mercados ameaçar o euro. É a mesma estratégia utilizada pela extrema-esquerda grega: se não for como queremos será o caos. Algo que pode forçar Merkel a ceder em troca de um reforço das instituições europeias, de uma união fiscal e política que abafe de vez a soberania dos países. A loucura a gerar loucura. Sem que demos conta, ficamos pobres e vemos a liberalização do mercado europeu a acabar num super estado centralista, acima da nossa capacidade de compreensão.

A partir daqui tudo é possível: um federalismo asfixiante ou uma desagregação da Europa que leve ao proteccionismo dos Estados. São meras suposições, dir-me-ão. Mas a irracionalidade não me deixa alternativa. É ela que explica o porquê das guerras que liquidaram a velha Europa. A que convence alguns que seja com mais dívida que saímos da crise da dívida. A que nos permite antever o que pode acontecer. Porque quando todos os cuidados são poucos, a irracionalidade dos homens é a primeira coisa a temer.

Anúncios

4 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. Paulo Pereira

    Se querem uma moeda federal, têm de ter uma divida federal e impostos federais.

    Elementar !

    Além disso poderão estudar Nixon e Reagan e verificar que o Dick Cheney tinha razão : Deficits don’t matter

    Desde que o Banco Central actue de forma normal.

  2. hcl

    Se “Deficits don’t matter” porque não tivemos um deficit de 50.000.000% do PIB quando tínhamos o escudo?

    Papel, tinta, camiões para o transporte e imprimíamos o necessário para pagar a dívida.

    Hmmm!
    Se calhar não nos emprestavam em escudos porque não confiavam na moeda. Os bandidos se calhar queriam os empréstimos em dólares ou marcos.

    Será que se imprimir-mos Euros nos vão continuar a emprestar em Euros ou só enquanto a Alemanha garantir o Euro?
    Será que a Alemanha está disposta a isso?
    Será que quem empresta dinheiro é um patego e não sabe o que está a fazer?
    Será que quem empresta dinheiro suficiente para fazer um TGV vai querer receber o que só dá para 1/3 de TGV porque entretanto se imprimiu dinheiro à fartazana?
    Será que vão continuar a emprestar depois de terem sido roubados?
    Será que preferem comprar ouro ou depósitos de minério ou terra em vez de perderam dinheiro a emprestar aos Estados que , na prática, estão constantemente em default pela desvalorização da moeda?

    O deficit não interessa aos políticos porque não o pagam (“Deficits don’t matter”, “o dinheiro depois aparece” , etc. da esquerda à direita estatista)
    A mim também não me interessam as dívidas do Srilanka.

  3. Paulo Pereira

    hcl,

    O post é sobre a U.E. e sobre a Zona Euro e não sobre Portugal, não sei se reparou nisso.

    O projecto deste Euro é uma fantasia adolescente, sem base teórica ou histórica.

    Uma moeda federal exige divida federal e fiscalidade federal, como já foi demonstrado há 250 anos nos EUA.

    Além de ser uma fantasia, resulta em mais estatismo como se verifica.

    Portanto o tiro sai pela culatra aos que queriam engaiolar os estados com este Euro.

    Mas isso não impede que se procurem soluções nesta realidade.
    E como já é óbvio não é embarcar numa austeridade sincronizada que se vai salvar o Euro.

    Mais uma vez : a divida publica é apenas despesa pública não retornada em impostos, nem mais nem menos.

    O BCE pode resolver o problema do aumento dos juros , bastando determinar uma taxa máxima para todos os países que estiverem a cumprir os valores do deficit .

  4. JS

    Boa síncrese. Ingenuamente, apostando na racionalidade dos homens, alvitraría como mais provável a hipótese que chama “…à desagregação da Europa …” mas com outro, mais doce, eufemismo.
    Passando por uma “desagregação”, sim, mas a caminho de uma simples reafirmação das Nações. Reafirmação das Nações Europeias.
    A velhinha Europa das Nações, dos Povos. E em democracias directas.
    Quiçá, até, com novas Nações Federadas. Só aqui ao lado, em Espanhã, teríamos meia dúzia. Na Bélgica mais três … E se calhar na própria Alemanhã haveria surpresas …

    O próprio €Euro, afinal, seria um mal que veio por bem.
    A “Alemanhã”, nesta fase, já não quer estar num €Euro que não controla a 100%.
    Quer ter o seu €Euro/Marco completamente sob controle. De outro modo, em alternativa, criará, germanicamente, um novo-Marco. Tem esse direito.

    Neste caso, refazer as outras 17 moedas seria inútil e pouco prático. Mais óbvio, será, admissivelmente, um reagrupamento das Nações com economias e finanças pareáveis, em moedas comuns, já existentes.
    “Apenas” escolher cuidadosamente -apredendo/evitando os erros cometidos na criação do €Euro- com qual das moedas negociar, se reagrupar.
    O “velhinho” €Euro, o Novo-Marco, Coroa sueca, a £Libra, o $Dolar USA.
    Ainda haverá opções, longínquas para Portugal, o Rublo, o Zlot…, para quem goste.
    Uma coisa é certa. Esta Europa e este €Euro já foram. Os seus Campiões são só os seus desastrados criadores -políticos e partidos nas suas insustentáveis torres de marfim- e os actuais únicos beneficiários, e continuadores.
    Quem tem medo do futuro?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.