Uma breve história dos manifestos de esquerda

Tudo começou em 2009, enquanto alguns começavam a avisar para os perigos do crescimento da dívida pública, uns economistas de esquerda inauguraram a moda dos manifestos com o “Manifesto pela Despesa Pública”. Mais tarde, já em plena crise da dívida soberana, alguns membros desse grupo lançaram o “Manifesto dos economistas aterrados”. Alguém que interpretasse o título de forma mais literal poderia depreender que o manifesto fosse um pedido de desculpas em forma de sacrifício físico. Mas não, a única coisa que aqueles economistas tinham enterrada era a cabeça na areia, porque continuavam a pedir exactamente o mesmo tipo de políticas que tinha despoletado a crise.

O hábito dos manifestos de esquerda espalhou-se entretanto. Alguns com títulos muito específicos como o “Portugal necessita de investimento público estratégico. Parar é sacrificar o futuro” ou o “Manifesto contra a directiva de retorno”, outros menos como o “Manifesto para um mundo melhor” (como não assinar).

2011 foi um ano grande para os manifestadeiros, mas, a certa altura, passaram-se quase 3 dias sem manifestos e a esquerda ficou impaciente lançando de imediato o “Manifesto contra a resignação”. Seguiram-se manifestos elitistas do bloco de esquerda como o “Manifesto de 51 economistas e cientistas sociais” que, qual nightclub da moda, restringiu logo no título o número e tipo de pessoas que poderiam participar. O PCP respondeu de imediato com o manifesto “E o povo, pá?”. Mas não é só de lutas à esquerda que se faz a história dos manifestos. Quando todos os meses do ano tinham já acordado assinar um armistício, surgiu o manifesto “Abril não desarma”, colocando de lado qualquer esperança de paz entre os meses.

A cultura é o tema preferido dos manifestadeiros. Tivemos o “Manifesto – Por Uma Cultura Para o Século XXI” e umas dezenas de manifestos em específicos para o cinema em Portugal, entre os quais um com o nome criativo de “Manifesto pelo cinema português”. Claro que a cultura não vive de manifestos, mas de acção (é preciso levantar o rabo do sofá e ir ver esses nacos de cultura que se querem ver subsidiados). Talvez com receio da acusação de preguiça, foi lançado o “Manifesto em defesa da cultura (o manifesto que quer ser movimento)”.  Não sei ao certo se o manifesto obteve as suas pretensões, mas espero que sim.

Mas a criatividade que muitas vezes escasseia entre os nossos agentes culturais subsidiodependentes, não falta aos manifestadeiros. Alguns manifestos têm títulos irónicos, como aquele manifesto aprovado por meia dúzia de sem-abrigo no Rossio que visava contrariar os resultados de umas eleições onde tinham votado 5 milhões pessoas, ao qual resolveram chamar “Manifesto plural”. Alguns rimam, como o “Manifesto contra a escalada neoliberal, por uma nova agenda sindical”. Com Portugal em êxtase pela declaração do fado como património mundial, a esquerda aproveitou para lançar o  “Manifesto pela desclassificação do Douro como Património da Humanidade”. Foi nesta altura que meio país se começou a questionar como é que a malta de esquerda tinha tanto tempo para escrever manifestos. Eles trataram de dar a resposta – imagine o leitor como – com o “Manifesto dos sem emprego”.

Mais recentemente, quando um grupo de fanáticos benfiquistas homenageou o seu presidente baptizando todas as ruas de Lisboa com o seu nome (“Rua Vieira”, lia-se um pouco por todo o lado), a esquerda não se ficou e de imediato lançou o manifesto “A rua é nossa”.

Entretanto parece que há aí outro manifesto, que só consegui ler no Arrastão porque quando me enviaram para o e-mail foi apanhado no filtro de spam: chama-se “Manifesto por uma esquerda livre”. Livre de manifestos, esperamos todos.

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22 pensamentos sobre “Uma breve história dos manifestos de esquerda

  1. Miguel Noronha

    Que tal criarmos um “Observatório dos Manifestos””. Financiado pelos contribuintes, é claro.

  2. Carlos Guimarães Pinto

    Como é que eu me fui esquecer do “A rua é nossa”! Já está corrigido.

  3. Pingback: Sulista, Elitista e Liberal » Blog Archive » Uma breve história dos manifestos de esquerda

  4. Manuel Costa Guimarães

    Caro Ricardo,

    Quem é que controla essa Comissão? Proponho um observatório para controlar a comissão de controlo do observatório (já me perdi!)…

  5. Miguel Noronha

    É tempo de criarmos também um observatório para as comissões de controlo dos observatórios.

  6. Jaques Towakí

    “A Rua é Nossa!”

    Pois podem ficar com ela! A revuloção NUNCA começa nas ruas, mas sim nas MENTES dos homens…e das mulheres, é claro!

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