Autonomia (4)

É possível que Beethoven tenha cultivado as suas excentricidades de conversação e trato como um trunfo social. Beethoven era recebido como amigo em casa das mais nobres famílias de Viena. Tinha mecenas dedicados e generosos, mas as relações que mantinha com eles eram muito diferentes das que existiam entre Haydn ou Mozart e os seus patronos: durante a maior parte da vida Haydn usou uma libré de lacaio, e Mozart foi um dia expulso de casa do arcebispo por um secretário. Beethoven não se curvava perante os príncipes para obter os seus favores; tratava-os com independência e ocasionalmente até com extrema rudeza, ao que eles reagiam, encatados, com propostas de apoio financeiro. Como o próprio Beethoven disse um dia, «é muito bom conviver com aristocratas, mas é preciso saber como impressioná-los». […] Deste modo. conseguiu deixar ao morrer, um património relativamente avultado e, mais importante do que isto, nunca se viu obrigado a escrever música por encomenda e raramente teve de cumprir prazos. […] E precisamente por Beethoven escrever para si mesmo – ou seja, para um público ideal, e não para um mecenas ou para um função imediata e bem definida – é que a sua música tem um cunho tão pessoal […]

História da Música Ociedental, Donald J. Grout e Claude V. Palisca, Gradiva, pags. 555-556.

Afinal parece que é possível criar em plena liberdade sem o apoio do Estado.

15 pensamentos sobre “Autonomia (4)

  1. Pois claro que é. Quando se chega a uma idade (no caso de Beethoven, 35) em que há uma carreira e uma obra que todos conhecem e apreciam. Quando se tem um nome. Mas até aí o compositor sempre dependeu de mecenas, a maioria dos quais governantes que iam buscar aos impostos cobrados para o financiar. Um parasita subsidiodependente, portanto. E mais tarde, quando a fama começava a desvanecer, voltou a depender exclusivamente de mecenas para continuar a compor. Durante o período de ouro, não admira que pudesse tratar com rudeza os… mecenas. Não preciso de deixar aqui o link com os nomes destes príncipes e as posições que ocupavam na época, certo? A areia atirada para os olhos têm de ser bastante mais fina. Citações fora de contexto são peanuts.

  2. Carlos M. Fernandes

    Parece que vamos ter que falar de Schubert. Enfim, fica o aviso, assim pode começar já a consultar a wikipedia.

  3. Rui Oliveira

    Sérgio, diga-me apenas uma coisa, Por que se deve subsidiar a arte?
    Gostava que me desse a resposta a esta pergunta.
    Mais, acha mesmo que só há arte com o apoio do Estado? E que o Estado é composto por anjos que permitem a maior liberdade criadora aos artistas e não faz escolhas ideológicas? Mais, quem é o Estado? Tem vontade independente daqueles que deciem por ele?

  4. “Beethoven não se curvava perante os príncipes para obter os seus favores; tratava-os com independência e ocasionalmente até com extrema rudeza, ao que eles reagiam, encatados, com propostas de apoio financeiro. ”

    Mas, por essa descrição, acaba por ser parecido com os tais cineastas que querem subsidios não? Por um lado, vivia de subsidios, e por outro, tratava com rudeza as mesmas pessoas que lhe atribuiam os subsidios.

    Até se podia argumentar que isso provaria que “é possível criar em plena liberdade com o apoio do Estado”

  5. Luís Barata

    Nem sei que chamar ao entimema? dedução? indução? dos autores sobre a independência, prazos e cunho pessoal. É evidente que os homens superiores estão acima deste tipo de condicionantes. E do mesmo modo que pagar o ensino a todos não os ensina a pensar, dar dinheiro a um grande artista não lhe retira independência nem o corrompe de modo significativo. Mas as leis não são feitas nem para animais, nem para anjos, mas para homens.

  6. Rui Oliveira

    Talvez Miguel, mas será possível comparar os príncipes do Império Austríaco com representantes do Estado moderno? É lógico que ele tinha mecenas, mas fez por isso. Os nosso artistas exigem que os contribuintes os financiem e fazem birra. Ora, para além de ser lógico que a arte é independente do Estado, que sempre existiria arte com ou sem Estado (seria é naturalmente diferente), contínuo na minha, por que deve o Estado financiar as artes. Por quê? Deve ser uma pergunta simples de responder.

  7. João Lameira

    Por que é que o Estado tem de financiar as artes? Para que existam, talvez. Muito bem que se defenda que o Estado português não deve subsidiar o cinema, por exemplo, mas tem de se perceber que assim este deixa de existir. Pura e simplesmente. Não há filme que se pague num mercado tão pequeno como o nosso. Não é por acaso, com certeza, que mesmo em países e mercadores bem maiores, como a França e o Brasil, há apoios estatais. Os únicos países (com cinema) onde isso não acontece são a Índia (facilmente se percebe porquê) e os EUA (que controlam boa parte do mercado fora de portas). Ou seja, é uma escolha: sem apoios do Estado ao cinema, não há cinema português, nem francês, nem brasileiro, nem coreano, nem espanhol, nem os outros todos, só há Bollywood e Hollywood.

  8. neotonto

    As veces nao sei onde estes insurgentes querem chegar com as suas anécdotas históricas e aonde ir parar…
    Bem certo que o Virgilio para compor as suas Geórgicas, precissou de um protetor Mecenas, constam de quatro livros, tratando da agricultura. Trata-se de uma obra de implicações políticas indiretas, embora bem definidas: ao fazer a apologia da vida do campo, o poeta serve o ideal político-social da dignificação da classe rural.
    Mais se há ejemplo significativo para retirar o que é a participaçao do Estado na “cultura” teríam um caso bem mais instrutivo. Os pintores de Altamira e Lascaux nem precisaram de ajudinha nenhuma por parte do estado para fazer as suas obras…

  9. H.R.

    Equiparar Beethoven ao comum dos mortais é ridículo. São pessoas com uma genialidade que só surge uma em cada século, se tivermos sorte. Não podemos esperar que apareçam Beethovens do nada, por cada Beethoven no mundo houve um milhão de compositores medíocres que tentaram e falharam, mas dependendo das condições e expectativas, talvez nem se dessem ao trabalho de tentar, e aí não haveria Beethovens nenhuns.

    A grande diferença de mentalidade parece ser que algumas pessoas acham que se “a economia” tivesse decidido que o Beethoven não valia nada, então pronto, não era perda nenhuma para a Humanidade. Eu, nesse ponto, discordo. Prefiro gastar alguns trocos, na esperança que um dia destes apareça algum Beethoven, e não correr o risco de o deixar passar despercebido.

  10. Miguel Noronha

    “Prefiro gastar alguns trocos, na esperança que um dia destes apareça algum Beethoven, e não correr o risco de o deixar passar despercebido”
    Pois então gaste os seus “trocos”. E deixe as outras pessoas a liberdade para decidir onde querem gastar os seus.

  11. Já li uma vez que o povo mais inteligente do Mundo eram os austríacos pois conseguiram convencer toda a gente de que Mozart era austríaco e Hitler alemão…

  12. H.R.

    Miguel Noronha, dou toda a liberdade aos outros de usarem o seu dinheiro como quiserem, tal como gosto que façam comigo.

    O que me entristece é a leviandade com que se tem falado aqui por vezes das mais grandiosas criações artísticas da humanidade, como se por qualquer vantagem económica, i.e. meia dúzia trocos, valesse a pena que não existissem hoje em dia.

    E tenho medo de um futuro onde a mentalidade prevalente é a de que o dinheiro vale mais que tudo.

  13. Miguel Noronha

    Longe de mim achar que o dinheiro vale mais que tudo. O que digo é que cada tem a sua própria cadeia de valores e deve ter o direito de decidir o destino dos seus rendimentos.

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