No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

Sem Alemanha não há Europa

A alternativa à austeridade é a redução do peso do Estado ou um empobrecimento suave conseguido com a inflação. Estará Hollande disposto a tanto?

A vitória de François Hollande no último fim-de-semana está a ser analisada como um chumbo da França à política de austeridade de Angela Merkel. De acordo com os socialistas franceses e seus congéneres portugueses, a austeridade não chega e deve ser substituída por uma política de incentivo ao crescimento económico. Infelizmente, tal só se consegue de duas formas: ou reduzimos a despesa do Estado e descemos os impostos ao mesmo tempo que pagamos a dívida, ou carregamos no investimento público e o Estado volta a contratar pessoas e a pagar ordenados por inteiro. Ora se Hollande prefere a segunda solução como é que vai investir na economia se os estados estão endividados e o dinheiro lhes é emprestado a taxas de juros incomportáveis? Só há uma maneira: através da inflação e desvalorizando a moeda, pondo o BCE a emprestar dinheiro directamente aos estados, a um preço muito inferior ao praticado no mercado livre. No fundo, é levar à prática o que Paul Krugman anda a dizer há anos. Com esta solução, não só a dívida se reduz, porque vale menos, como os produtos ficam mais baratos e a inflação, num nível inicial, nos obriga a consumir. Com mais moeda a circular, achamos que temos mais dinheiro, que estamos melhor, apesar de mais pobres. É a receita do empobrecimento indolor que foi aplicada em Portugal, com o Bloco Central, em 1983. A receita que permitirá ao Estado continuar a gastar sem que os governos tenham de encetar as conhecidas reformas estruturais na lei laboral, na política fiscal e na redução do peso do Estado na economia. As medidas impopulares que tanto medo metem a quem está na política, mas que são as únicas capazes de levar ao crescimento da economia sem que se aplique, em cima de nós, um imposto disfarçado de correcção monetária e de inflação. Se o BCE emprestar dinheiro aos estados, o cidadão comum continua a não escapar à austeridade. Perde na mesma o seu dinheiro, com a diferença de que não sente. E porque não sente, os governos estão certos de que o convencem do quer que seja.

Não é difícil perceber por que motivo a solução de Hollande não agrada à Alemanha, que não precisa de desvalorizar a sua moeda para vender mais. Aquando da criação do euro, o governo e os sindicatos alemães acordaram, ao contrário do que sucedeu nos países do Sul da Europa, não subir os salários para níveis superiores ao da inflação. O custo do trabalho manteve-se baixo e a produção alta. Por isso os alemães não querem agora pagar a nossa dívida, que resulta de salários muito acima do valor que produzimos. Para piorar as coisas, a divisão entre a Alemanha e os países do Sul não se reduz a uma diferente perspectiva do problema. O grande dilema é o quanto a economia alemã se afastou da europeia. Conforme a BBC noticiou o mês passado, as exportações germânicas cresceram 3,4% em Janeiro e 1,6% em Fevereiro deste ano. Só em 2011, as vendas de produtos alemães ao estrangeiro aumentaram 13,2%, naquele que foi o melhor ano de sempre da indústria germânica, que vende cada vez mais para fora do mercado europeu. Números que contrariam quem diz que a Alemanha precisa da Europa para vender os seus produtos e que a austeridade serve apenas para manter o domínio alemão sobre o Velho Continente.

A maneira como Hollande vai lidar com este afastamento alemão é a grande incógnita dos próximos meses. Se o novo presidente francês quiser a dita solução do empobrecimento sem dor, esta será de uma injustiça comparável à da imposição à Alemanha da Paz de Versalhes, em 1919. Sucede que, ao contrário de então, os alemães não têm agora razões para ficar mais pobres. Da mesma forma que o projecto europeu surgiu para integrar a Alemanha na Europa, a penalização deste país pode ditar o fim da mesma Europa. Aquilo com que os políticos europeus se vão confrontar é saber se é possível salvar o Estado social europeu à custa da Alemanha, quando os dois estão intimamente ligados.

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9 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. Paulo Pereira

    Como se comprova pelo resultado nos EUA, Japão e R.Unido, a compra maciça de titulos pelos bancos centrais não produziu nem inflação, nem desvalorização.

    A politica de euro forte e juros altos tem tido como resultado desemprego elevado e impostos a subirem.

    O facto de terem sido cometidos erros no passado, não justifica as asneiras actuais na condução da politica económica da Zona Euro.

    A Alemanha não é a Europa.

  2. neotonto

    “Aquando da criação do euro, o governo e os sindicatos alemães acordaram, ao contrário do que sucedeu nos países do Sul da Europa, não subir os salários para níveis superiores ao da inflação”.

    ..

    Está seguro do que afirma?
    Podía dar o nome de qual governo e quais sindicatos alemaes acordaram isso?

  3. ricardo saramago

    A Europa do Norte tem superavits acumulados e a Europa do sul tem défices acumulados.
    Não é com tranferências, nem com empréstimos que os países endividados podem aceder a esse capital.
    Devem criar condições atractivas para que esse capital seja investido nos países do sul.
    Só há esta forma virtuosa de ultrapassar esta crise, sem guerra e sem desagregação da UE.
    Quando os países devedores reformarem as suas economias de forma a que seja bom negócio investir nestes países os capitais do norte vão acorrer.
    A conversa da solidariedade e do crescimento só faz sentido quando passar pelas reformas e competitividade.
    Merkel dixit.

  4. Paulo Pereira

    É impossivel num sistema capitalista com crédito ter uma austeridade expansionista.

    É uma fantasia sem qualquer base teorica ou historica, ou melhor é um fetiche.

    Fetiche por Fetiche aconselhava a Merkel e seus seguidores a escolherem outros , até porque os alemães tem larga experiência em Fetiches mais saudáveis !

    Os EUA não ligam ao fetiche austeritário (lembram-se do tal dos “deficts don’t matter ” ?) e lá vão crescendo e reduzindo o desemprego.

    A Zona Euro está controlado por gente um bocadinho para o estranho não está ?

    E quando é que os candidatos a liberais se deixam de fantasias sobre o funcionamento da economia capitalista e dos sistemas monetários?

    Já era tempo de assumir que o dinheiro não vem das minas !!!

    Liberalismo é incompativel com ignorância propositada ou com o esconder da realidade !

  5. APC

    Os EUA crescem a olhos vistos, o gráfico do PIB parece um monitor cardíaco, de QE em QE até que as entranhas se esvaziam e coisa vai de vez…

  6. APC

    Ó Paulo, eu sei que o Keynes te dá os calores, que vais debitar uma treta qualquer decorada e que somos todos parvinhos e tontos porque o dinheiro nasce nas árvores. Eu sei, obrigado.

  7. lucklucky

    Para começar Distorção Económica, Inflação, Aumento do Poder do Estado, Deferimento da Crise. Perca colossal de informação.

  8. Paulo Pereira

    E a hiperinflação quando é que chega APC ? E o fim do mundo será mesmo em 2012 ?

    L.Lucky explique à gente porque é que o QE traz esses maleficios todos, para a gente perceber melhor como é que funciona isso do QE !

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